A Natal de Carlos Gomes

Antônio Carlos Gomes, nascido em 11 de julho de 1836, foi um renomado compositor brasileiro, considerado um dos maiores expoentes da ópera no século XIX. Ele é frequentemente chamado de “O Guarani” em referência à sua ópera mais famosa.

Carlos Gomes foi um compositor famoso e apoiado por diversas regiões do país durante sua carreira. Em Natal, após seu falecimento em 16 de setembro de 1896, deu nome cinema, clube, praça e durante 53 anos ao teatro que hoje se chama Alberto Maranhão.

Nesta postagem faremos publicamos a vida e obra deste que foi mais importante compositor brasileiro. Neste contexto faremos o resgate sobre a as repercussões históricas das homenagens prestadas pela Cidade do Natal em seus espaços públicos e privados ao Carlos Gomes.

Preparem-se para conhecer uma cidade em construção moldada por ideias de modernidade cujos espaços de civilidade foram arquitetados para dar lugar a Carlos Gomes na história da capital potiguar.

QUEM FOI CARGOS GOMES?

Antônio Carlos Gomes (Campinas, 11 de julho de 1836 — Belém, 16 de setembro de 1896) foi o mais importante compositor brasileiro, considerado um dos maiores expoentes da ópera no século XIX. Destacou-se pelo estilo romântico, com o qual obteve carreira de destaque na Europa. Foi o primeiro compositor brasileiro a ter suas obras apresentadas no renomado Teatro alla Scala, em Milão, na Itália. É o autor da ópera O Guarani e patrono da cadeira de número 15 da Academia Brasileira de Música.

Antônio Carlos Gomes

PRIMEIROS ANOS

Carlos Gomes ficou conhecido por Nhô Tonico, apelido com o qual assinava até em suas dedicatórias. Nasceu numa segunda-feira, em uma humilde casa da Rua da Matriz Nova, em Campinas – SP. Foram seus pais Manuel José Gomes (Maneco Músico) e dona Fabiana Jaguari Gomes.

A vida de Antônio Carlos Gomes foi marcada pela dor. Muito criança ainda, perdeu a mãe, tragicamente assassinada aos vinte e oito anos. Seu pai vivia em dificuldades, com diversos filhos para sustentar. Com eles formou a Banda Musical de Campinas, onde Carlos Gomes iniciou seus passos artísticos e, posteriormente, substituiria seu pai na direção do grupo. Desde cedo revelou seus pendores musicais, incentivado pelo pai e, depois, por seu irmão, José Pedro de Sant’Anna Gomes, fiel companheiro das horas amargas.

É na banda do pai que Carlos Gomes, em conjunto com seus irmãos, executa as primeiras apresentações em bailes e em concertos. Nessa época alternava o tempo entre o trabalho numa alfaiataria, costurando calças e paletós, e o aperfeiçoamento dos seus estudos musicais.

Aos 15 anos de idade compôs valsas, quadrilhas e polcas. Aos 18 anos, em 1854, compôs a Missa de São Sebastião, sua primeira missa, repleta de misticismo. Na execução cantou alguns solos. A emoção que lhe embargava a voz comoveu a todos os presentes, especialmente ao irmão mais velho, que lhe previa os triunfos. Em 1857, compôs a modinha Suspiro d’Alma, com versos do poeta romântico português Almeida Garrett.

Ao completar 23 anos, já apresentara vários concertos com o pai. Ainda moço lecionava piano e canto, dedicando-se também com afinco ao estudo das óperas, demonstrando preferência por Giuseppe Verdi. Era conhecido também em São Paulo, onde frequentemente realizava concertos. Compôs o Hino Acadêmico, ainda hoje cantado pela mocidade da Faculdade de Direito de São Paulo. Aqui recebeu os mais amplos estímulos e todos, sem discrepância, apontavam-lhe o rumo da Corte, em cujo Imperial Conservatório de Música poderia aperfeiçoar-se. Todavia, Carlos Gomes não podia viajar porque não tinha recursos.

Antonio Carlos Gomes é conhecido por ter levado a música brasileira para o panorama internacional — Foto: Museu Imperial | Divulgação
Assinatura de Carlos Gomes.
A maioria dos brasileiros conhece um trecho de uma das principais obras de Carlos Gomes, a ópera “O Guarani”. 
Tido como o maior compositor brasileiro do século XIX, Antônio Carlos Gomes (Campinas, 11 de julho de 1836 – Belém, 16 de setembro de 1896) era filho do regente da banda de sua cidade, na qual deu seus primeiros passos na carreira musical. Compositor de polcas, quadrilhas e modinhas desde a adolescência, era entusiasmado pelas óperas italianas, e em 1861 teve a oportunidade de levar ao palco uma de sua própria autoria: “A Noite do Castelo”, que o tornou muito querido na Corte e atraiu a atenção de D. Pedro II.

SUA PRIMEIRA ÓPERA

Em 4 de setembro de 1861, estreou-se no Teatro Lyrico Fluminense A Noite do Castelo, o primeiro trabalho de fôlego de Antônio Carlos Gomes, baseado na obra de Antônio Feliciano de Castilho. Constituiu uma grande revelação e um êxito sem precedentes nos meios musicais do país. Carlos Gomes foi levado para casa em triunfo por uma entusiástica multidão, que o aclamava sem cessar. O imperador D. Pedro II, também entusiasmado com o sucesso do jovem compositor, agraciou-o com a Imperial Ordem da Rosa.

Carlos Gomes conquistou logo a Corte. Tornou-se uma figura querida e popular. Seus cabelos compridos eram motivo de comentários e até ele ria das piadas. Certa vez, viu um anúncio que fora emendado: de “Tônico para cabelos”, fizeram “Tonico, apara os cabelos!”.

A saudade de sua querida Campinas e de seu velho pai atormentava-lhe o coração. Pensando também na sua amada Ambrosina, com quem namorava, moça da família Correia do Lago, Carlos Gomes escreveu Quem sabe?, de uma poesia de Bittencourt Sampaio, cujos versos “Tão longe, de mim distante… ” ainda são cantados pela nossa geração.

Dois anos depois desse memorável triunfo, Carlos Gomes apresentou sua segunda ópera, Joana de Flandres, com libreto de Salvador de Mendonça, levada à cena em 15 de setembro de 1863.

Como corolário do êxito, na Congregação da Academia Imperial de Belas Artes, foi lido um ofício do diretor do Conservatório de Música do Rio de Janeiro, comunicando ter sido escolhido o aluno Antônio Carlos Gomes para ir à Europa, às expensas da Empresa de Ópera Lírica Nacional, conforme contrato com o governo Imperial. Estava assim concretizada a velha aspiração do moço campineiro, que, mesmo comovido, ao ir agradecer ao Imperador a magnanimidade, ainda se lembrou do seu velho pai e solicitou para este, o lugar de mestre da Capela Imperial. Dom Pedro II, enternecido ante aquele gesto de amor filial, acedeu.

Mesmo criando óperas ao estilo italiano da época e, portanto, distante das tendências nacionalistas, Carlos Gomes é considerado um dos maiores compositores brasileiros.

EUROPA

Dom Pedro II preferia que Carlos Gomes fosse para a Alemanha, onde pontificava o grande Wagner, mas a imperatriz, Dona Teresa Cristina, napolitana, sugeriu-lhe a Itália.

A 8 de novembro de 1863, o estudante partiu a bordo do navio inglês Paraná, entre calorosos aplausos dos amigos e admiradores, que se comprimiam no cais. Levava consigo recomendações de Dom Pedro II para o Rei Fernando, de Portugal, pedindo que apresentasse Carlos Gomes ao diretor do Conservatório de Milão, Lauro Rossi. O jovem compositor passou por Paris, onde assistiu a alguns espetáculos líricos, mas seguiu logo para Milão.

Lauro Rossi, encantado com o talento do jovem aluno, passou a protegê-lo e a recomendá-lo aos amigos. Em 1866, Carlos Gomes recebia o diploma de mestre e compositor e os maiores elogios de todos os críticos e professores. A partir dessa data, passou a compor. Sua primeira peça musicada foi Se sa minga, em dialeto milanês, com libreto de Antonio Scalvini, estreada, em 1 de janeiro de 1867, no Teatro Fossetti. Um ano depois, surgia Nella Luna, com libreto do mesmo autor, levada à cena no Teatro Carcano.

Carlos Gomes já gozava de merecido renome na cidade de Milão, grande centro artístico, mas continuava saudoso da pátria e procurava um argumento que o projetasse definitivamente. Certa tarde, em 1867, passeando pela Praça do Duomo, ouviu um garoto apregoando: “Il Guarany! Il Guarany! Storia interessante dei selvaggi del Brasile!” Tratava-se de uma péssima tradução do romance de José de Alencar, mas aquilo interessou de súbito o maestro, que comprou o folheto e procurou logo Scalvini, que também se impressionou pela originalidade da história. E assim surgiu Il Guarany, que apesar de não ser a sua melhor obra, foi aquela que o imortalizou. A noite de estréia da nova ópera, foi 19 de março de 1870.

A ópera ganhou logo enorme projeção, pois se tratava de música agradável, com sabor bem brasileiro, onde os índios tinham papel de primeiro plano. Foi representada em toda a Europa e na América do Norte.

O grande Verdi, já glorioso e consagrado, teria dito de Carlos Gomes, nessa noite memorável: “Questo giovane comincia dove finisco io!” (“Este jovem começa onde eu termino!”).

Na noite de 2 de dezembro de 1870, aniversário do imperador D. Pedro II, foi estreada a ópera no Teatro Lírico Provisório, no Rio de Janeiro. Os principais trechos foram cantados por amadores da Sociedade Filarmônica. O maestro viveu horas de intensa consagração e emoção. Depois, O Guarani foi levado à cena nos dias 3 e 7 de dezembro, sendo que, nesta última noite, em benefício do autor. Nesta data, o maestro ficou conhecendo André Rebouças. Após o espetáculo, houve uma alegre marche au flambeaux, com música, até ao Largo da Carioca, onde estava hospedado Carlos Gomes na casa de seu amigo Júlio de Freitas.

Por intermédio de André Rebouças, o compositor foi apresentado ao ministro do Império, João Alfredo Correia de Oliveira, em sua casa, nas Laranjeiras. Em 1871, a 1º de janeiro, Carlos Gomes vai a Campinas visitar seu irmão e protetor José Pedro Santana Gomes. Em 18 de fevereiro, com André Rebouças, despede-se do imperador, em São Cristóvão. No dia 23, segue para a Europa.

Na Itália, Carlos Gomes casou-se com Adelina Peri, que devotou toda sua vida ao maestro. Do casamento nasceram cinco filhos, muito amados pelo compositor. Todavia, um a um foram morrendo em tenra idade, tendo restado somente Ítala Gomes Vaz de Carvalho, autora de um livro que honrou a memória de seu pai.

Na península, Carlos Gomes escreveu, a seguir, Fosca, considerada por ele sua melhor obra, Salvator Rosa e Maria Tudor.

Em 1866, recebeu Carlos Gomes, de novo no Brasil, uma justa consagração na Bahia, onde, a pedido do grande pianista português, Artur Napoleão, compôs o Hino a Camões, para o Quarto Centenário Camoniano, executado simultaneamente ali e na Corte, com grande sucesso.

O compositor, porém, não mais perseguia somente a glória. Abalado por seguidos e profundos desgostos, doente, desiludido, procurava uma situação que lhe permitisse viver em sua pátria e ser-lhe útil. Seu estado, contudo, era mais grave do que supunha.

De volta à Itália, compôs a grande ópera Lo Schiavo, que entretanto, por vários motivos, não pôde ser representada ali. Foi levada à cena pela primeira vez em 27 de setembro de 1889, no Rio de Janeiro, em homenagem à Princesa Isabel, a Redentora, com esplêndido sucesso. Interessante dizer que a abertura desta ópera, Alvorada, foi composta na Ilha de Paquetá, no município do Rio de Janeiro, onde se encontra um busto de Carlos Gomes, pouco conhecido.

Antonio Carlos Gomes, compositor e maestro, “o maior operista das Américas”. (✰ Campinas-SP, 11/07/1836- ✞ Belém-PA, 16/09/1896)
O Teatro alla Scala, de Milão.
A partitura que apresentamos, da valsa para pianoforte “La Stella Brasiliana”, foi escrita em 1867, quando Carlos Gomes residia em Milão. Foi dedicada à Princesa Hereditária do Brasil e Condessa d´Eu. O original se encontra na Divisão de Música e pode ser consultado pelo link da BN Digital.
Gomes em 1889

SEUS ULTIMOS DIAS DE VIDA

No dia 3 de fevereiro de 1891, outra vez na Itália, Carlos Gomes estreia com grande êxito no Scala de Milão, a ópera Condor. A obra apresentara uma nova forma, muito mais próxima do recitativo moderno.

O tumor maligno na língua e garganta que o levaria ao túmulo, nessa época, fazia-o sofrer dolorosamente. Todavia, as desilusões, as decepções, a ingratidão de seus compatriotas e as dores físicas ainda não lhe haviam quebrado a resistência. Ainda estava à espera de sua nomeação para o cargo de diretor do Conservatório de Música, no Brasil. Nesse tempo foi proclamada a República, e seu grande amigo e protetor, Dom Pedro II, foi exilado, com grande mágoa de Carlos Gomes. O governo da recém-instalada república ofereceu-lhe a quantia de 20.000$000 (vinte contos de réis) para que compusesse um novo hino nacional, mas o maestro recusou-se em respeito ao imperador deposto. Compôs, ainda, Colombo em 1892, poema coral sinfônico que, incompreendido pelo grande público, não obteve êxito.

Em 1895, foi recebido pelo povo paraense com enternecedoras manifestações de apreço. Suas óperas encenadas no Theatro da Paz obtiveram muito sucesso e o compositor foi convidado, pelo governador Lauro Sodré, a viver em Belém e organizar e dirigir o conservatório daquele estado.

Carlos Gomes volta para a Itália, a fim de pôr em ordem suas coisas, despedir-se dos filhos e reunir elementos para uma obra grandiosa que, apesar de seu estado, sempre mais grave, ainda conseguiu realizar. Amigos aconselharam-no a fazer uma estação em Salso Maggiore, mas ele desejava partir, quanto antes, para sua pátria. Chegou a Lisboa, por estrada de ferro e recebeu comovedora homenagem. A 8 de abril de 1895, nessa mesma cidade, sofre a primeira intervenção cirúrgica na língua, sem resultados animadores.

Em abril de 1896 retorna ao Brasil e assume a direção do Conservatório Carlos Gomes, em Belém do Pará. No entanto, a saúde agravava-se cada vez mais e os esforços médicos não conseguiam diminuir as dores. No dia 11 de julho, data de seu aniversário, as homenagens tributadas ao compositor davam a medida da afetividade que inspirava. Em vários pontos da cidade ouviam-se os acordes da protofonia de O Guarani, e os jornais alimentavam a dor pública com o relatório constante do agravamento do estado geral do compositor. Estava montado o cenário onde aconteceria a representação final do artista genial, do brasileiro ilustre, do consagrado testa di leone (cabeça de leão, devido à farta cabeleira), como algumas publicações italianas o chamavam.

Cercado por autoridades e amigos, com o governador Lauro Sodré à cabeceira, Carlos Gomes morreu às 22 horas e 20 minutos de 16 de setembro de 1896.[2] Seu corpo foi embalsamado, fotografado e em seguida exposto à visitação pública, cercado de flores e objetos como partituras e instrumentos, bem de acordo com a idealizada “morte bela” do Romantismo. Descrevendo os cenários da morte, os jornais relatavam com solenidade o acontecimento, destacando o repouso, o sono intérmino, o triunfo silente do grande artista. Diziam os jornais, o maestro não morrera; antes, cruzara os umbrais da Fama. Dois dias depois do falecimento, o corpo do maestro foi transferido para o conservatório de música. O cortejo varou a noite de Belém. Desatrelado das parelhas de animais, o carro funerário era conduzido pelo povo, numa insólita romaria colonial, anunciada pelos acordes de O Guarani e iluminada pelas velas e archotes levados no préstito ou dispostos nas varandas das casas. De 18 a 20 de setembro de 1896, o corpo ficou exposto em câmara ardente, nos salões do conservatório de música, que se transformou em santuário cívico e espaço para as representações do afeto coletivo pelo compositor, como registram as imagens de época. Em seguida, foi levado para o Cemitério da Soledade, um misto de panteão e cemitério-jardim, onde estavam sepultados heróis da guerra do Paraguai, como o general Henrique Gurjão, acompanhado por aproximadamente 70 mil pessoas, que levavam andores, quadros, alegorias e guirlandas. Numa Belém, cujos círculos letrados eram fortemente influenciados pelo positivismo, mas a gente do povo cristã, o cortejo fúnebre tornou-se uma verdadeira procissão cívica, em grande parte por iniciativa também do governo do Pará, que instrumentalizou a morte de Carlos Gomes.

O maestro, porém, não foi sepultado em Belém. A pedido do presidente do estado de São Paulo, Campos Sales, o compositor foi levado para lá, com honras e transporte militares, a bordo do vapor Itaipu. Antes, na setecentista Catedral da Sé no Pará, foi celebrada uma missa de réquiem, entoando-se uma Elegia a Carlos Gomes. Seu ataúde dominava o centro de um monumento funerário de quatorze metros de altura, em um catafalco encomendado por Lauro Sodré. O culto aos grandes homens dava forma à religião cívica do positivismo e exaltava os nomes reconhecidos pela humanidade. Ao final das cerimônias litúrgicas e ao deixar o porto de Belém, rumo à Santos.

Pouco antes de morrer, diante do estado de saúde do compositor, o governo de São Paulo autorizou uma pensão mensal de dois contos de réis, enquanto ele vivesse e, por sua morte, de quinhentos mil réis, aos seus filhos, até completarem a idade de 25 anos. Nessa ocasião, existiam somente dois filhos do compositor e maestro.

Dias antes de sua morte, Carlos Gomes diria, fatalista:

“ Qual, o mano Juca não chega… Eu sou mesmo o mais caipora dos caipiras… ”
O corpo do compositor encontra-se hoje no magnífico monumento-túmulo, em Campinas, sua terra natal, na Praça Antônio Pompeu. A duas quadras dali está o Museu Carlos Gomes, que reúne objetos e partituras do compositor.

Em 1936 foi comemorado o centenário de seu nascimento, com grandes solenidades em todo o país.

Antônio Carlos Gomes em seu leito de morte
Últimos dias de Carlos Gomes – Intendência Municipal de Belém.
Monumento-túmulo do compositor e maestro Carlos Gomes, localizado no Largo do Carmo, em Campinas.
Estátua de Carlos Gomes na Cinelândia, no centro da cidade do Rio de Janeiro.
Monumento a Carlos Gomes na Praça Ramos de Azevedo, em frente ao Theatro Municipal de São Paulo. Observa-se a estátua de Carlos Gomes sentado ao topo do monumento.
Busto de Carlos Gomes em frente ao Auditório Araújo Viana, em Porto AlegreRio Grande do Sul.
Busto em homenagem a Carlos Gomes, defronte ao Teatro Municipal de Paulinia, São Paulo.

EPÍLOGO

Carlos Gomes faz jus também ao nosso reconhecimento pelo seu grande espírito de brasilidade, que sempre conservou, mesmo no estrangeiro. Quando da estreia O Guarani, em Milão, o famoso tenor italiano Villani, escolhido para o papel de Peri, criou um problema: ele usava barbas, e recusava-se a raspá-las. Carlos Gomes protestou: “Onde se vira índio brasileiro barbado?” mas, afinal, tudo se acomodou. O tenor era um dos grandes cartazes da época e não podia ser dispensado. Assim, acabou cantando, após disfarçar os pelos, com pomadas e outros ingredientes.

A procura de instrumentos indígenas foi outro tormento para o maestro. Em certos trechos de música nativa, eram necessários borés, tembis, maracás ou inúbias. Andou por toda a Itália, mas não os encontrou. Foi preciso mandar fazê-los, sob sua direção, numa afamada fábrica de órgãos, em Bérgamo.


O Guarany, primeira página. Partitura completa disponível no Portal Musica Brasilis.
Sinfonia nell’opera Il Guarany, conservada na Biblioteca Nacional
Ensaio da ópera Il Guarany – Fonte: Revista Long Playing (nº 19, p.7, 1959: “Os técnicos aprestam-se para iniciar a mais arrojada obra da fonografia brasileira e da América Latina – O Guarani. Os músicos e o coral sob a batuta soberba do maestro Armando Belardi. A Chantecler marcou um tento admirável, ante o brilhantismo da ideia e execução.)”
Frontispício do álbum O Guarani, composto pelo busto de Carlos Gomes, obra do escultor Domingos Nucci, fotografada por Oswaldo Micheloni. Capa do LP da Chantecler Discos, gravado em 1959. Primeira gravação mundial completa da ópera O Guarani com a participação de Niza Tank. Crédito: https://thiagosouzarosa.wordpress.com/2009/03/page/3/

REPRESENTAÕES NA CULTURA

  • Carlos Gomes já foi retratado como personagem na televisão, interpretado por Paulo Betti na minissérie “Chiquinha Gonzaga” (1999).
  • Teve sua efígie impressa nas notas de Cr$ 5 000,00 (cinco mil cruzeiros) de 1990 e em moedas de trezentos réis que foram emitidas em 1936 e 1937.
  • O livro Carlos Gomes – Documentos Comentados (2007) de Marcus Góes, da Algol Editora traz documentos históricos de Carlos Gomes e cartas.
  • Livro Homenagem a memoria de Carlos Gomes, organizado pela ” Academia de Amadores da Música” de Lisboa, pela Editora Cia Nacional em 1897.
  • O livro O selvagem da ópera (1994) de Rubem Fonseca, um romance, biografia, argumento cinematográfico toma episódios da vida de Carlos Gomes como base para seu enredo.
Sua face em uma moeda de 300 réis, de 1938.
Teve sua efígie impressa nas notas de Cr$ 5 000,00 (cinco mil cruzeiros) de 1990 e em moedas de trezentos réis que foram emitidas em 1936 e 1937.

MONTAGENS BRASILEIRAS

  • Maria Tudor – com regência do maestro Luiz Fernando Malheiro e a soprano Eliane Coelho. Essa produção foi realizada pela Casa da Ópera em Sófia, Bulgária e gravada em CD e vídeo.
  • O Guarani – montagens no Teatro Alfa, com regência de Isaac Karabtchevsky e em Portugal, produção da Casa da Ópera no Teatro Nacional de São Carlos, com regência de Luiz Fernando Malheiro. Coprodução da Casa da Ópera e Ópera Nacional da Bulgária Regência Júlio Medaglia 1996/97.
  • O Guarani – Montagem do Theatro da Paz – com regência de Roberto Duarte e interpretação do tenor paulista Richard Bauer, como Pery, e o soprano Adriane Queiroz, paraense radicada em Berlim.
  • Fosca – montagem brasileira da Casa da Ópera em Sófia, na Bulgária, com reapresentação no Theatro Municipal de São Paulo, Theatro da Paz e Teatro Amazonas.
  • Condor – montagem no Teatro Amazonas e reapresentação no Teatro universal de São Paulo, em 2005.
  • Colombo – montagem no Teatro Municipal de São Paulo com regência de Rogério Duarte e Sebastião Teixeira como Cristóvão Colombo
  • Lo Schiavo – com direção e produção de Fernando Bicudo, em 1998, no Theatro Municipal de São Paulo, Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Palácio das Artes de Belo Horizonte, Teatro Nacional Cláudio Santoro, Theatro da Paz de Belém e Teatro Artur Azevedo de São Luís do Maranhão e remontagem em Campinas, em 2004, com regência de Cláudio Cruz, interpretado pelo barítono Sebastião Teixeira que ganhou Prêmio Carlos Gomes de 1999, por sua interpretação.
  • O Guarani – Montagem da versão integral (revisão de Roberto Duarte) em 2002, em coprodução entre a Casa da Ópera e o Palácio das Artes, em Belo Horizonte – regência de Emilio de César, com a direção de Cleber Papa.
Antonio Carlos Gomes até hoje é considerado um dos grandes compositores que o Brasil já teve / Arquivo GB Imagem

ÓPERAS

  • A Noite do Castelo (Rio de Janeiro,1861)
  • Joana de Flandres (Rio de Janeiro,1863)
  • Il Guarany (Milão, 1870)
  • Fosca (Milão, 1873)
  • Salvator Rosa (Genova, 1874)
  • Maria Tudor (Milão, 1879)
  • Lo Schiavo (Rio de Janeiro, 1889)
  • Condor (Milão, 1891)
  • Colombo (Rio de Janeiro, 1892)

OUTRAS INFORMAÇÕES

Durante uma de suas visitas a São Paulo, Pietro Mascagni (autor de Cavalleria Rusticana) que era amigo de Carlos Gomes, ficou intrigado com o monumento da Praça Ramos de Azevedo que acabara de ser inaugurado.

“Admirei o conjunto, mas não reconheci a fisionomia do maestro esculpida no bronze”, conta. “Soube depois que se tratava do busto do General José Gomes Pinheiro Machado. Não me contive e fui procurar o Sr. Washington Luís, que a princípio se mostrou incrédulo, só se convencendo com provas. O governo mandou retirar o busto e substituí-lo pelo verdadeiro”.

Graças a Mascagni, a estátua que vemos junto ao Theatro Municipal de São Paulo hoje, tem a cabeça certa.

O compositor também foi maçom, iniciado na ordem no dia 24 do 5º mês, em 1859, junto com o seu irmão, José Pedro de Sant’Anna Gomes, em São Paulo, no antigo Grande Oriente Brasileiro.

Importante mencionar que existem quatro Lojas Maçônicas no Estado de São Paulo, as quatro regulares e em atividade, que o compositor e poeta é patrono, uma na Cidade de Campinas; uma na Cidade de Jaguariúna, uma na cidade de Tupã e outra na Capital. A Loja da Capital foi fundada em 30 de setembro de 1950, a “A.R.L.S. CARLOS GOMES” – Grande Benfeitora da Ordem – número 1.598 – Filiada ao Grande Oriente de São Paulo e Federada ao Grande Oriente do Brasil, reuniões as terças feiras e sua sede situa-se na Rua Pe. Machado, 928 – Vila Mariana – S.P. – site: lojacarlosgomes.mvu.com.br

Também como fato marcante da história na cidade de Campinas, o Guarani Futebol Clube, o único campeão brasileiro do interior até 2002, foi batizado em homenagem à obra-prima do compositor Carlos Gomes, Il Guarany. O clube foi fundado em 1911, por alguns jovens de ascendência italiana e um jovem de ascendência alemã.

Ata da iniciação de Carlos Gomes.

BAIRRO DA RIBEIRA

A Ribeira era o centro comercial da cidade de Natal, onde se encontravam livrarias, lojas, outras casas comerciais, bancos e as sedes dos dois mais importantes jornais do período: A República e o Diário de Natal. O porto e a estação ferroviária tinham grande importância, uma vez que eram responsáveis pela exportação e importação dos produtos e pelo transporte de passageiros. Nesse bairro, localizavam-se ainda o Teatro Carlos Gomes (atual Alberto Maranhão), cinemas e sorveterias. A economia da cidade girava em torno do pequeno comércio (lojas, bares e cafés) e das exportações do algodão, açúcar, sal e da cera de carnaúba.

O bairro da Ribeira, instalou algumas indústrias, escritórios de firmas inglesas e americanas, hotéis, bancos, residências e comércio, instituições públicas e escolares, estaleiros navais, oficinas do Porto e da estrada de ferro, bares, cabarés, jornais, Teatro “Carlos Gomes”, hoje “Alberto Maranhão” e clubes de danças.

Com o intuito de remodelar a capital do Estado do Rio Grande do Norte, o Dr. Pedro Velho de Albuquerque Maranhão foi considerado o primeiro urbanista de Natal, com a idealização do que hoje, convencionou-se chamar “Cidade Nova” aos atuais bairros Petrópolis e Tirol. Durante todo o período de vigência da oligarquia Maranhão para dar uma nova direção a nossa Capital, Herculano Ramos foi o arquiteto que planejou várias obras de relevo nesta capital, de 1902 a 1913, destacando-se o Teatro “Carlos Gomes”, atualmente chamado “Alberto Maranhão”, a construção de um palacete, situado na Avenida Junqueira Aires, vizinho ao prédio da Secretaria de Saúde, para nele funcionar o Congresso Legislativo do Estado. Posteriormente chamado Tribunal de Apelação, hoje ocupa o prédio da Ordem dos Advogados do Brasil custou ao Estado, 69:011S730 contos de réis (SOUZA, Itamar de. A República Velha, p. 235).

Pedro Velho de Albuquerque Maranhão – Professor e sogro de Tavares de Lyra.

Manoel Segundo Wanderley (1860 – 1909), no ano de 1889, retornava para Natal após a conclusão do curso de Medicina na Bahia. O literato potiguar fizera-se conhecer como poeta ainda em sua estadia no território baiano. Após o seu retorno, Segundo Wanderley prosseguiu com sua atividade nas letras publicando poemas, com influências de Castro Alves, e escrevendo dramalhões nos barracos adaptados em forma de teatro – já que, no período, ainda inexistia o teatro Carlos Gomes.

Durante as primeiras décadas do século XX Natal também passou a ter um Teatro, espaço muito desejado pelas elites da cidade. O Teatro Carlos Gomes iniciado já no final do século XIX no governo de Ferreira Chaves e inaugurado no primeiro governo de Alberto Maranhão em 1904, foi também Maranhão em seu segundo governo (1908-1913) que promoveu uma reforma na fachada do prédio lhe atribuído às feições da arquitetura “art nouveau” muito apreciado na época, com influências europeias. A nova fachada foi inaugurada em 1912.

Localizavam-se na Ribeira, durante esse período, o Teatro Carlos Gomes (atual Teatro Alberto Maranhão), O Grande Hotel, o Banco de Desenvolvimento do Rio Grande do Norte – BANDERN (atual prédio do PROCON Estadual), a primeira hospedaria de Natal, o primeiro Grupo Escolar tido como escola modelo (o Augusto Severo, fundado em 1908), a Escola Normal de Natal (1908), o Colégio Ateneu Norte-rio-grandense e demais estabelecimentos que contribuíam para o enobrecimento cultural e econômico do bairro, como por exemplo, os únicos cinemas existentes na cidade, o Café Chile (local muito frequentado na cidade), entre outros.

O Teatro Carlos Gomes não foi o primeiro teatro da cidade. De acordo com Cascudo, os primeiros teatros de Natal datam de meados dos anos de 1840, mas eram construções precárias feitas de palha que facilmente sucumbiam ao fogo ou às fortes enxurradas. Galpões alugados na Ribeira também serviram de palco para os grupos amadores e trupes profissionais que aportavam de passagem pela cidade. (Sobre os teatros existentes na cidade durante o século XIX ver: CASCUDO, Luís da Câmara. História da cidade do Natal. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980; OTHON, Sônia Maria de Oliveira. Dramaturgia na cidade dos reis magos. Natal: Edufrn, 1998.).

Até a inauguração do teatro, os natalenses que desejassem assistir a grandes companhias artísticas nacionais e estrangeiras, deveriam deslocar-se até o Recife, sendo o Teatro de Santa Isabel a referência mais próxima de uma elegante e luxuosa casa teatral. Dessa forma, o Carlos Gomes veio responder aos anseios das elites por um teatro capaz de receber companhias de maior porte, e conseqüentemente, de maior prestígio. (Sobre o teatro de Santa Isabel ver: ARRAIS, Isabel Condessa. Teatro de Santa Isabel. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2000.)

Diante do exposto, a Natal do início do século XX é uma cidade marcada por uma série de transformações, entre as quais podemos destacar as obras de calçamento, a construção do Teatro municipal Carlos Gomes, de novas praças e, inclusive, de um novo e aprazível – ao menos no campo das ideias, na vontade dos que o planejaram – bairro, cujo nome, Cidade Nova, revelava os desejos da elite local em transformar o espaço urbano de Natal, ao passo em que se distanciavam dos tempos da monarquia, mormente caracterizados pelo seu discurso como tempos de decrepitude e atraso.

PRAÇA AUGUSTO SEVERO

Uma praça muito criticada pelos moradores da cidade nos primeiros anos do século XX era a Praça Augusto Severo. Localizada no bairro da Ribeira, no Largo do Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão, a antiga Praça da República era considerada um dos logradouros mais insalubres da cidade, especialmente em quadras invernosas, pois devido a sua situação topográfica, num nível abaixo da Cidade Alta, as águas das chuvas escoavam do bairro alto e se acumulavam na dita praça provocando o surgimento de lagoas nos seus arredores e, para completar, Existiam também os alagamentos constantes devido ao movimento da maré.

A Praça Augusto Severo é um dos mais importantes logradouros públicos do Centro Histórico de Natal e o mais belo recanto da Ribeira. No entorno da praça encontram-se os históricos e imponentes prédios do Teatro Alberto Maranhão (antigo Carlos Gomes), o antigo Grupo Escolar Augusto Severo, a Secretaria Estadual de Saúde (antiga Escola Doméstica) e o Colégio Salesiano (antigo palacete de Juvino Barreto).

Ribeira velha de guerra, tantas vezes cantada em prosa e verso. Terra de canguleiro, rivais dos xarias, dos tempos de outrora. A Ribeira, parte baixa da cidade, nasceu no caminho entre a Cidade Alta (núcleo inicial de Natal) e a Fortaleza dos Reis Magos. Quanto a origem do topônimo, recorremos a Cascudo (1999, p.149):

Ribeira porque a Praça Augusto Severo era campina alagada pelas marés do Potengi. As águas lavavam os pés dos morros. Onde está o teatro Carlos Gomes (atual Teatro Alberto Maranhão) tomavase banho salgado em fins do século XIX.

Em 1905, realizaram-se as obras de aterro e saneamento do Baldo, transformado em logradouro público. Essas obras possibilitaram a implantação de espaços de sociabilidade com a prática de esportes. O memorialista Jaime dos Guimarães Wanderley, no seu livro É tempo de recordar (1984), escreve a respeito de uma área de diversão, conhecida por Baldo:

―O Baldo‖ era uma grande piscina, construída no rumo do Alecrim, em frente à atual Praça Carlos Gomes, na confluência da Avenida Rio Branco com a Deodoro… (WANDERLEY, 1984, p. 33.)

Bairro importante no desenvolvimento da cidade, a Ribeira a partir, principalmente, da construção do Porto de Natal, consolida-se como centro comercial. Estabeleceu em suas ruas as principais empresas exportadoras e importadoras, as grandes lojas e órgãos públicos, inclusive o Palácio do Governo, situado na antiga rua do comércio, hoje Rua Chile.

A Ribeira era o bairro comercial por excelência, a proximidade com o porto, que constantemente sofria reparos, a localização das mais importantes casas comerciais da cidade, a existência de clínicas médicas e as imponentes presenças do Teatro Carlos Gomes, do Grupo Escolar Augusto Severo e da Escola Doméstica do Natal, exigia a providência de obras que fizessem daquele bairro um espaço razoavelmente saneado e higienizado. Para transformar o bairro da Ribeira em um espaço mais saudável o receituário seguido pelos governos foi o mesmo estabelecido para a Cidade Alta, não descurando os administradores do fato de ser a Ribeira uma vítima constante dos alagamentos em época de chuvas e em dependência das tábuas de marés, sendo necessário, nesse caso, um trabalho mais intenso de terraplenagem, alinhamentos de terrenos e aterramento de áreas alagadas.

A condição precária, portanto, dificultava até mesmo o acesso e o desembarque da estação à cidade, uma vez que as águas se estagnavam em frente a esse edifício. A situação da Praça da República apenas seria revertida no ano de 1904, durante o término do primeiro governo de Alberto Maranhão. O governador contrata o arquiteto Herculano Ramos – que também projetaria o Teatro Carlos Gomes e o edifício do Congresso – em junho do referido ano para a elaboração do projeto da praça.

Havia também o desejo de tornar a cidade um espaço para desfrute. As obras de calçamento, iluminação pública, praças e jardins possibilitavam a exploração do espaço público como antes nunca visto. Além da construção de novas praças, como a Augusto Severo (1904) e a Sete de Setembro (1914), do ajardinamento da praça André de Albuquerque (1906) e da edificação do Teatro Carlos Gomes (1904), o período presenciou o calçamento de importantes ruas e avenidas, bem como a instalação dos bondes puxados a burros (1908) e do elétrico (1911). (Cf. Andrade (2009); Marinho (2008); Oliveira (1999)). Todas essas ações ganharam sentido de “novidade” e, ao serem associadas ao novo regime, reforçavam ainda mais a sensação de que se estava vivendo uma nova época. (Cf. Mello (2007).).

Cartões postais de Natal, onde se pode ver a estação da E. F. Natal a Nova Cruz, e a Praça Augusto Severo. GALVÃO, 2005.
cartão-postal da década de 1910 cujo tema era a Praça Augusto Severo e o seu jardim público pitoresco, projetado e construído sob a direção do arquiteto Herculano Ramos; ao lado do Teatro Carlos Gomes, compôs um dos principais loci de novas sociabilidades de Natal na Primeira República. Fonte: Acervo Diário de Natal.

Para alcançar essa cidade desejada, intervenções foram realizadas, entre elas, a já citada construção do Teatro Carlos Gomes e o jardim da Praça Augusto Severo. Essa obra interligou a Cidade Alta à Ribeira, tornando-se, assim, um lugar de lazer e passeio, um dos principais pontos dessa cidade, a qual adentrava no período denominado Belle Époque, tendo Paris como modelo inspirador. É evidente que Natal não alcançou a modernização da Paris de Haussmann nem a de Pereira Passos da então Capital da República, mas conquistou avanços que mudaram a sua face provinciana.

O projeto, que parecia empolgar muitos dos personagens que estudamos, era a construção do jardim público da praça Augusto Severo, citada no relatório do coronel Joaquim Manoel. Sob comando do arquiteto Herculano Ramos, que também projetara o Teatro Carlos Gomes, as obras da praça tiveram continuidade no ano de 1905. Entre os melhoramentos que a cidade ganhara em poucos anos, o autor da matéria citava a iluminação a gás acetileno, o “magnifico jardim” da praça 15 de Novembro, o calçamento da Rio Branco, da Junqueira Ayres, o Teatro Carlos Gomes, o prédio do Congresso (cujos gastos para reforma foram questionados pelo Diario) (Ver, por exemplo, DIARIO DO NATAL, Natal, 09 fev. 1905), as reformas no Palácio do Governo – sob comando do futuro intendente Eduardo dos Anjos, como dissemos no capítulo anterior –, o jardim da praça Augusto Severo, entre outros.

TEATRO SANTA CRUZ

Apenas em 1880, Natal ganhou sua primeira construção exclusiva para esse fim. Tratava-se do “Teatro Santa Cruz”, construído por iniciativa particular do comerciante João Crisóstomo de Oliveira. O prédio estava localizado na Travessa Visconde Inhomerim, atual Rua João Pessoa. De acordo com Cascudo, o Teatro Santa Cruz acabou se tornando o centro da vida cultural e política da cidade, sendo palco de importantes debates sobre questões abolicionistas e republicanas. Além disso, foi a primeira vez que se registrou a freqüência de famílias tradicionais da cidade nos espetáculos, até mesmo o presidente de província esteve presente no momento de sua inauguração. Também é possível atribuir ao Teatro Santa Cruz determinado caráter cívico. Como os demais teatros espalhados pelo país, havia o costume de, antes dos espetáculos, executarem o Hino Nacional. A própria ornamentação contava com bandeiras e imagens do Imperador D. Pedro II.

A seleção dos espectadores ficava aos cuidados de Antônio Gomes de Leiros, também porteiro da Câmara Municipal de Natal, que além do recebimento das entradas, espantava a molecagem dos tabuleiros para que as famílias chegassem(CASCUDO, Luís Câmara. Nosso amigo Castriciano. Natal: EDUFRN, 2008, p. 62). O que nos leva a pensar que, ao contrário dos outros teatros de rua, o Santa Rosa não esteve aberto à participação de todos interessados nos espetáculos, nem mesmo para aqueles que podiam pagar.

A partir daí, o teatro ganhou fôlego e virou instrumento de educação e exemplo de ações solidárias. A inauguração posterior do Teatro Carlos Gomes, em 24 de março de 1904, nos dá mostras desse caráter. A peça que seria encenada na ocasião de sua inauguração fora escrita pelo educador Henrique Castriciano sob o título de “A promessa”. Ao contrário de outras encenações, A promessa contou apenas com a participação do público infantil, responsável por dar vida aos vários personagens criados por Castriciano. A peça, considerada indispensável para toda família, também tinha um propósito nobre. Toda a renda arrecadada com os ingressos vendidos do espetáculo seria destinada à assistência aos flagelados da seca e à compra de 450 vestidinhos que foram entregues aos pobres (CASCUDO, Luís Câmara. op. cit., 1980, p. 201.).

CONSTRUÇÃO DO CARLOS GOMES

A construção do Teatro Carlos Gomes exerceu o papel de difusão do modelo de civilidade desejado pelas elites natalenses no início do século XX, tornando-se um espaço privilegiado de sociabilidade. A percepção dessa civilização moderna pode ser aferida nas obras materiais de construção do Teatro Carlos Gomes (hoje Alberto Maranhão), na criação do bonde elétrico e na inauguração de edifícios, como o Hotel Continental, dentre outros. Tais obras “serão símbolos da modernidade natalense e conviviam com a pitoresca figura do burro de cargas” (ARRAIS; ANDRADE; MARINHO, 2008, p. 130).

Ações, como a reforma do Teatro Carlos Gomes, a construção de um novo bairro, a Cidade Nova, a abertura de ruas e avenidas, junto à introdução de novos serviços urbanos, como o bonde, nos revelam esse desejo das elites em sintonizar a capital, com as transformações que estavam ocorrendo nos principais centros urbanos mundiais, como em Paris, Londres e Nova Iorque, ou, nos nacionais, como no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. (Sobre o desejo das elites em transformar Natal em uma cidade moderna, ver: ARRAIS, Raimundo; ANDRADE, Alenuska; MARINHO, Márcia. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal: EDUFRN, 2008.).

Durante os vinte primeiros anos do século XX, no que diz respeito às obras públicas promovidas pelos governadores do Rio Grande do Norte podemos distinguir que, entre o início do século XX até meados da década de dez, foi voltado para o embelezamento e aformoseamento da sua capital, com a inauguração de praças, calçamento de ruas e na construção do Teatro Carlos Gomes como marco principal.

No início do século XX, a principal obra realizada pelos governadores foi sem dúvida a construção e remodelação do Teatro Carlos Gomes e da Praça Augusto Severo (Posteriormente denominado de Teatro Alberto Maranhão.). Tavares de Lira, então governador no quatriênio 1904-1908, deu continuidade das obras iniciadas pelo seu antecessor, o governador Alberto Maranhão. O Teatro Carlos Gomes teve sua obra iniciada em 1898 e inaugurado em 1904. Utilizando mão-de-obra proveniente dos retirantes do interior e com e dos recursos federais, o governador Tavares de Lira promoveu as obras de aterramento e ajardinamento da praça e calçamento das ruas que circundavam o Teatro.

A ação do governador Tavares de Lyra e a defesa intransigente de um dos mais importantes intelectuais republicanos no Rio Grande do Norte, deixava claro que, naquele momento, não se tinha entre as maiores preocupações o problema da saúde pública, ou, como se dizia, da assistência pública. O governo de Tavares de Lyra foi, incontestavelmente, um grande empreendedor das obras de melhoramentos e de aformoseamento em Natal, na sua administração foi construído o mais belo jardim da cidade, foram calçadas inúmeras ruas, foi feita a reforma no teatro Carlos Gomes, uma reforma no balneário do Baldo; no entanto, em ralação à saúde a mais importante medida tomada por Tavares de Lyra foi o fechamento do Hospital de Caridade e a entrega do serviço para a iniciativa privada.

Tavares de Lyra – Governador do Rio Grande do Norte.

Em 1896, iniciou a construção do Teatro Carlos Gomes, durante a gestão estadual de Joaquim Ferreira Chaves. O Teatro Carlos Gomes, concluído em 1904, o Grupo Escolar Augusto Severo (1907) e a Escola Doméstica de Natal (1914) também foram construídos nesse espaço público (Cf. ARRAIS; ANDRADE; MARINHO, 2008, p. 205).

Atendendo ao pedido da sociedade natalense, o governador Ferreira Chaves inicia as obras de um teatro para esta capital que pudesse receber vários espetáculos, concertos, entre outros, afim de promover mais lazer para o povo, como consta na mensagem do governo de 1899:

CHAVES, Joaquim Ferreira. Mensagem dirigida ao Congresso Legislativo do Estado do RN em 14 de julho de 1899. Natal, Typ. d’A República, 1900. Julgando attender ao imperioso reclamo, fiz iniciar o anno passado, como vos annunciei, a construcção de um theatro nesta capital./ Não tive […], o proposito de dotar a capital com uma destas construcções grandiosas que attestassem as maravilhas do genio artistico; modesta casa de espectaculos que respeitasse, quanto possivel, os principios de hygiene e offerecesse a indispensavel segurança, […] em consequencia da crise financeira […], não se tenha podido imprimir mais rigoroso impulso ás obras iniciadas […]”(Mensagem de 1899 (14 jul. 1899) p.10). (Mensagem de 1899 (14 jul. 1899)p.11).

Com planta arquitetural do engenheiro José de Barredo, tipo chalé, bem à moda, com: “18m, 30 de largura e 78m, 60 de extensão, três portas de entrada, jardim interno, botequim, toalete, camarotes, frisas, palco, salão para cenografia, etc.,” sob a orientação do major Teodósio Paiva.

No Auditório, além das galerias laterais, uma única ordem de camarotes, com 11 de cada lado, sendo 5 em frente ao palco e mais 6 camarotes de segunda ordem. No tablado, que separava os camarotes das galerias correspondente a cada coluna, escudos decorativos, cercados de louros, com os nomes de Calderon, Shakespeare, Manzoni, Victor Hugo, Goethe, Alencar, Garret, Wagner, Massenet, Verdi, F. von Suppé e Bach. A boca do palco, com 8m30 de largura era formada por um enorme arco, em cujas pilastras grandes do proscênio, que sustentavam o arco, via-se o retrato do Maestro Carlos Gomes e ao centro tinha, nas impostas, sobre o capitel, coroas de louros representando o Drama e a Opera e para encimar a fachada principal veio de Paris uma cópia da famosa estátua, a “Arte”, de Mathurin Moreau.

Fachada do Teatro ”Carlos Gomes”. Fase final da construção (1904-1910).
Extraído da obra de PIRES. Meira. História do Teatro Alberto Maranhão: 1904-1952, p. 17. Inaugurado em 24 de março de 1904, com o nome de Carlos Gomes, atualmente “Alberto Maranhão”. A construção teve início no ano de 1898. A mudança ocorreu quando era governador do Rio Grande do Norte, o Dr. Silvio Pisa Pedroza.

O primeiro prédio construído para receber o teatro foi projetado pelo engenheiro José de Berredo e teve suas obras iniciadas em 1898, porém, o evento de inauguração só aconteceu no dia 24 de março de 1904. Construído na antiga campina da Ribeira, em forma de um chalé, a edificação apresentava uma composição clássica, com três portas encimadas por bandeirolas em arco pleno, enquadradas por colunas e encimada por um frontão triangular (NESI, 2012).

Continha três portas de entrada, jardim interno, botequim, toalete, camarotes, frisas, palco, salão para cenografia, etc. Para encimar a fachada, veio de Paris uma réplica da famosa estátua “A Arte” de Mathurin Moreau, esta existente até hoje. Nesta primeira fase do teatro apenas a decoração ficou a cargo de H. Ramos (CASCUDO, 1999).

Do antigo edifício do teatro percebe-se as portas de entrada simétricas, sendo o caixilho fixo em forma de arco pleno; o frontão triangular, eclético, e de poucos ornamentos na fachada. Percebe-se também, que sua concepção foi inspirada nos teatros jardins, onde tinha um grande pátio antecedendo a chegada na sala de espetáculos.

Vista do meio do pátio interno mostrando a estátua e o frontão do 3º bloco do teatro também em estilo chalé. É possível ver este pátio sem as varandas, e sem as escadarias de acesso. O que atesta que estes elementos foram concebidos na reconstrução do arquiteto Herculano Ramos, permanecendo daquela imagem, apenas a estátua, o frontão triangular – fazendo
referência ao estilo chalé, com seus elementos decorativos art nouveau como as luminárias – e
também com os lambrequins nos arremates do telhado.

Para as festividades organizadas por Alberto Maranhão, na inauguração da Casa das Artes, ocorrida na noite da Quinta-feira, 24 de março de 1904, Herculano Ramos (1854-1928), mineiro, pintor, desenhista, cenógrafo, arquiteto, chegando em Natal no ano de 1904, foi encarregado da decoração do Teatro, sendo as pinturas, a cenografia e as decorações executadas pelo artista Sam Jey, tendo como auxiliares Teixeira da Cunha e Lustosa. A iluminação, de gás acetileno, foi feita pelos operários da Usina Ilha do Maranhão, sob a inteligente direção do Domingos de Barros.

A execução do programa ficou a cargo da Orquestra do Teatro e da Banda de Música do Batalhão de Segurança. Na Segunda parte da programação foi representa a peça teatral infantil em um ato e em versos, “A Promessa”, da autoria de Henrique Castriciano, sob a direção do Dr. Segundo Wanderley e da Madame Celestino Wanderley. Continuando a festa da inauguração, Deolindo Lima recitou um monólogo de Arthur Azevedo A orquestra do Teatro, dirigida por Luigi Maria Smido, tocou breve programa e acompanhou o baritono Comoletti que cantou a canção do aventureiro do “Guarani” de Carlos Gomes e a ária do Fígaro, no “Barbeiro de Sevilha”, de Rossini.

Na mensagem do governo apresentada por Alberto Maranhão ao passar o governo do estado para o Dr. Augusto Tavares de Lyra, no dia 25 de março de 1904, curiosamente um dia após a inauguração do teatro, o então governador expõe a importância que tinha o grandioso empreendimento oferecido à cidade, mas ressalta as necessidades existentes do local:

Como indispensável complemento a essa bela construção, cômoda e elegante, perfeitamente adaptada ao nosso clima, impõe-se a drenagem e ajardinamento da Praça Augusto Severo. Para isso, certamente, aproveitareis a planta e desenhos já oferecidos ao administrador pelo Dr. Herculano Ramos, podendo, com facilidade, de acordo com as indicações ali contidas, possuir dentro em breve a nossa capital uma boa praça pública, formosa e saneada. (Mensagem do governo, 25 de março de 1904. Arquivo próprio HCUrb).

Para Henrique Castriciano, o edifício ficou com todas as acomodações necessárias a um teatro moderno (SIMONINI, 2010). É provável que a escolha do formato chalé na primeira fase da construção do teatro, provém da influência da arquitetura eclética carioca, estilo esse bastante encontrado no quartel do século XIX, porém considerado ultrapassado no início do século XX (KNOLL, 1999).

Nesse período, ao menos entre os anos de 1904 e 1907, o major Theodosio Paiva (ex-intendente) será administrador das obras públicas do Estado, como podemos ver em dezenas de despachos e ofícios expedidos pelos Governadores do Estado com a expressão “mandai pagar ao sr. Theodosio Paiva, administrador das obras publicas…”. Todo o material dessas obras era comprado pelo major Paiva, que também se encarregava de contratar os seus funcionários. Os despachos, rápidos, não informam sobre as obras geridas pelo futuro intendente, mas, pelo que vemos no jornal, o major Theodosio deve ter se envolvido nas obras do Teatro Carlos Gomes, do jardim Público na Augusto Severo, de calçamento em diversas ruas da cidade, construção de estradas de rodagem, entre outras. Possuindo, certamente, um perfil distinto dos nomes citados, a direção que o major ocupará será a do Teatro Carlos Gomes, como vemos em nota de um festival de caridade realizado nesse teatro, acontecimento esse que, segundo consta, contou com a signifi cativa participação do diretor do teatro (A REPUBLICA, Natal, 10 set. 1906).

No período que vai de 1904 a 1921, a Intendência Municipal foi administrada pelos coronéis da Guarda Nacional, tempos de maiores dificuldades financeiras e, consequentemente, de pouca autonomia em relação ao governo do Estado, responsável pelas principais obras materiais realizadas na capital nesse período, como o Teatro Carlos Gomes, concluído em 1904 e reformado oito anos depois, e a ponte sobre o Potengi, construída entre 1914 e 1916, para ficarmos em dois exemplos mais significativos.

Podemos perceber o valor atribuído ao Teatro Carlos Gomes pelos grupos interessados na modernização da cidade. Sua construção iniciou-se em 1898 no governo de Ferreira Chaves, atravessou o mandato de Alberto Maranhão, tendo ocorrido a sua pomposa inauguração no ano de 1904, dois dias antes que Augusto avares de Lyra assumisse o governo. Com a festa inaugural intitulada Grande festival de Caridade, pretendia-se arrecadar vestimentas e dinheiro destinados às vítimas da seca que estavam instaladas na cidade. Estiveram diretamente envolvidos na montagem do espetáculo o dramaturgo Segundo Wanderley e Henrique Castriciano, autor dos versos de A Promessa que, segundo o redator do jornal A Republica, foram, na noite inaugural, encenados “por creanças das nossas principais famílias.” O jornal fez uma especial menção à concorrência do teatro, que teria sido “selecta e numerosa, havendo enchente geral nas cadeiras e camarotes, onde estavam presentes as principais familias da sociedade natalense.” (TEATRO Carlos Gomes. A Republica, Natal, 26 maio 1904.).

Teatro Carlos Gomes – Uma das principais instituições que celebravam a modernidade e o cotidiano europeu almejado pelas elites potiguares era o teatro, até então os espetáculos eram encenados em palhoças na Cidade Alta e em armazéns na Ribeira. Devido a essa carência, o desembarcador Joaquim Ferreira Chaves em seu primeiro mandato (25/03/1896 a 25/03/1900) decidiu construir a casa de espetáculos, justificando que está “[…] faltando em absoluto a esta capital diversões públicas, tão necessárias à vida social, […] projetei a construção de uma casa de espetáculos […]” (1919). O teatro começa a ser construído na Praça Augusto Severo, porém a obra só será concluída do primeiro governo de Alberto Maranhão. Em 24 de março de 1904, o Teatro Carlos Gomes é aberto ao público com a encenação da peça “A promessa” do potiguar Henrique Castriciano (A República, Natal, 24 mar. 1904).

Ferreira Chaves fez algumas obras importantes durante o período em que esteve a frente dos destinos do estado: construiu açudes no interior (em Martins e em Pau dos Ferros), iniciou a construção do Teatro Carlos Gomes e fez reparos em alguns importantes prédios públicos.

Uma das preocupações do governador Alberto Maranhão no sentido de dotar esta cidade de algumas obras públicas de aformoseamento, e real necessidade foram:à construção do Teatro “Carlos Gomes” suspenso pelo seu antecessor, em virtude de insuficiência da verba dotada e pela necessidade mais urgente de obras com a saúde publica; a construção de uma nova casa a ser escolhida – no Porto do Padre – trazendo assim, melhores condições e servida por uma rampa de dimensões regulares no sentido de melhor acomodar o acesso às embarcações em virtude do péssimo estado em que se deparava o aterro do alagado, entre a “Casa da Passagem ” e a Aldeia Velha sem nenhuma acomodação e segurança daquele edifício, e iniciar a drenagem e a elevação de níveis para o aterramento das Praças da República e Silva Jardim onde o Congresso votou o auxílio de dez contos de réis à Intendência, concedido pela Lei n° 83, de 28 de novembro de 1898, e cidades, europeus, [desprezando as] árvores, plantas e frutas asiáticas e africanas aqui já aclimatadas (PIRES, Meira. História do teatro Alberto Maranhão : 1904 – 1952 , p. 53.).

A criação de novos postos de emprego servia também como justificativa, por parte do Governo do Estado, para a obtenção de verbas junto ao Governo da União, uma vez que as obras contra as secas – que incluíam o prolongamento da Estrada de Ferro Central e a construção do parque em Natal – empregavam mão-de-obra flagelada. No caso do parque a utilização desse tipo de mão-de-obra, com a abertura de novas vagas, fomentava também o êxodo de população do interior para a capital. Não apenas a construção do parque, mas também o conjunto de obras que vinham sendo desenvolvidas em Natal desde o início do século XX – como o aterro da Praça Augusto Severo e a construção do Teatro Carlos Gomes – corroboraram o processo de migração populacional do interior para a capital.

Após a regulamentação do aterro e do ajardinamento da praça, são consolidados em seus arredores alguns dos principais edifícios da cidade, seguindo a lógica já estabelecida pela estação de trem. Em 1903 o governador Alberto Maranhão já afirmava o adiantamento nas obras do teatro, em concomitância com o ajardinamento: “Acha-se quasi concluído o ‘Theatro Carlos Gomes’ […]. Para decoração e scenographia do theatro firmei contracto com o conhecido profissinal, dr. Herculano Ramos” (A REPUBLICA, Natal, ano 13, 10 jul. 1903a, p. 01). O Teatro Carlos Gomes, cuja obra foi iniciada em 1898 e concluída em 1904 – apesar de passar por uma total reformulação em 1912 –, “polarizava no outro extremo da praça o centro das atenções de quem chegava de trem” (RODRIGUES, 2006 p. 135). Ou seja, sua conformação estava em total concordância com o aspecto da praça e da estação que constituíam a nova porta de entrada.

O jornal da oposição Diário do Natal fazia questão de destacar como as obras públicas realizadas na capital desmoronavam “ao embate de ligeiras chuvas” (DIA a dia: as obras públicas. Diario do Natal, Natal, 30 mar. 1906; SOUZA, Itamar. A República Velha no Rio Grande do Norte. Op. cit., p.239-242.), refletindo a “incompetência da parte dos executores dessas obras” (Idem). O caráter temporário das reformas que se desfaziam com as chuvas, fazia com que a capital do Rio Grande do Norte estivesse transformando-se na “terra do já teve […] aqui já teve um jardim público, já teve um theatro, já teve umas ruas calçadas &…” (Idem.). Várias notas denunciavam a qualidade duvidosa dos materiais empregados e os problemas nos processos das reformas (DESMORONOU-SE. Diário do Natal, Natal, 17 nov. 1906; A DECADÊNCIA é completa. Diario do Natal, Natal, 29 dez. 1906). Outras ressaltavam ainda a morosidade das obras, como a de março de 1907, que criticou a lentidão da construção do teatro Carlos Gomes (DIVAGAÇÕES. Diario do Natal, Natal, 19 mar. 1907.). A construção desse teatro foi iniciada em 1900 e concluída em 1904. A partir de 1908 Alberto Maranhão, em sua segunda administração, iniciou uma reforma que somente foi concluída em 1912, processo consideravelmente lento (Em 1957, o teatro Carlos Gomes recebeu a denominação de teatro Alberto Maranhão, ver: SOUZA, Itamar de. Nova História de Natal. Natal: Departamento Estadual de Imprensa, 2008. p.251-252.).

Nesse momento, várias obras públicas se desenvolveram em Natal com o objetivo de criar “espaços […] que pretendiam suscitar e forjar novas sociabilidades dentro de um padrão de civilidade.” (DANTAS, George Alexandre Ferreira. Crise urbana em Natal na virada para os anos 1920: impasses da modernização e saberes técnicos. Revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo. 2006. p. 74. Disponível em: . Acesso em: 04/06/2012.). Apesar de todo esse montante, nem todos os moradores da capital potiguar se beneficiaram com as reformas urbanas, já que inúmeras vezes a imprensa local noticiou a má distribuição desses recursos afim de trazer solução para os principais problemas que a cidade enfrentava. Por exemplo, mais de 17% do total da verba destinada para as obras públicas de toda a cidade foram gastas com a reforma do Teatro Carlos Gomes – hoje Alberto Maranhão.

Era muito comum o favorecimento da família Albuquerque Maranhão, tanto em cargos públicos (nepotismo) quanto nas empresas prestadoras de serviços ao estado. Muitas dessas firmas pertenciam a membros da família Albuquerque Maranhão (esse foi o caso do material de construção empregado no teatro Carlos Gomes – a companhia pertencia a Fabrício Maranhão – bem como o da empresa de iluminação de gás acetileno de Natal, implantada em 1908, pertencente ao genro de Fabrício Maranhão) ou a pessoas ligadas a eles (foi o caso da colônia de agricultura e do campo de demonstração agrícola – a empresa contratante era de propriedade do sócio-gerente de uma fábrica de tecidos pertencente a membros da família Maranhão).

O Teatro Carlos Gomes, hoje, Alberto Maranhão , é um exemplo expressivo da concretização desses novos tempos, pois a elite natalense não precisaria mais se deslocar a Recife para assistir às companhias artísticas nacionais e estrangeiras. Em 1957, durante a gestão do prefeito Djalma Maranhão, o Teatro Carlos Gomes mudou sua denominação para Teatro Alberto Maranhão, nomenclatura que prevalece até a atualidade.

TEATRO CARLOS GOMES

“A história e a memória social guardara, principalmente, o nome daqueles que trabalharam muito diretamente ligados ao teatro e a sua inauguração, dentre eles Dr. Herculano Ramos, arquiteto orientador das obras de pintura decoração, e o médico e dramaturgo Dr. Manoel Segundo Wanderley. responsável pela encenação do trabalho do escritor Henrique Castriciano apresentado por aquelas crianças natalenses.” Sônia Othon

Está situado na Praça Augusto Severo, na Ribeira. Teve sua construção iniciada em 1898, no governo Joaquim Ferreira Chaves, que o denominou Teatro Carlos Gomes. Obedecendo a planta do engenheiro José de Barredo, até 1910, foi esculpido pelo francês Mathurin Moreau assumiu a direção daquela conceituada casa de espetáculos o Major Theodósio Paiva. Conservava a forma de chalé.

A inauguração se deu em 24 de março de 1904. Em 1912, durante o segundo mandato do governador Dr. Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão, teatro foi reinaugurado após uma reforma que o transformou em casa de luxo, dotada de espelhos e lustres de cristal.

Pouco a pouco os principais prédios públicos e serviços viriam para a praça Augusto Severo. O Teatro Carlos Gomes, que foi iniciado em 1898, concluído no dia 24 de março de 1904 e totalmente reformulado em 1912, polarizava no outro extremo da praça o centro das atenções de quem chegava de trem. Em 1905, o jardim recebe iluminação a gás acetileno e em 1911 é feita a conversão para energia elétrica. O Grupo Escolar Augusto Severo, ao lado do Teatro, é inaugurado em 1907, a Escola Doméstica, em 1914. A face oriental da praça, de frente para a estação, é determinada por esses prédios públicos relacionados à educação e compõem a primeira vista de quem chega à cidade. O espaço público, antes protagonizado pelos prédios religiosos, era dessacralizado pelas instituições de ensino e a estação. (MOREIRA, 2006).

Apenas no período de 1908 a 1914, no segundo governo de Alberto Maranhão, foram criados vinte e seis grupos escolares, dois em Natal (além do Augusto Severo, foi criado o Frei Miguelinho, em 1912), e os demais no interior do estado. Entre 1916 e 1927, foram criados mais treze grupos (AZEVEDO; STAMATTO, 2012, p. 43- 44). Por essa ação e também pela criação do Teatro Carlos Gomes, inaugurado em 1904, no seu primeiro governo, e reformado entre 1908 e 1912, Alberto Maranhão ficou conhecido como Mecenas Potiguar.

Dentre as suas ações no cenário intelectual do Rio Grande do Norte, podemos citar: a fundação do conservatório de música, a criação do Derby Club e do Teatro Carlos Gomes, e o decreto a lei n.º 145, de 6 de agosto de 1900, que autorizava o governo a imprimir, constituindo prêmio, os livros de literatura ou ciência produzidos por “filhos domiciliários do Rio Grande do Norte, ou naturais de outros Estados, quando neste tenham fixa e definitiva a sua residência”. O referido projeto de lei não foi um agenciamento de Alberto Maranhão, mas do seu secretário de Estado, Henrique Castriciano, que, segundo Luís da Câmara Cascudo, convenceu o governador da necessidade de financiar regularmente a manutenção da cultura local. O projeto foi redigido por Henrique Castriciano e apresentado a 31 de julho de 1900 pelos deputados estaduais João Pegado Cortez e Luís de Oliveira no Congresso Legislativo. (CASCUDO, 1965, p.59)

A historiadora Denise Mattos (2000) lembra que a construção e reforma do Teatro Carlos Gomes, aconteceu na época da oligarquia Maranhão. Esta edificação e outras intervenções ocorridos em Natal, nos primeiros anos do século XX, simbolizam o desejo da elite potiguar em fazer de sua capital uma cidade moderna. Transformado em cinema no período entre 1928 e 1930, também funcionou como Câmara Municipal entre 1952 e 1954, voltando a funcionar como teatro durante o governo de Dinarte Mariz.

Somente em 1957 passou a ser chamado Teatro Alberto Maranhão com o projeto de lei n° 744, de 22 de agosto de 1957, de autoria do vereador Luís de Barros. Trata-se de uma homenagem ao ex-governador Alberto Maranhão que em seu segundo governo (1908 – 1914) foi responsável pela sua reforma. A mudança ocorreu quando era governador do Rio Grande do Norte, o Dr. Silvio Pisa Pedroza (PIRES, Meira. História do teatro Alberto Maranhão : 1904 – 1952 , p. 53.).

Segundo Jeanne Nesi (1994), na sua reforma (em 1910), coordenada pelo arquiteto Herculano Ramos, “o teatro adquiriu feições ecléticas, apresentando elementos típicos do art nouveu como: grades, vasos, ornatos aplicados e esculturas, como a que se encontra no eixo central sobre a platibanda, confeccionada pelo francês Mathurin Moreau, simbolizando ‘A Arte’”.

O Teatro Carlos Gomes seria a mais expressiva obra pública realizada pelo governo estadual nesses primeiros anos da República. O teatro era um espaço desejado pela elite e possuía também um modelo pedagógico em relação a civilidade e apreciação das artes.

A elite natalense passou a dotar a cidade de um equipamento urbano, afetando o modo de vida de seus habitantes e principalmente das pessoas da elite econômica e intelectual que vivenciaram essas transformações de perto, que frequentavam os cafés, iam assistir aos espetáculos no Teatro Carlos Gomes e desfrutavam das festas no Natal Club ou no Aero Clube.

A família Wanderley participou nos momentos culturas e artísticos de nossa cidade, evidenciando-se no teatro e poesia . Proveniente dessa linhagem , José Wanderley alcançou renome nacional com as comédias registradas na Revista “Natal em Camisas” explorava com inteligência os costumes da nossa cidade através dos de quadros nos quais se destacou: “Carlos Gomes”. A referida revista não foi possível ser localizada.

O Teatro, que em pouco tempo tornou-se orgulho da cidade, seis anos depois de inaugurado passou por uma reforma, de grande porte, na qual sua fachada foi totalmente reconstruída. Tamanha reforma só foi possível graças aos empréstimos no estrangeiro e ao exaustivo empenho do então governador Alberto Maranhão. Na mensagem do governo de 1911, os gastos com a edificação e reedificação completa, onde funcionava o Teatro Carlos Gomes, eram estimados em 600:000$000, quase a metade do total dos gastos do governo com as obras públicas, feitas a partir dos recursos vindos do empréstimo. (MARANHÃO, Alberto. Proprios estaduaes. Mensagem do Governo, 1911. p. 23; MARANHÃO, Alberto. Empréstimo externo de 1910. Mensagem do Governo, 1912.).

O teatro Alberto Maranhão é tombado, a nível estadual, desde 27 de julho de 1985.

Cartão Postal Antigo do Theatro Carlos Gomes
Teatro Alberto Maranhão. Foto: Esdras Rebouças Nobre.

OS RETIRANTES DA SECA

A seca de 1904, que assolou o Rio Grande do Norte, provocando a migração de milhares de flagelados para a capital, potencializaria essa questão. Segundo dados da época, a cidade dispunha, nesse momento, de pouco mais de vinte mil almas, enquanto que a população de retirantes migrados para Natal alcançou os dezesseis mil.

Ainda no ano de 1903, o governador do estado, Alberto Maranhão, enviou mensagem ao Governo Federal, pedindo auxílio quanto aos flagelos da seca, que abatiam, principalmente, as cidades do interior do Rio Grande do Norte. O “terrível” fenômeno da seca, um problema, sobretudo climático, segundo a mensagem do governador, e que atingia o sertanejo potiguar, que necessitava de socorro imediato por parte do Governo Federal, pois o estado não possuía condições para atender as demandas das vítimas. Ao longo desse ano, foi relatada, no jornal A República, a precária situação na qual se encontrava os flagelados em algumas cidades do Rio Grande do Norte, como Assú, Mossoró e Ceará-Mirim.

Os socorros enviados pelo Governo Federal deveriam ser permanentes e de preferência em dinheiro. Segundo a Folha Republicana, o governo já deveria ter aprendido sobre a melhor forma de distribuir os socorros mediante as experiências anteriores. Três formas de distribuí-los haviam sido praticadas em outros momentos de crise proporcionados pela “calamidade das secas”.

Uma comissão (a Comissão Central de Socorros Públicos) foi formada pelo Governo do Estado para a organização dos trabalhos dos flagelados, contando com os nomes de Francisco Cascudo e do então presidente da Intendência, o “eterno” coronel Joaquim Manoel Teixeira de Moura, ficando aquele responsável pelo alistamento dos homens e este, pelo das mulheres. O coronel “Quincas” Moura, como era chamado pelo seu amigo Manoel Dantas, recebeu entre os meses de maio e junho de 1904, pelas nossas rápidas contas, a considerável quantia de 1:126$000 (um conto, cento e vinte e seis mil réis) (De acordo com edições d’A REPUBLICA, entre os dias 09 de maio e 21 de junho.), para ajuda aos flagelados. Não temos notícia de quanto o coronel Cascudo recebeu pela sua atuação como membro da comissão e responsável pela alimentação fornecida para os retirantes. Mas em maio daquele ano, ele recebeu a vultosa quantia de 10:692$870 pela mobília do Teatro Carlos Gomes. De onde teria saído tal valor?

Fotografia de 1904, feita por Bruno Bougard, destacando um grande número de retirantes da seca nas proximidades do Teatro Carlos Gomes, em Natal.

Pela fotografia acima destacada é possível ter noção da quantidade de retirantes que se dirigiram à capital norte-rio-grandense tentando fugir da assoladora seca que atingia o estado, sendo possível ainda conjecturar a intensidade do impacto que esses indivíduos provocaram na acanhada Natal do início do século XX. A imagem apresentou um grande número de sujeitos com vestes simples, enxadas nas mãos e com seus filhos ainda crianças nas proximidades do Teatro Carlos Gomes, no bairro Ribeira. Os flagelados, como foi possível notar na fotografia de 1904, ocupavam toda a região próxima ao teatro, estavam concentrados para serem distribuídos em frentes de trabalho pela cidade. Contudo, o periódico fluminense O Malho176 não veiculou mais informações sobre a fotografia, apenas apresentando-a acompanhada da seguinte legenda: “na praça principal da capital do Rio Grande do Norte, os flagelados partindo para os trabalhos públicos” (O MALHO, Rio de Janeiro, Ano III, n.106, 24 set. 1904. p.15.).

As edificações do quadrilátero da Praça Augusto Severo e os serviços urbanos instalados configuram símbolos de modernidade capitalista: o bonde e a energia elétrica, a Casa Paris em Natal e a Fábrica de Tecidos, a Estação Ferroviária, a residência do industrial Juvino Barreto (antiga Vila Barreto), o cinema Polyteama e o Teatro “Carlos Gomes”, a Escola Doméstica, dentre outros.

A criação da Inspetoria de Obras Contra as Secas, em 1909, viabilizou a execução das primeiras estradas de rodagem do interior, utilizando mão-de-obra dos flagelados da seca, com recursos financeiros do governo federal, assim também em outras grandes obras, como o aterramento da campina da Ribeira, já mencionado, e o Teatro “Carlos Gomes”.

Das quinze obras no ano de 1911, 36% dos recursos foram aplicados nos empreendimentos de embelezamento; 35% em saúde, educação e segurança; 24% em pavimentação e tratamento de ruas e avenidas; e 5% em infra-estrutura. No ano de 1910, foram priorizadas as obras do Teatro “Carlos Gomes” e calçamentos.

A segunda do Jornal “O Comércio”, da imprensa carioca, referenciando os melhoramentos realizados na capital do Rio Grande do Norte e a introdução de equipamentos urbanos, sob o título Liga de Ensino no Rio Grande do Norte:

Alli com o regime republicano, os melhoramentos tem sido tantos que, relativamente, nenhum Estado da Federação aproveitou mais. {…} hoje, além das novas edificações públicas e particulares, algumas da quaes, como o Theatro Carlos Gomes, o palacete do Congresso Estadual, e mais, alguns, ficariam bem em qualquer
cidade mais rica. { …} quase todas as ruas, estão regularmente empedradas, pelo menos melhor do que muitas no Rio de Janeiro; há uma excelente iluminação pública {…} e há costumes…carioca.

O arquiteto Herculano Ramos empreendeu várias obras na cidade, destacando-se, em 1904, o tratamento arquitetônico do aterro da Campina da Ribeira e um ajardinamento do Jardim Público da Praça da República; a construção do Grupo Escolar “Augusto Severo”, em 1908 (objeto da investigação); o Congresso Legislativo Estadual, em 1908; a reconstrução do Teatro “Carlos Gomes”, em 1912, além de outras obras públicas e particulares, que possibilitaram contribuir para uma renovação da estética da cidade.

Em 12 de junho de 1908, o Grupo Escolar “Augusto Severo” é inaugurado solenemente pelo Governador Alberto Maranhão (1908–13) e autoridades locais (Data comemorativa da morte de Padre Miguelinho – herói da Revolução de 1817). Nas festividades, ocorre a apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro “Carlos Gomes” e das alunas, com declamação de poesias. O quadro de honra era a exaltação pública do bom comportamento do aluno, que, ao se destacar do grupo, tornava-se um exemplo e recebia condecorações, no final do ano letivo, em solenidade festiva no Teatro “Carlos Gomes”. Era um evento divulgado pela imprensa, a convite do governador.

CINE-TEATRO CARLOS GOMES

Entre 1900 e 1909 as exibições de filmes em Natal eram raras e em locais improvisados. A partir de 1909, entretanto, o Teatro Carlos Gomes (hoje Alberto Maranhão) passou a ter sessões com alguma regularidade.

O cinema aos poucos foi ocupando o lugar que anteriormente pertencia ao teatro enquanto forma preferida de diversão na cidade. O próprio Teatro Carlos Gomes hospedará o Cinema Natal a partir de 1909. Essa fase foi dividida por Anchieta Fernandes em quatro etapas distintas, a primeira fase foi a do bioscópio, em abril de 1906; a segunda corresponde ao cinematógrafo falante, em novembro de 1906; a terceira foi a fase do Cinema Natal, em 1909; e por fim a fase em que o teatro se transformou em Cine-Teatro Carlos Gomes, em outubro de 1928.

Após as apresentações realizadas, em 1898, por Ernesto Acton, Natal ficou sem o entretenimento do cinema. Foi apenas em 1906 que uma companhia cearense, A Empresa Bioscope, chegava à cidade pra mostrar suas diversões. Na noite de 7 de abril, o Teatro Carlos Gomes foi totalmente iluminado pelos motores da Empresa. Os ingressos para o espetáculo oscilaram entre 15$000, camarotes de frente e 1$000 para os lugares da “geral”. Todos os ingressos foram comprados e o Teatro ficou lotado de espectadores curiosos. Dentre as projeções estavam a imagem de personagens ilustres, como o Marechal Floriano Peixoto, o Barão do Rio Branco, o Almirante Saldanha da Gama, Victor Hugo e Santos Dumont (O cinematrografo. A Republica, Natal, 24 novembro 1898. Apud: FERNANDES, Anchieta. op. cit., p. 47.).

Em 1909, o primeiro cinema da capital potiguar foi instalado no Teatro Carlos Gomes, com o nome de Cinema Natal. Este se caracterizou por exibir também films em sessões infantis. A máquina de projeção (cinematógrafo) chegou a Natal – vinda do Rio de Janeiro – em um dos navios do Loyd Brasileiro.

Entrado o ano de 1909, o Teatro Carlos Gomes passava a hospedar o “Cinema Natal” que, pela constância de exibições, pode ser considerado o primeiro cinema da cidade. A chegada desse cinema foi tida como o começo de uma nova era, até mesmo a vinda de seu equipamento de projeção foi anunciada pela imprensa local como um grande acontecimento. As novidades foram muitas, entre elas uma ampla variedade de filmes, que o dono garantia não se tratar de nenhuma repetição, além de sessões exclusivas para as crianças da cidade. Em nota, “A Republica” de 23 de agosto de 1909, apenas dois dias após a inauguração do cinema, proclamava a seção infantil:

Esteve em nosso escritório um dos representantes da firma Juvenal & Cia., proprietária do Cinema Natal, e informou-nos de que na próxima quarta-feira haverá um espetáculo especial destinado às crianças. Serão exibidas fitas principalmente agradáveis à petizada, começando o espetáculo às 6 hs para terminar às 8 da noite. As entradas custarão 500 réis e não haverá distinção de cadeiras e camarotes (A Republica, 23 agosto 1909. Apud: FERNANDES, Anchieta. op. cit. p. 59-60.).

No dia 13 de outubro de 1928, ocorreu substituição do “cinematógafo falante” por equipamento projetor mais moderno e o local passou a ser chamado Cine-Theatro Carlos Gomes. A inauguração do empreendimento, segundo anúncio do jornal, ocorreu às 7h30 em ponto, com exibição do filme, “O Homem de Aço”. Os ingressos custavam: poltrona 2$000 (dois mil réis), galeria 1$500 (hum mil e quinhentos réis) e geral 1$000 (hum mil réis). Havia dias de sessão grátis. Como era de praxe nos cinemas de então, a sessão iniciava com o som de gongos. Enquanto a cortina lentamente se abria, ouvia-se pelos autofalantes a abertura da ópera “O Guarani”. Então, começava a projeção. Os ingressos eram considerados muito caros por parte da população, dessa forma os frequentadores eram tipicamente da elite da cidade.

A foi publicada uma reportagem na Revista Cigarra sobre a abertura do Cine-Theatro Carlos Gomes, o terceiro cinema da cidade e que se tornou o favorito das elites natalenses. A notícia destacava o conforto da sala e afirmava que o novo cinema estava no nível de rivalizar com as salas de projeção das grandes cidades, sendo ele o “centro irradiador das mesmas grandes produções universalmente aplaudidas” (NOVA fase do cinema em Natal, Cigarra, Natal, ano. 2, n. 4, p. 61, ago. 1929.).

De acordo com as três lembranças de infância de Cascudo, mencionadas acima, em Natal o cinema foi um grande acontecimento. (…) Quando o dono do brinquedo aportou em Natal, pessoa alguma acreditava nos prospectos divulgados. (…) O alto commercio, a sociedade que freqüentava palacio, toda a gente foi ao cinema, no Teatro Carlos Gomes. Houve palmas, chôros, commentarios (CASCUDO, op. cit, p. 222.).

O cinema tem o poder de emocionar, de levar as pessoas para lugares distantes e em contato com vidas imaginadas e construções fantasiosas. Essas produções cinematográficas “universalmente aplaudidas” eram irradiadoras dos ideais partilhados pelos grupos dominantes, viajavam de cidade a cidade, de sala a sala incentivando a adoção de vestimentas, de condutas de vida. Seus efeitos visuais contribuíram para a educação da sensibilidade moderna.

Exibição de filme no Cine-Teatro Carlos Gomes. Fonte: Revista Cigarra, 1929.
Teatro Carlos Gomes. Fonte: Cigarra, Natal, ano 1, n.2, 1928, p. 28.

PRAÇA CARGOS GOMES

A Praça Carlos Gomes existia na cidade de Natal, no início do século XX. A praça foi nomeada em homenagem ao compositor brasileiro Carlos Gomes e estava localizada no bairro de Petrópolis, próximo ao centro da cidade.

Em outubro de 1935, o Engenheiro Gentil Ferreira de Souza foi convidado pelo Interventor Rafael Gurjão para assumir a prefeitura da cidade, cargo que o experiente burgo mestre já havia exercido entre junho de 1930 a junho de 1931. Ao assumir o governo da cidade, o chefe da municipalidade natalense tornou emblemático o período de sua administração pela realização de obras como o Mercado Público da Cidade Alta (hoje localizado o Banco do Brasil); a construção do novo Matadouro, retirando a matança anti-higiênica que existia na Rua da Misericórdia; Inauguração em 11 de julho de 1936 da Praça Carlos Gomes, e tantas outras obras que testemunham esta gestão que transformou a cidade do Natal em um local agradável para se viver.

ALBERTO MARANHÃO

Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão governou o Estado do Rio Grande do Norte em dois mandatos, o primeiro de 1900 a 1904, e o segundo que vai de 1908 a 1914. Como grande político e administrador instituiu o Conservatório de Música, reformulou o Teatro “Carlos Gomes” que hoje leva seu nome; construiu a Praça “Augusto Severo”, o Hospital “Juvino Barreto” e edificou o segundo Grupo Escolar da cidade denominado “Frei Miguelinho”.

O governador Alberto Maranhão, em sua primeira gestão estadual (1900-1904), ganhou o título de “mecenas do Rio Grande do Norte”, graças ao seu destaque no que diz respeito ao impulso que deu às artes e à cultura (CARDOSO, Rejane (Org.). 400 nomes de Natal. Op. Cit. p. 33-34.). Entre as suas feitorias, estão: a inauguração do teatro Carlos Gomes – hoje denominado Teatro Alberto Maranhão; a lei número 145, de 06 de agosto de 1900; a fundação do Conservatório de Música e o Derby Club. Alberto Maranhão ainda se dedicou a outras realizações em seu segundo mandato (1908-1914) como, por exemplo, “implantou a luz elétrica em Natal, e posteriormente os bondes elétricos; realizou uma reforma na educação; inaugurou a Escola Normal de Natal e instalou o Palácio do Governo na Praça Sete de Setembro” (Idem.).

Ao falar sobre instrução no ano de 1908, o Presidente de Província Alberto Maranhão mencionou o Grupo Escolar Augusto Severo. Maranhão (1908, p.6)

O Grupo Escolar Augusto Severo – fundado pelo meu ilustre antecessor – serve atualmente de escola de aplicação, na qual fazem sua aprendizagem os estudantes da Escola Normal. No mesmo dia da inauguração desse grupo – 12 de junho – começou a funcionar, anexa ao teatro Carlos Gomes – uma modesta escola de música. O ensino secundário continua a ser ministrado no Atheneu Rio-Grandense, cujo professorado, competente e assíduo, preenche os fins exigidos pelo curso de madureza. Quando nos for possível a criação de um Liceu de artes e ofícios e de uma escola de agricultura estará completo o nosso elenco de instrução primária, secundária, normal, artística e profissional.

Em novembro de 1913, Alberto Maranhão compareceu em um evento no Teatro Carlos Gomes para homenagear Ferreira Chaves, ver: VARIAS. A Republica, Natal, 10 nov. 1913.

O teatro da cidade, localizado no bairro da Ribeira, se chamava, à época de seu governo, Teatro Carlos Gomes. Em 1957, no entanto, o então prefeito de Natal, Djalma Maranhão, alterou seu nome para o que conhecemos hoje: Teatro Alberto Maranhão. Segundo Renato Peixoto,

As construções que diziam e explicitavam a cidade de Natal passaram, na verdade, a articular uma unidade a partir do imaginário que então se precisava tornar comum a todos. […]
A Natal republicana, foi construída ao lado da antiga […] e sobre essa nova cidade se inscreveram topônimos que espelhavam a manifestação do novo
imaginário, inscrevendo também sobre ela a organização familiar natalense.
(PEIXOTO, Renato Amado. Espacialidades e estratégias de produção identitária no Rio Grande do Norte no início do século XX. Revista de História Regional, 2010. p. 190, grifos meus).

Situado na Praça Augusto Severo, foi inaugurado em 24 de março de 1904, com o nome original de Teatro Carlos Gomes. Em agosto de 1957 sua denominação foi alterada para Teatro Alberto Maranhão, em homenagem ao ex-governador do Estado, espécie de mecenas da cultura potiguar.

A implantação do regime republicano (e, consequentemente, a consolidação do poder dos Albuquerque Maranhão) acabou por instalar nas elites norte-rio-grandenses um desejo de reorganização da cidade, como se esse novo sistema político trouxesse o despertar do progresso, tirando o estado da sua posição de “esquecido”. A partir desse discurso, Alberto Maranhão remodelou a capital potiguar – símbolo de atraso e falta de ordem – vinculando o nome de sua família a uma cidade nova e moderna, alcançando o imaginário popular, dando visibilidade aos feitos e aos membros da sua estirpe.

Teatro “Alberto Maranhão”. Construído em estilo “art nouveau”. Atualmente é o “cartão postal” da cidade do Natal. FONTE: Tribuna do Norte. 25 dez. 1999, p. 14.
Teatro Carlos Gomes, após reformas de Situado no outro extremo da praça, seu imponente volume polarizava as atenções com a estação. O prédio, que simbolizava o refinamento cultural da elite da cidade, não era a única instituição a ganhar um espaço privilegiado nesse cenário. Fonte: CD Natal 400 anos.

Alberto Maranhão assumiu o governo do Rio Grande do Norte em 1900. Fez uma administração medíocre e fútil, não realizando praticamente nada de importante, praticando um nepotismo nefasto e promovendo festas no Palácio do Governo (Palácio Potengi). As poucas obras públicas realizadas eram feitas sem concorrência, e quase sempre contratadas pelo arquiteto Herculano Ramos e pelo major Theodósio Paiva, funcionário do Tesouro. A única obra de relevância no seu governo foi a conclusão do Teatro Carlos Gomes (Teatro Alberto Maranhão), iniciada na gestão de Ferreira Chaves, inaugurado “no dia 24 de março de 1904, véspera do término do seu mandato”. O material utilizado para a sua construção “era fornecido por Fabrício Gomes de Albuquerque Maranhão, irmão do governador” (SOUZA, 1989, p. 231-232).

Mas foi no campo das artes e das letras que a administração de Alberto Maranhão se destacou. Vieram a Natal muitos artistas nacionais e internacionais, jovens talentos tiveram abertas as portas do jornal A República para expor seus talentos literários; além disso, o governo legou ao estado uma lei que garantia a publicação, às custas do Tesouro, de livros de autores potiguares ou não que despertassem grande interesse cultural. Ainda no seu governo, alterando-se e ampliandose o projeto do arquiteto Herculano Ramos, foi concluída a reforma do Teatro Carlos Gomes.

Alberto Maranhão não compreendia a vida sem a música. No período de seu governo, as artes tiveram a maior atenção do grande administrador. Convidava pianistas, violinistas, regentes de orquestra para Natal e oferecia-lhes situação digna e capaz de fixá-los na cidade. Fundou uma escola de música, que funcionava nas dependências do Teatro Carlos Gomes foi instalada em 1908 e desativada no início do governo Ferreira Chaves. Depois da escola veio a orquestra. Regia estão Maestro Luigi Maria Smido (Itália (?)-Rio de Janeiro, 1943) trabalhou em Natal nos períodos de 1903 a 1908, e de 1922 a 1923, que mais tarde se soube pertencer à alta aristocracia italiana. Outro italiano, o violinista Nicolino Milano(Lorena, SP, 1879-Rio de Janeiro, 1962), Residiu em Natal nos anos de 1908 a 1911, tinha passe livre no palácio do governo. José Borrajo (Puentevedra, Espanha, 1880-Belém, PA, 1938), Clarinetista e professor, casou-se em Natal e residiu na cidade de 1903 a 1919, que veio direto da Espanha para Natal integrar a orquestra com seu clarinete. Thomaz Babini (Faenza, Itália, 1885-Recife, PE, 1951), Violoncelista, professor de instrumentos de arco e piano. Casou-se em Natal onde trabalhou de 1909 a 1940, que vendo futuro melhor na terra dos Reis Magos, abandonou uma companhia de óperas, aceitando o convite de Alberto Maranhão para lecionar música na Escola Normal. Com isso, a orquestra ganhou um ótimo violoncelista. Foi nesse clima de artisticidade, atraído pelo movimento musical florescente, que chegou em Natal o pianista Alexandre Brandão (Jaboatão, PE, 1880 – Icó,
CE.1923), Pianista, compositor, professor de piano.

HERCULANO RAMOS

Nasceu em Minas Gerais em 1854, filho de Pantaleão José da Silva Ramos. Estudou na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, cursando Arquitetura (1869 – 1875). Completou a formação acadêmica na Europa, onde aperfeiçoou seus conhecimentos na área de engenharia civil. Retornando ao Brasil em 1876, trabalhou em várias Províncias do Brasil, depois Estados. Pode-se enumerar várias de suas obras: construiu o Matadouro do Rio de Janeiro e a Estação Ferroviária do Recife foi Secretário de Obras Municipais em Recife e Belém/PA; integrou uma equipe técnica que procedeu a benfeitoria no Porto de Natal. Nesta capital fixou residência por dez anos (1904- 1914), foi Lente de Desenho, Noções de Agrimensura e construção do Atheneu Norte-Riograndense, desenvolveu inúmeros projetos, dentre os quais incluem-se o Grupo Escolar “Augusto Severo”, os jardins da Praça Augusto Severo, o Solar Bela Vista, a reconstrução do Teatro “Carlos Gomes” (atual Alberto Maranhão) e várias residências particulares (era a época dos palacetes,chalés, chácaras e mansões que embelezavam Natal no fim da “belle époque”): Edificou muita casa bonita, em Natal, diria Câmara Cascudo em sua Acta Diruna de 26.07.1944, também editada no O Livro das Velhas Figuras, Vol.I, p. 119. Faleceu em Belo Horizonte a 17 de janeiro de 1928.

A primeira mensagem do governo onde cita o Herculano em Natal é apenas em 1903, em relação ao contrato firmado para executar a decoração da primeira reforma do Teatro, até então Carlos Gomes, conforme veremos trecho transcrito a seguir:

MARANHÃO, Alberto. Mensagem lida perante o Congresso Legislativo do Estado do RN a 14 de julho de 1903. Natal, Typ. d’A República, 1905. Sobre as Obras Públicas (p.05) Acha quasi concluido o Theatro Carlos Gomes e em andamento a construcção da Casa da Passagem, do Porto do Padre, indispensavel para a organização de um serviço regular de transporte entre as margens do rio Salgado, […]. Para a decoração e scenographia do theatro, firmei contracto com o conhecido profissional, Dr. Herculano Ramos, que já tem quasi terminado aquelle trabalho. (Mensagem do governo – 14 de julho de 1903 Arquivo compilado no HCUrb).

O ano de 1904, embora referido nas mensagens de governo como um período de poucas finanças, registra a realização de uma importante obra pública; o aterro e ajardinamento da antiga Praça da República, na Ribeira que, por meio de uma Resolução da Intendência Municipal, passou a se denominar Praça Augusto Severo, em maio de 1902. Reclamava-se a urgência da intervenção nesse espaço, pois – em períodos de inverno – vivia constantemente inundado pelas águas do rio, o que suscitaria os vapores miasmáticos, fator pelo qual era apontado como foco de pestes. A proximidade com o Teatro Carlos Gomes e a ameaça contínua de epidemias justificaram a execução desse serviço, muito requisitado pelos médicos e pelas administrações passadas.

A obra, iniciada em 01 de junho de 1904, ficou a cargo do arquiteto Herculano Ramos – o mesmo responsável pela construção do Teatro Carlos Gomes (local cada vez mais valorizado para uso da classe abastada). Essa ação, além de se constituir em uma medida de higiene pública, representou uma importante modificação na estrutura física da Cidade do Natal. A obra passava a interligar fisicamente os seus dois bairros consolidados: Cidade Alta e Ribeira, antes separados por uma campina pantanosa, agora transformada em praça. Os recursos foram federais para obras contra a seca, sendo os próprios retirantes utilizados como mão-de-obra.

As elites queriam apagar essa memória do espaço e sob a argumentação de “devolver” a salubridade da cidade, usam os recursos federais destinados ao combate das secas para aterrar e ajardinar a praça. O arquiteto Herculano Ramos será autor do projeto de embelezamento do logradouro e dos principais edifícios que as próximas administrações irão construir na praça. Os retirantes eram vistos pela elite tanto como um elemento de desordem, como um meio de concretizar seu ideal de urbe civilizada. (FERREIRA, 2006, p. 45-68) Os recursos primitivamente destinados para obras no interior, foram utilizados para empregar os flagelados em reformas na capital, atitude que veio a receber críticas ferrenhas dos jornais da oposição, como o Diario do Natal e o Commercio de Mossoró.

Noticia a mensagem ter sido innaugurado á 24 de março p.p. o theatro Carlos Gomes, um dos melhores proprios Estaduaes a que ficou ligado o nome do Dr. Alberto Maranhão, sob cuja administração foi conluida a construcção dessa custosa obra; e diz ter contractado o actual Governador o aterro e ajardinamento da praça Augusto Severo com o illustre architecto Herculano Ramos, não dando margem para novos emprehendimentos a crise em que se debate o Estado.
Temos observado que cada uma das administrações que vae tendo o Estado quer deixar de si uma memoria que a perpetue na lembrança dos
Rio-grandenses por meio de custosas construcções que levem os seus nomes à posteridade.
Este ideal, como vimos para a construcção do theatro Carlos Gomes, há de ser satisfeito, nem que se deixe de construir outras obras mais urgentes e de maior utilidade, como açudes etc, nem que fique sem pão o pobre que morre de fome ás portas da Cidade.
(O Commercio de Mossoró, n. 30, 1904, p. 1).

Fotografia de Manoel Dantas que documenta a reforma do Teatro Carlos Gomes (Alberto Maranhão) durante o segundo mandato de Alberto Maranhão. Construção do Teatro ‘”Carlos Gomes”. FONTE: PIRES, Meira. História do teatro Alberto Maranhão (1904-195), p. 17.

A fotografia retrata o Teatro Carlos Gomes no decurso da reforma que aconteceu durante o segundo mandato de Alberto Maranhão (1908-1913). O teatro foi inicialmente projetado por José de Berredo (engenheiro) e teve suas obras iniciadas em 1898, durante o governo Ferreira Chaves. Foi inaugurado no ano de 1904, no primeiro governo de Alberto Maranhão.

A reforma foi projetada pelo arquiteto mineiro Herculano Ramos, que foi responsável por diversas obras que integraram o processo a modernização da capital potiguar no início do século XX, sendo iniciada no ano de 1910 e finalizada em 1912. Nela, a fachada foi totalmente reconstruída, o Teatro ganhou um pavimento superior e foi adornado com portões e adereços de ferro fundido, importados diretamente da Europa. Devido a este esforço, “o Teatro enfim poderia responder às necessidades da elite” (ARRAIS; ANDRADE E MARINHO, 2008, p. 134).

O prédio foi totalmente reformado em 1910, após, apenas, seis anos da sua inauguração. Alegando as estruturas do teatro estarem em péssimas condições. Em seu segundo mandato, Alberto Maranhão contrata o arquiteto Herculano Ramos para avaliar as estruturas que pudessem ser aproveitadas e iniciar uma reforma remodelando totalmente os traços antigos existentes. A ideia do governador era de ter um teatro moderno que pudesse atrair personalidades nacionais e internacionais. No dia 19 de julho de 1912 aconteceu a reinauguração do teatro (NASCIMENTO e tal, 2016).

Dessa vez o projeto foi todo de autoria do Ramos, que aproveitou da antiga construção apenas as suas paredes laterais e o material de demolição, acrescentando-lhe linhas e elementos das tendências arquitetônicas do final do século XIX (PIRES, 1999). Seu partido arquitetônico é semelhante à do José de Alencar – por isso se enquadra na categoria de teatros jardins – com parte interna e estrutura metálica independente das paredes externas de alvenaria.

Nessa toada, Elias Souto (Diário do Natal) afirmou que pouco vinha fazendo o coronel Joaquim Manoel na presidência da Intendência, resignando-se a ser um “bom discípulo” do Dr. Pedro Velho (DIA a dia. Como elles são… DIARIO DO NATAL, 08 jan. 1905), que mandava e desmandava a seu talante, ancorado no art.º 5º do decreto estadual nº 8/1890, responsável pela criação do Conselho de Intendência Municipal, como vimos. E como bom discípulo, o coronel Joaquim Manoel permaneceu na presidência do Conselho de Intendência até o ano de 1913. A cidade progrediu em alguns aspectos: chegou o bonde, a iluminação elétrica, o Teatro Carlos Gomes passou por uma significativa reforma… Nenhuma dessas obras, porém, foi realizada com verbas do governo municipal, que continuava sem significativa autonomia financeira para gerir seus negócios.

Para se ter uma ideia do cenário, o bairro do Alecrim foi oficialmente criado em 1911. Neste ano a cidade de Natal, possuía 28.477 habitantes e vivenciava diversas intervenções urbanas. Governava o Rio Grande do Norte, Alberto Maranhão, o mecenas potiguar, responsável pela grande reforma do Teatro, à época, Carlos Gomes, e a urbanização da Praça da República, hoje Praça Augusto Severo.

Em outubro de 1910, o Governador Alberto Maranhão, o mecenas potiguar, determinou a Herculano Ramos, que permaneceu em Natal até 1914, para a reconstrução do Teatro Carlos Gomes. Com essa decisão, “nasceu outro teatro, amplo, confortável, arejado, moderno. A fachada ganhou um andar, para o salão de honra, o clássico foyer dos teatros franceses. No cimo do edifício, a “Arte” de Mathurin Moreau preside a fachada, de cinco portas, com ferros artísticos” (CASCUDO, Op cil,p. 201.).

Na mensagem do governo de 1910, o governador Alberto Maranhão profere acerca da conclusão de algumas obras do Herculano em Natal:

MARANHÃO, Alberto. Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo em 01 de Novembro de 1910. Natal: Typographia d’A Republica, 1910. Sobre as Obras Públicas na capital (p.17-20): Alem destas obras, mandei construir mais as seguintes: calçamento a granito nos principaes trechos da cidade; […] conclusão dos jardins publicos da praça Augusto Severo e Andre de Albuquerque e reconstrucção quase por completo do theatro Carlos Gomes, sob projecto e administração do architecto Herculano Ramos, consultor technico do thesouro do estado. (Mensagem de Governo – 01 de Novembro de 1910).

Herculano Ramos residiu dez anos em Natal (1904-1914), integrou uma equipe técnica que foi responsável pela realização de benfeitorias no Porto da cidade. Foi contratado pelo Estado e por particulares, desenvolveu inúmeros projetos, dentre os quais destacam-se: o Grupo Escolar Augusto Severo, os jardins da Praça Augusto Severo, o Solar Bela Vista, o Teatro Carlos Gomes e várias residências.

O governo do Sr. Alberto Maranhão empreendeu nesse segundo mandato uma série de melhorias urbanas em Natal, tais como, a incineração do lixo, a instalação da eletricidade, a implantação de transporte urbano sobre trilhos – os bondes – a reforma do Teatro Carlos Gomes, entre outros.

Atuou o arquiteto Herculano Ramos em vários capitais nordestinas. Em Natal, destacando-se, em 1904, o tratamento arquitetônico do aterro da Campina da Ribeira e um ajardinamento do Jardim Público da Praça da República; a construção do Grupo Escolar Augusto Severo, em 1908 (objeto de nossa investigação); o Congresso Legislativo Estadual em 1908; a reconstrução do Teatro Carlos Gomes em 1912.

O Teatro Carlos Gomes, cuja reforma, elaborada e executada sob a direção do arquiteto
Herculano Ramos, consumiu mais de 17% do total dos investimentos em obras públicas
realizadas em Natal nestes dois anos.

Esse quadro refere-se apenas aos investimentos diretos efetuados pela administração estadual; parte significativa dos recursos do empréstimo foi repassada às empresas concessionárias, como em 1910, quando a Empresa de Melhoramentos de Natal recebeu o repasse de aproximadamente 900:000$ (novecentos contos de Réis) para a consecução das obras e serviços a seu encargo: construção da usina elétrica, implementação do bonde e da iluminação elétricas e de uma rede telefônica, construção de um balneário na praia da Limpa, de fornos de incineração do lixo, etc.; somadas as duas rubricas, foram gastos apenas nas obras públicas de Natal pelo menos 40% do valor do empréstimo captado (Cf. Maranhão, 1910, p. 17-20; 1911).

Teatro Carlos Gomes – depois Alberto Maranhão – após sua reforma de 1912. Fonte: CAMARA, Amphiloquio. Scenarios norte-riograndenses, 1923. Rio de Janeiro: Editora “O Norte”.

O “Teatro Carlos Gomes” reconstruído e aumentado sob os planos de um jovem arquiteto norte-rio-grandense que vem de conquistar o primeiro prêmio na Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro, tendo no vestíbulo a estátua de Segundo Wanderley a guiar a barca da fantasia, empunhando o cetro da Arte sobre o pedestal da crença, é constantemente visitado pelas maiores celebridades artísticas, e a ópera uma jóia da arquitetura num dos lados da praça Pedro Velho, é afamada nos grandes centros musicais do mundo.

A fachada, representando um estilo moderno, exibiria um corpo central de dois pavilhões com cinco portões de ferro, mantidos por pilastras de concreto modelado. Os portões e as decorações simbólicas, sob a supervisão de Nicolino Milano, foram, artisticamente, fundidos em Paris, pela Fonderies Du Val D’osne. A encomenda foi entregue ao Governador do Estado, em princípios de outubro de 1911. A decoração simbólica seria composta por grandes medalhões, as “Máscaras” da Arte de representar: o drama e a comédia. Sobre o pórtico, a Ópera, com as iniciais C.G. (Carlos Gomes); no tímpano, a Música e no vértice do frontão, como síntese, A ARTE, representada pela escultura de Mathurin Moreau, com réplicas em Paris e em Bruxelas.

Os trabalhos prolongaram-se por todo o ano de 1911 e até metade de 1912. No dia 16 de junho, o arquiteto Herculano Ramos, fez a entregue do teatro ao Governador Alberto Maranhão, o Mecenas Potiguar, e a 19 de julho a Gran-Camparíia Espanola de Zarzuela, Opera y Opereta Plabo López fez a inauguração com a opereta “Princesa dos dólares”, de Leo Fali (Cf. CASCUDO, Op. cil, p. 201.), e a Orquestra do Teatro executou a Sinfonia de O Guarany, de Carlos Gomes, com a participação do Governador Alberto Maranhão.

Quando re-inaugurado, em junho de 1912, o Teatro Carlos Gomes orgulhava as elites locais, que tinha no teatro um espaço privilegiado de sociabilidade. Dentro do luxuoso edifício, as elegantes senhoras e senhoritas poderiam exibir seus trajes dos camarotes ou das cadeiras, longe dos incômodos do incivilizado “zé-povinho”, ao som da Companhia Lyrica Paulo Lopez, que foram então vistos com maior nitidez, devido ao novo sistema de iluminação elétrica do prédio. (THEATRO Carlos Gomes. A República, Natal, 19 jun. 1912.).

Teatro Carlos Gomes (ACERVO Iconográfico do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte. [s.n.]).

A última notícia que encontramos do Ramos em Natal foi a reforma do teatro Carlos Gomes reinaugurado em 1912. Concomitantemente ao trabalho realizado no teatro em Natal, segundo relatos encontrados em textos extraoficiais, ele também participa da construção do teatro José de Alencar em Fortaleza – CE. Neste, o arquiteto fica responsável pela decoração e pela pintura do pano de boca do teatro (COSTA, 1994).

Dentre as habilidades desenvolvidas pelo H. Ramos, como Cascudo mesmo relata no seu livro das velhas figuras, e como um típico aluno formado na escola de Belas Artes, Ramos era muito mais do que um “projetista”. Nas pesquisas realizadas nos periódicos dos governos, encontramos algumas notas sobre sua atuação como pintor, escultor ou desenhista. Além disso, suas habilidades eram reconhecidas por todos que conviveram com ele ou apenas eram apreciadores de suas obras. Suas multifacetas eram, de fato, peculiares a ele, e isso lhe rendeu bastante elogios como podemos despontar a seguir:

Herculano Ramos, atraído da Bahia por Alberto Maranhão, e que era um maravilhoso arquiteto, um poeta da geometria, urbanista, gentilíssimo, levantava esse madrigal a Melpômene e Tália, que é a linda fachada do Teatro Carlos Gomes; filigranava em arabescos e florões de caprichosa leveza e graça oriental, os caramanchões dos jardins da cidade (MELO, 2001).

Seu inegável talento na pintura foi assinalado na pintura dos panos de boca do teatro Carlos Gomes e do teatro José de Alencar em Fortaleza. O telão de boca do teatro em Natal, media aproximadamente 7,90m de comprimento por 6m de altura e representava uma apoteose a Carlos Gomes, pelos personagens de suas óperas, II Guarany, Condor, Fosca, Colombo, Lo Schiavo e Salvator Rosa (MIRANDA, 1981).

Pano de boca do Teatro Alberto Maranhão, pintado pelo Herculano Ramos.Fonte: MIRANDA,1999.

O novo prédio, no seu formato atual com dois pavimentos, articula elementos arquitetônicos de diferentes estilos. (CTA. Teatro José de Alencar. Centro Técnico De Artes Cênicas). Sua fachada apresenta uma simetria de composição própria do neoclassicismo. Ao nível do térreo, está guarnecida com cinco portões de ferro, fundidos em Paris, com vão de arco abatido superpostos com igual números de janelas no pavimento superior. No segundo pavimento as janelas são de madeira e vidro com vãos em verga reta, e guarda corpo em ferro fundido. Foi construído em estilo eclético com predominância de vários elementos “art nouveau” distribuídos por toda fachada.

: Leitura da fachada atual do Teatro Alberto Maranhão (TAM). Fonte: CD Natal, ontem e hoje (Arquivo HCUrb).
Detalhe das esquadrias do pavimento superior
O teatro em outro angulo. A cobertura é arrematada com platibanda adornada com elementos de metal, jarros e janelas importados da França (LIMA, 2002). Sobre os eixos visuais, observa-se uma clara predominância do eixo horizontal sobre o vertical. Também há uma predominância do cheio sobre o vazio.
Fotografia sem data, mas que mostra a sala de espetáculo com os guarda corpo pintados de branco.
Vista de dentro do Foyer para o pátio. Os portões tanto internos como externos apresentam traços art nouveau no seu desenho com arabescos e linhas retas nos detalhes entre e os portões, com bandeirolas fixa em madeira e vidro. Observa-se também a cerâmica do piso, o lustre, os detalhes de gesso no roda teto, provavelmente todos materiais importados.
Vista atual do meio do pátio com vista das varandas de acesso ao jardim e a escultura.
Estátua “a arte” – Mathurin Moreau cravada no alto do frontão do teatro existente até hoje. Fonte: Santos (1999)

CLUB CARLOS GOMES

Dentre os cafés e clubes que apareceram em Natal nas primeiras décadas do século XX, estavam o Potyguarânia (1894), o Club Carlos Gomes (1898), o Bilhar Recreativo (1901), o Bilhar Cyclista (1901), o Cassino Potyguar (1902), o Café Socialista (1903), o Natal Club (1906), o Café Natalense (1906), o Café Chile (1916), o American Bar (1916), o Café Avenida (1918), o Café Petrópolis (1914), o Café Tyrol (1924), o Aero Club (1928), entre outros (MARINHO, 2011, p. 98-99). Vamos nos deter em dois deles, o Café Petrópolis e o Aero Club.

Tentar recuperar informações sobre os clubes e cafés de Natal não é tarefa fácil, já que poucas eram as notícias existentes sobre esse tipo de estabelecimentos nos jornais. A partir de anúncios publicitários e notas jornalísticas, podemos ter uma ideia da localização e ano de funcionamento de alguns dos principais pontos de sociabilidade dos natalenses, nas primeiras décadas do século XX. Neste contexto, o Club Carlos Gomes aparece em 1898 situado na Rua 21 de Março- Cidade Alta.

Em Natal, cafés, bares e bilhares não foram os únicos estabelecimentos dedicados às diversões. Os clubes tiveram um importante destaque na vida social da cidade. Os clubes recreativos eram sociedades fechadas e seletas, ambientes em que as elites desenhavam seus espaços e definia suas imagens. A primeira sociedade recreativa da cidade teve lugar ainda no século XIX. O Club Carlos Gomes funcionava em uma residência alugada no bairro de Cidade Alta, na rua 21 de Março, número 8, e veio responder aos apelos de uma sociedade que ansiava por um lugar onde pudessem ocorrer bailes e reuniões sociais capazes de movimentar a vida social da cidade, como nos mostra o redator d’O Nortista nesse artigo de 1893:

Felizmente vai-se desenvolvendo entre nós o gosto e perseverança pelas associações recreativas, uma necessidade no centro de uma cidade como esta já bastante populosa, e sem meios de outras diversões. (…) grande casa convenientemente preparada e mobiliada; um salão de honra magnificamente decorado; o terraço com mezas de jogos de diversão, um novo bilhar no centro de outro salão; salas de palestra, a banda de musica marcial do Club, em uma sala de espera, tocando escolhidas peças ao entrarem as famílias para a festa. (CLUB Carlos Gomes. O Nortista, Natal, 1 dez. 1893.).

O trecho extraído d’O Nortista expõe uma ansiedade das elites natalenses por certas mudanças nas sociabilidades, ainda no século XIX. Nesse texto, o autor relaciona o crescimento urbano com o desenvolvimento de novas formas de sociabilidade, que já se faziam imprescindíveis à imagem de uma cidade civilizada. Os cuidados na descrição da mobília, dos salões de dança, de espera e de jogos revelam uma preocupação com a aparência do lugar, já que a estrutura física das associações recreativas revelava seu requinte e grau de influência na sociedade: quanto melhor estruturadas, mais atendiam às aspirações das elites locais.

O Club Carlos Gomes respondia aos apelos de uma sociedade que ansiava por um lugar em que pudesse ser promovidos reuniões sociais e bailes dançantes. No ano de 1893, o Carlos Gomes agitava a vida natalense promovendo um salão que continha bilhar, sala de palestras, uma banda de música e uma sala de espera destinada às famílias da capital potiguar. Ver: ARRAIS, Raimundo. ANDRADE, Alenuska. MARINHO, Márcia. Op. Cit. p.140-141.

Foi o Clube Carlos Gomes (1892-1914) que iniciou a fase das iniciativas particulares no ensino da música.

Frequentavam homens como Joaquim Severino da Silva. Encontramos informações sobre ele : passou Uns vinte anos na Intendência (dezoito, para sermos precisos) como secretário da intendência de Natal. Foram duas notas no jornal, uma sobre seu aniversário, e outra em que pede aforamento de um terreno na Rua 21 de Março, Cidade Alta, como representante do Club Carlos Gomes (Ver, respectivamente, A REPUBLICA, Natal, 06 set. 1905; 16 mar. 1910.).

O Natal-Club foi fundado em 22 de junho de 1906, serviu de abrigo a encontros dos homens de letras da cidade por mais de uma década. O clube foi instalado na Rua 21 de Março, número 8, no bairro da Cidade Alta, local onde funcionava a então sede do Club Carlos Gomes. Depois de uma discussão acerca do nome da instituição, a mais renomada instituição recreativa da cidade (MARINHO, Márcia Maria da Fonseca. Op. Cit. p. 113.) estabeleceu-se na sede emprestada pelo Club Carlos Gomes e era constituída pelos seguintes membros: Manoel Coelho, Antonio Adolpho, José Augusto, João Gualberto, João Soares, José Julio, Alberto Roselli, Joaquim Bezerra, Francisco Cândido, Anisio Avila, Mario Villar, Luiz Jabotá, Antonio Arthur, Theodorico Guilherme, Adalberto Amorim, Luiz Avila, João Cancio, Themistocles Costa, Oscar Rubens, Odorico Pelinca, José de Viveiros, José Pinto, Ezequiel Wanderley, Silvino Bezerra Netto, Milton Carrilho, Francisco Cruz, Odiolon Garcia Filho e Manoel Augusto Bezerra de Medeiros(SOARES, Moysés. Op. Cit. p. 7.).

O nome do clube recreativo foi discutido entre os seus primeiros sócios. Uns queriam denominá-lo de Terpsichore, outros de Euterpe, outros de Cavalheiros do Ideal e, outros, ainda, de Natal-Club. A última denominação venceu nomeando a instituição. Para maiores esclarecimentos sobre a eleição do nome, consultar: SOARES, Moysés. O Natal-Club e as suas primeiras décadas (Conferência realizada no salão nobre do NatalClub, em 22 de junho de 1916). Natal: Tipografia do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, p. 8-9.

Em 30 de agosto de 1909, o Natal-Club teve que mudar a sua sede. Uma desavença entre os membros dos dois clubes encerraria a parceria. Outro motivo da mudança justifica-se pelas exigências feitas pelo Club Carlos Gomes para a utilização do espaço cedido pelo clube musical. Para que a instituição continuasse usando a sede do Carlos Gomes, foi exigido que o Natal-Club passasse a pagar não apenas os aluguéis mensais do ambiente, como também pagamentos relativos a qualquer reunião dançante, ensaios, saraus, bailes promovidos pelo clube.

Os desalojados sócios do Natal-Club encontraram apoio governamental para a continuação de suas atividades. O governador Alberto Maranhão cedeu ao clube um antigo prédio localizado na avenida Rio Branco, que após passar por reforma, promovida pelos sócios, abriu as suas portas com um baile inaugural no dia 9 de outubro de 1909. Estava erguida a nova e definitiva sede do Natal-Club. (ANIVERSARIO do Natal-Club. A Republica, Natal, 26 jun. 1916.).

Em Natal, os salões do Natal-Club, os salões do Palácio do Governo, Instituto Geográfico e Histórico do Rio Grande do Norte (IHG/RN) e o Teatro Carlos Gomes, não tardaram a receber conferencistas que tratasse dos mais variados assuntos: literário, historiográfico, jurídico ou científico.

Outro club que também foi prestigiado pela elite local foi o Sport Club Natalense, fundado na capital potiguar no ano de 1906. Três anos depois, o Sport Club seria a importante sede dos dois primeiros eventos realizados em homenagem ao distinto poeta potiguar, Segundo Wanderley. No último dia de janeiro do ano de 1909, o governo do Estado, à época presidido pelo Dr. Alberto Maranhão, e ilustres membros da elite potiguar se reuniram no Teatro Carlos Gomes, com o intuito de buscar meios para comprar uma casa para os órfãos do pranteado vate rio-grandense. O Alberto Maranhão, se oferece a comprar para uma casa para dar-lhes como patrimônio, contando com o apoio de amigos e admiradores do “querido vate potiguar”.

O grupo, que se reúne em 31 de janeiro no citado teatro, decide, além disso, realizar um ciclo de conferências, espetáculos e corridas no Sport Club, no intuito de homenagear o falecido e angariar fundos para a compra da casa para seus filhos (VARIAS. A REPUBLICA, Natal, 01 fev. 1909). A primeira medida proposta pela comissão encarregada de alcançar o dito propósito, e acatada pelos que participaram da reunião, foi a realização de uma série de conferências, espetáculos e corridas no Sport-Club. Para as conferências foram inscritos Manuel Dantas, Eloy de Souza, Domingos Barros, Honório Carrilho e Henrique Castriciano (Id., Natal, 01 fev. 1909. A comissão encarregada da organização dos eventos, bem como da edição de obras de Segundo Wanderley foi composta por Manoel Dantas, José M. Pinto, Henrique Castriciano, entre outros.).

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O Natal-Club. Fonte: Foto de Manoel Dantas. MIRANDA, João Maurício Fernandes de. 380 Anos de História Foto-Gráfica da cidade de Natal – 1599/1979, Editora Universitária, UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. p. 37.
A sede do Natal-Club, no início do século XX, provavelmente antes de abrigar a Escola de Aprendizes Artífices.

MODERNIDADE

Construir teatros e jardins ajudaria a compor o cenário de cidade moderna e a forjar semelhanças com as cidades européias, independentemente das proporções das reformas, lembrando a idéia de superestimação das transformações urbanas analisadas por Pesavento. O Teatro Carlos, entre os equipamentos urbanos que comporiam o entorno do Jardim Augusto Severo, deram uma fisionomia afrancesada àquela área da cidade.

As elites dirigentes não pouparam recursos para construir espaços condizentes com ideal de vida urbana. A construção do Teatro Carlos Gomes, em
1904, é exemplo representativo dos interesses governamentais em produzir uma nova fisionomia para a cidade. Arrais explica que o teatro se revestiu de uma missão civilizatória, representando mais um “esforço reformador voltado para a população urbana” (ARRAIS, Op cit, 2006. p. 126.).

Mudanças no padrão de consumo dos habitantes são percebidas nos produtos que foram disponibilizados no comércio local, que se equipou com as novidades vindas do estrangeiro. Assim, no estabelecimento “Paris em Natal”, localizado na Praça Augusto Severo, nas imediações do Teatro Carlos Gomes, as pessoas podiam se abastecer das “ultimas novidades em tecidos, chapéos, perfumarias dos afamados fabricantes – Houbigante, Caron, Cotu, Dorsay, Colgate, Roger & Gallet, etc.”.

Foi somente em 1907 que a construção do novo grupo escolar da Capital começou a ser efetuada. Ao grupo foi dado o nome da mesma praça em que foi construído – Augusto Severo. Além do nome ilustre, o novo prédio seria construído ao lado do teatro Carlos Gomes e junto com ele representariam a morada da arte e da intelectualidade natalense – grupo escolar e teatro formavam, juntos, uma espécie de centro da cultura da capital.

Além disso, a escolha de sua localização ainda poderia dizer muito do papel social que a escola deveria desempenhar dentro da cidade. Quando o grupo escolar Augusto Severo passa a ocupar um lugar de destaque ao lado do teatro Carlos Gomes, assume, sem dúvida, o sentido de irradiador da cultura letrada, ao contrário, por exemplo, de outros grupos escolares.

A imagem do prédio do grupo escolar Augusto Severo nos dá dimensão da grandiosidade e opulência da arquitetura escolar, que também se assemelhava bastante ao próprio modelo arquitetônico do prédio do teatro Carlos Gomes.

Fotografia da fachada externa do Grupo Escolar “Augusto Severo”.

Localizado entre o Teatro Carlos Gomes e a Escola Doméstica integra as edificações do quadrilátero da Praça Augusto Severo, juntamente aos serviços urbanos instalados configuram-se em símbolos de modernidade capitalista: o bonde e a energia elétrica, o Magazine Paris em Natal e a Fábrica de Tecidos, a Estação Ferroviária, a residência do comerciante Juvino Barreto (antiga Vila Barreto), o cinema Polyteama, dentre outros.

Em 1917 a frequência aos espetáculos no teatro Carlos Gomes, a ida aos cinemas fixos da cidade, os passeios aos cafés, a busca por diversões nos bilhares, os passeios nos bondes elétricos substitutos dos bondes de burros com o surgimento da eletricidade, os bailes promovidos na cidade, os termos estrangeiros contagiando o dialeto potiguar, os automóveis em circulação, entre outras novidades, modificavam os modos de se viver na cidade, bem como constituíam um observador atento a uma ampla gama de estímulos produzidos artificialmente pelas ruas da cidade do Natal.

As edificações são a materialização dos desejos da elite natalense em dotar a capital provinciana com os requintes da modernidade. Observou-se a presença de elementos modernos como a Arte (Teatro Carlos Gomes), o Urbanismo (Praça Augusto Severo), a Tecnologia (Cine Polytheama) e a Educação (Grupo Escolar Augusto Severo e Escola Doméstica).

A LUZ PARA CARGOS GOMES

Em 1910, antes de a luz elétrica clarear as noites natalenses, a cidade e os edifícios públicos eram iluminados a gás acetileno, que havia sido considerado um grande avanço na luta contra escuridão da cidade. Nesse ano, os benefícios da eletricidade em substituição ao acetileno aparecem em torno das reformas que se realizavam no Teatro Carlos Gomes. O assunto despertou o interesse de um cronista d’A Republica, que escrevia uma série de colunas sobre a formação do caráter indígena, o qual desviou “sua cançada vista para a nova illuminação do theatro”. O autor questionava por que uma das autoridades responsáveis pelas reformas do Teatro, a quem ele chama de “s.s.”, teria sido a favor da manutenção do acetileno contra a proposta de iluminar o teatro com uso de eletricidade. Para ele, uma “caprichosa idiosincrasia” frente à iluminação pública e particular, lembrando que o colega s.s

extranhou que o governador mandasse accender todas as noites as salas de Palacio, serviço que aliás nada custa ao Estado, só porque, morando o collega em frente a casa do governo, offuscava-lhe a visão, causandolhe arrepios nervosos, conturbadores, aquelles biquinhos inocentes do gaz acetylene. (O “Diario” e a luz. A Republica. 27 de janeiro de 1910, ano XXII).

O RELÓGIO DA JUNQUEIRA AIRES

Elementos técnicos ostentavam adornos que exibiam os valores estéticos das formas graciosas, ressaltando a leveza dos detalhes, uma leveza sedutora e seguindo os valores estéticos em vigor desde o século XIX. Esses elementos decorativos, imbuídos do poder do enobrecimento, criaram uma nova paisagem e valorizaram os espaços da cidade que os receberam. A balaustrada da Avenida Junqueira Aires, da qual faz parte um relógio movido à eletricidade, inovação inaugurada em 1911 junto aos serviços de energia elétrica, pode ser percebida como uma dessas fantasias decorativas, quando a inovação técnica extrapola sua funcionalidade e ganha motivos estéticos, atuando os elementos técnicos no embelezamento da cidade.

O local foi considerado pela impressa como “deslumbrante” após a chegada do “relógio e o gradil tão justamente famoso pelos seus 103 metros de cumprimento”, um “recanto aprazibilíssimo” capaz de provocar a “sensação que os grandes artistas experimentam ao contemplar as suas obras primas” (AINDA OS MELHORAMENTOS. Diário do Natal, 6 out. 1911.). A balaustrada de ferro foi fixada sobre um muro de arrimo com colunetas
inferiores medindo 60,6 cm, e ornamentada por dez colunetas-candelabro contendo “10 candelabros elétricos e um belo relógio decorativo também elétrico”, e, ainda uma placa de bronze fixada no muro, para assinalar a inauguração do melhoramento.

A solenidade realizou-se às 17h, no mesmo dia festivo de inauguração da usina de energia elétrica e da instalação dos bondes elétricos, dia 02 de outubro de 1911 (aniversário do governador) (MENSAGEM APRESENTADA AO CONGRESSO LEGISLATIVO, em 1° de novembro de 1911, pelo governador Alberto Maranhão. Typographia d’A Republica, Natal, 1911.). As peças do conjunto foram encomendadas pelo catálogo da Sociedade de Altos Fornos e Fundição do Val d’Osne, localizada em Haute-Marne, região de Champagne-Ardenne na França (a mesma fundição responsável pelo portão central do Teatro Carlos Gomes). O conjunto de equipamentos, com exceção da placa, ainda se encontra no local (As peças se encontram sob a guarda do Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Norte – SESC RN. Conferir: SESC Rio Grande do Norte: uma história de 60 anos. Textos de Jackeline Pinheiro Maria Cavalcanti e Zaira Atanázio Ferreira. Natal: SESC/RN, 2006.).

Avenida Junqueira Aires, com detalhe para o relógio movido à eletricidade e suas luminárias. Na seqüência, a balaustrada. Fonte: CD Natal 400 anos
Avenida Junqueira Aires no início do século XX. Fonte: Caminhos de Natal.

SOCIABILIDADES DO CARLOS GOMES

Em relação às práticas de lazer proporcionadas pela cidade do Natal nesse período, podemos dizer que era um lugar de movimento tranquilo, onde as pessoas tinham o costume de sentar nas calçadas para dialogar durante as quentes noites natalense, de assistir aos espetáculos e saraus no teatro da cidade, o Carlos Gomes, de ouvir as serenatas durante o período de lua cheia enfim, costumes que vislumbravam uma cidade pacata e aconchegante. As práticas de lazer, nessa época, foram dinamizadas com a inauguração de três centros esportivos: o Sport Club de Natal, o Centro Náutico Potengi e o América Foot-Ball Club que surgem como associações para fomentar a vida esportiva local.

Locais como o Teatro Carlos Gomes, construído em 1904, eram lugares apropriados para o cultivo de práticas consideradas modernas, como assistir aos espetáculos teatrais. Nesse sentido, a historiadora Márcia Marinho nos mostra como as obras de construção do Teatro Carlos Gomes foram aguardadas pelas elites locais com expectativa. O teatro era visto como um espaço fundamental para trazer para uma parte dos natalenses, nesse caso, a mais abastada, elementos importantes da civilização. O teatro agiria na educação dos indivíduos, disseminando a cultura compartilhada pelas elites de outros centros urbanos. (MARINHO, Márcia. op., cit. p. 65) No entanto, práticas como a ida ao teatro, exigiam o uso de um vestuário apropriado para um espaço como esse.

Não é por mero luxo ou exibição, que as senhoras devem usar chapéus, muito mais necessário e convenientes a ellas, que aos homens geralmente mais fortes e resistentes as imtemperies atmosféricas. Não precisa ser medico para saber que são inúmeras as moléstias contrahidas pelas senhoras que não usam chapéu, tão útil e conveniente como o calçado. Igualmente ao chapéu foi inventado antigamente, o uso da gravata, em forma de lenço com duas voltas em torno do pescoço, para protege-los das moléstias da garganta. Não entramos na discussão da forma e moda do chapéo, somente achamos que às senhoras não se deve prohibir nem pedir para trazerem as cabeças desprovidas de um amparo qualquer-seja chapéu, gorro, capete, etc. (OS CHAPÉUS no teatro. A República, Natal, 13 de ago. de 1913.)

Em 1907, o engenheiro chefe da comissão de melhoramentos do porto, Antônio Simões, foi convidado para participar de uma associação nacional, destinada a cuidar da segurança dos portos e de todos os trabalhadores do mar, promovendo o desenvolvimento das atividades envolvidas no transporte marítimo. A associação chamada de Liga marítima, criada em 1907, envolveu engenheiros, políticos e intelectuais de várias regiões do Brasil, que, para participar integrá-la, deveriam contribuir com a cota mensal de 1000 réis. Os representantes da liga viriam a Natal, sendo hospedados no hotel internacional para conferência que dariam no Teatro Carlos Gomes sobre os benefícios dessa associação para os natalenses.

De acordo com o historiador Gutemberg Costa, em 1907 existiam na cidade dois locais estruturados onde se brincava carnaval: o Teatro Carlos Gomes e o Natal Club. Os grupos carnavalescos que contagiavam a juventude eram: “Vassourinhas”, “Aurora Natalense” e “Vasculhadores”. As passeatas dos clubes e cordões eram denominadas “Préstitos”. No carnaval antigo de Natal as moças de famílias mais abastardas se fantasiavam de fadas, anjos e usavam roupas esvoaçantes de filó. O carnaval era na Ribeira, especialmente na Avenida Tavares de Lira e na Rua das Virgens, onde a serpentina, o confete e o lança perfume eram abundantes. A animação passava também pela Rua Dr. Barata ao som de bandinhas e a pequena área de concentração dava uma alta densidade de foliões por metro quadrado. Também havia movimentação na Rua da Palha (atual Vigário Bartolomeu), Cidade Alta.

Corso de automóveis no carnaval da Ribeira, 1934. Foto do acervo de José Estácio de Aquino Filho

Manuel Dantas, particularmente, seria uma das figuras no meio intelectual natalense, que mais se empenhariam em estabelecer, por meio da leitura, da imaginação, esse transporte de uma parte dos natalenses para o “velho mundo”. Em 1909, Dantas ministrou, no Teatro Carlos Gomes, sua famosa conferência, intitulada: Natal daqui a cinquenta anos. Conferência, que fora publicada no mesmo ano pela tipografia do jornal A República. Nessa conferência, Dantas propõe o esforço de imaginar a cidade de Natal no futuro. Uma cidade cosmopolita, atraindo turistas de várias regiões do mundo, a “rainha das dunas”. Merece destaque, na narrativa deste intelectual, a descrição feita em relação ao porto e seu papel nessa “cidade do futuro”.

Fundada em 18 de março de 1928 por iniciativa do médico Januário Cicco (São José de Mipibu, RN, 30/04/1881 – Natal, 01/11/1952), a primeira maternidade da cidade contou com a ajuda da comunidade local para obter recursos para a construção de sua futura sede. Em meio a essa corrente de colaboradores, o “Curso Waldemar de Almeida” participou oferecendo a renda dos ingressos da sua 13ª audição de alunos. O evento se realizou a 5 de fevereiro, no Teatro Carlos Gomes, iniciando-se com a apresentação da “Canção dos pescadores”, poema de Henrique Castriciano musicado por Waldemar de Almeida, feito em homenagem aos pescadores natalenses que, em 1922, durante a comemoração do centenário da Independência do Brasil, realizaram em seus barcos, um reide ao Rio de Janeiro. Os pescadores estiveram presentes. Mais tarde a revista Som, em seu primeiro número (11 de junho de 1936), publicaria a foto de um numero grupo de crianças e adolescentes na entrada do Teatro Carlos Gomes. A legenda refere-se a um coro a três vozes, composto de cento e cinquenta participantes, parecendo estudantes, mas sem indicar a origem. Diz ainda a legenda que o coro se apresentou com acompanhamento de orquestra, sem outros detalhes (p. 7).

Primeira demonstração orfeônica do Rio Grande do Norte, organizada e regida
por Waldemar de Almeida. Coro de 150 componentes cantando a três vozes. 13ª audição do Curso Waldemar de Almeida, em 5 de fevereiro de 1932. Pátio do Teatro Carlos Gomes. Foto da revista Som, n. 1.

Em 1928 foi criado o Aero Club do Rio Grande do Norte, com sede na Avenida Hermes da Fonseca, Cidade Nova, precisamente na área que seria conhecida como Tirol. O governador fez concessão financeira para a fundação do clube e cedeu o terreno para a abertura de um campo de pouso, bem como de sua sede social. Ali iria funcionar também uma escola de pilotagem. A sessão inaugural do clube ocorreu no dia 17 de fevereiro de 1928, no Teatro Carlos Gomes, contando com a presença de importantes nomes da sociedade natalense, os sócios fundadores do novo clube, com a sessão presidida pelo governador Juvenal Lamartine (COSTA, 2011, p. 2).

No Brasil, os grupos direitistas, entre eles os de ideologia nazi-fascistas, estavam agrupados na Ação Integralista Brasileira (AIB), liderada por Plínio Salgado. A AIB nasceu somente em outubro de 1932, a partir de um manifesto redigido por Plínio Salgado, em fins de maio do mesmo ano. A AIB nasceu no Rio Grande do Norte no dia 14 de julho de 1933, sob a presidência do professor Francisco Véras Bezerra, da Congregação Mariana dos Moços, numa solenidade no Teatro Carlos Gomes, que contou com a presença do interventor do estado (COSTA, 1995, p. 67; SPINELLI, 1996, p. 173).

A esquina da Tavares de Lira com a Dr. Barata é também uma espécie de continuação do Teatro Carlos Gomes (Teatro Carlos Gomes, construção iniciada pelo governador Joaquim Ferreira Chaves; passou a se denominar Teatro Alberto Maranhão a 23 de agosto de 1957.). As conversas da “caixa” e dos camarins da velha e tradicional casa de diversões que Alberto Maranhão fundou, são debatidas e revividas no dia seguinte entre os “iniciados”. Alberto Maranhão , governador no período de 1900 a 1904, inaugurou o teatro a 3 de março do ultimo ano de seu governo. Quando tem companhia teatral na cidade, é muito fácil saber-se porque pela esquina famosa desfila constantemente uma rapaziada “cabeluda”, com longas melenas cobrindo as orelhas, com poses de artista e mulheres às vezes muito “boas”, mas geralmente idosas e com olheiras artificiais exageradamente pintadas.

A saúde das mulheres também estava associada à prática de atividades físicas. No jornal A República, podemos vislumbrar reuniões da Associação Feminina de Atletismo. Essa Associação adquiriu sede própria em 1935, na Avenida Hermes da Fonseca, bairro de Petrópolis. Pela localização da sede e pelo anúncio da inauguração da mesma que informa que o evento contou com a presença de “numerosas pessoas de nossa melhor sociedade”, percebemos o nível econômico e social dos presentes na inauguração do prédio e das associadas. O evento contou com a distribuição de prêmios as vencedoras de uma prova. A distribuição se deu no teatro Carlos Gomes. A festa foi finalizada com um “chá-dansante”. As festividades contaram com a apresentação da banda de música do Batalhão Policial Militar (A REPÚBLICA, 05.09.1935:8).

Plateia assistindo evento no Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão, 1927, foto do acervo da família Pinheiro.

Nas comemorações do centenário de Carlos Gomes ocorrerem em 1936 no teatro com a seguinte programação: 10 de julho: início das comemorações em homenagem ao centenário de Carlos Gomes: apresentação de alunos e orfeão do Instituto de Música, no Teatro Carlos Gomes. 11 de julho: lança o primeiro número da revista Som. 11 de julho: conferência sobre Carlos Gomes, a convite do Centro Estudantal Potiguar.

Assim, em 25 de dezembro de 1948, Câmara Cascudo recebeu o título honorífico e profissional de historiador oficial da cidade do Natal, em cerimônia realizada nas dependências do Teatro Carlos Gomes – atual Teatro Alberto Maranhão. Na mesma cerimônia, duas personalidades receberam os títulos honoríficos de cidadãos natalenses pelos “serviços relevantes prestados à cidade”: o general Bina Machado, pelas iniciativas visando à conservação do Forte dos Reis Magos; e o médico Januário Cicco, pelo trabalho desenvolvido no hospital Miguel Couto e pela construção da maternidade de Natal. (Cf. ANIVERSÁRIO da fundação da cidade. In: PEDROZA, Sylvio Piza. Cidade do Natal – Administração Sylvio Piza Pedroza. Natal, 1948. v. 3. Copydesk. Acervo Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza, Natal – Rio Grande do Norte.). A data da nomeação do “maior enamorado de nossa História” (Idem.), o aniversário da fundação da cidade, é reveladora do simbolismo que envolvia o cargo: uma demonstração de “reconhecimento aos serviços prestados ao esclarecimento e estudo da história local, principalmente através da obra ‘História da Cidade do Natal’”. (Cf. Id., Discurso do prefeito Sylvio Pedroza ao entregar a Luís da Câmara Cascudo o título de historiador da cidade do Natal. Natal, 1948. 2p. Mimeografado. Acervo Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza, Natal – Rio Grande do Norte.).

Luís da Câmara Cascudo recebendo os cumprimentos do prefeito Sylvio Piza Pedroza, em 25 de dezembro de 1948, na cerimônia em que foi nomeado historiador oficial da cidade do Natal. Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza – Natal-Rio Grande do Norte.

NA INSURREIÇÃO COMUNISTA

O movimento deflagrado no 21º Batalhão dos Caçadores era formado por militares do próprio batalhão, por estivadores e outros militantes civis. Avança como uma onda pela cidade, pegando de surpresa as autoridades. Logo que o movimento eclodiu, imaginou-se que se tratava de uma simples manifestação da oposição para derrubar o governador Rafael Fernandes, que se encontrava no Teatro Carlos Gomes acompanhando uma solenidade de colação de grau do colégio Marista, que, sabendo do ocorrido, exilou-se com alguns auxiliares no Consulado da Itália. Existem dúvidas quanto ao refúgio do governador Rafael Fernandes. Alguns estudiosos afirmam que Rafael Fernandes e seus auxiliares esconderam-se no Consulado do Chile, sob a proteção de Elias Lamas; segundo outros, o esconderijo de Rafael Fernandes e de Aldo Fernandes foi o Consulado da Itália, sob a proteção de Guilherme Letieri, enquanto o prefeito Gentil Ferreira ficou sob a proteção do Cônsul chileno Carlos Lamas.

Muitos revolucionários armados se deslocavam atirando pra todos os lados, eles iam provavelmente na direção do Teatro Carlos Gomes, onde estavam as autoridades do governo. No desespero, Maria do Rosário conduziu Myrthô e adentrou à casa de dona Duca Varela, lá já estavam diversas pessoas, todo mundo deitado no chão ou de joelhos rezando por proteção.

O governador Rafael Fernandes e o secretário geral Aldo Fernandes estavam no Teatro Carlos Gomes assistindo a festa de formatura da segunda turma do Colégio Marista com a peça “O Milagre da Fé”. Após o início do tiroteio, eles fugiram para asilo nos Consulados do Chile e da Itália. Muitas pessoas que estavam no teatro se esconderam no colégio do prof. Severino Bezerra, ali vizinho. Lá, cerca de 400 pessoas dormiram no chão. Luís da Câmara Cascudo, Otto Brito Guerra e outros intelectuais eram vinculados ao movimento integralista, liderado nacionalmente por Plínio Salgado, na linha católica conservadora e anticomunista, com características do fascismo italiano. Todos eles foram caçados pelos revolucionários, mas conseguiram se esconder e escaparam da prisão.

Muitas autoridades estaduais civis e militares, como o capitão corveta Leonel Bastos, comandante da Escola de Aprendizes Marinheiros e o deputado Pedro Matos, se refugiaram (asilo político) em navio de guerra de bandeira mexicana que estava ancorado no Porto da Ribeira. Algumas dessas pessoas estavam no Teatro Carlos Gomes quando tomaram conhecimento da insurreição comunista em 1935.

BONDES

A nova mudança de direção nos serviços elétricos e de bondes da capital prenuncia o que poderíamos classificar como “segundo momento de modernização”, pelo qual Natal passará nesses primeiros anos da década de 1910. Em janeiro de 1913 chega à cidade o senador Ferreira Chaves, a bordo do paquete Bahia, candidato ao Governo do Estado e representante da oligarquia Albuquerque Maranhão. O senador, em discurso aos representantes da elite e imprensa potiguares, traça um panorama dos melhoramentos efetuados no Rio Grande do Norte durante a gestão de Alberto Maranhão, seu partidário (VOLTANDO ao assumpto, A Republica, Natal, ano 25, n.24, 31 jan. 1913.). São relatados os melhoramentos efetuados na capital e em relação aos transportes no estado e é enfatizada a necessidade de acentuar os investimentos iniciados no tocante à educação, dotando o Rio Grande do Norte de mais instituições de ensino. Ferreira Chaves em seu discurso enaltece as modificações vividas por Natal nos últimos anos, ressaltando, sobretudo, a inserção da nova infraestrutura urbana e das novas edificações.

A Praça Augusto Severo, que hontem era um charco immundo, surgindo no formoso jardim, recreio delicioso da nossa população urbana, mais affirma o interesse dos governos na sua solicitude carinhosa pelo povo, quando vemos na mesma praça, parte de sua moldura o theatro “Carlos Gomes”, destinado á educação artística da nossa população e o grupo “Augusto Severo”, onde o ensino primário é ministrado, segundo os processos pedagógicos mais modernos. Cidade há pouco tempo mal illuminada, sem viação urbana, distanciando não somente os arrabaldes, mas os próprios bairros que assignalam a sua antiga topographia. Natal tem actualmente illuminação abundante e disseminada e meios de transporte ainda não logrados pelos habitantes de capitaes litoraneas maiores e de Estados mais ricos e com outros recursos que nos faltam (VOLTANDO ao assumpto, A Republica, Natal, ano 25, n.24, 31 jan. 1913., p. 01, grifos nossos).

Observemos a cidade do Natal no ano de 1919: os bondes elétricos trafegando pela cidade e conectando os bairros Alecrim e Cidade Alta; a exibição de espetáculos assistidos no Teatro Carlos Gomes; o advento dos cinemas fixos Royal Cinema e Polytheama; a consolidação plena do telégrafo e o desenvolvimento da imprensa na cidade, viabilizando a rápida comunicação e a difusão das novidades; e a frequência aos demais espaços de reuniões sociais, como os cafés, os bilhares e os clubes esportivos (ARRAIS, Raimundo et. all. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal: EDUFRN, 2008. p.127.). Temos aqui uma cidade em transformação.

Teatro Carlos Gomes (atual Alberto Maranhão) em cartão-postal da década de 1910; as árvores à direita indicam parte da praça Augusto Severo. Fonte: Lyra, 2001, p.45. Teatro Carlos Gomes, 1913. Fonte: Lyra, 2001, p. 45.

A Junqueira Ayres, no final da década de 1920, era a avenida por onde passavam os bondes e os ônibus, desciam as normalistas e estudantes rumo à Escola Doméstica; rumo à Av. Tavares de Lira, iam-se às vitrines à moda parisiense, aos cafés e rotisseries e aos pontos chics de reunião, passear a elegância e o spleen de Natal; assistir as regatas no rio Potengi ou aos espetáculos e filmes do Cine-theatro Carlos Gomes e do Politheama. Pela Av. Junqueira Ayres passavam muitos daqueles que tinham seus afazeres entre os bairros da Ribeira e da Cidade Alta. O seu calçamento defeituoso, além de um entrave à circulação na pequena capital, era a lembrança de um passado que não se queria para Natal; o passado expresso nos antigos topônimos – antiga Ladeira, Subida da Ladeira ou rua da Cruz – que designavam o único e difícil acesso, a “ladeira íngreme, escorregando como sabão depois das chuvas”, (Cascudo, 1947, p.148.) entre os dois núcleos primeiros que configuravam o espaço urbano da Natal do período colonial. Diria Cascudo:

“O antigo aterro colonial foi lentamente sendo substituído por pedras soltas, empedrado, trilha, calçada, paralelepípedo. Várias vezes o aclive foi rebaixado. A história termina quando o prefeito Omar O’Grady venceu o barro, tirou as pedras e vestiu a ladeira com o calçamento que resiste a tempo, água e esquecimento”. (Ibidem, p.149; grifos nossos.)

O mau funcionamento da infraestrutura dos bondes faz com que os acidentes se tornem cada vez mais constantes. Em 14 de abril de 1937 é noticiado mais um descarrilamento de bonde no cruzamento entre as avenidas Rio Branco e Ulisses Caldas – trecho pertencente à linha Alecrim – Cais do Porto – ponto movimentado da cidade, devido à falha no freio comum do veículo número 17 (O BONDE pulou fora dos trilhos, A Republica, Natal, ano 68, 14 abr.1937). Em contrapartida, os automóveis se popularizam. Nesse mesmo mês de abril é inaugurada a primeira agência da Chevrolet em Natal, situada na Avenida Nysia Floresta, antiga Sachet, e de propriedade do Sr. Alves Billa (A REPUBLICA, Natal, ano 68, 6 abr.1937f.). Além disso, é realizada, no Teatro Carlos Gomes, a exposição dos novos modelos de automóveis Ford, modelo V8-1937, pelo representante da marca H. Brounstein, que consistia em um verdadeiro espetáculo, contando com a apresentação de músicos de renome nacional como o violinista Léo Cherniavsky (A REPUBLICA, Natal, ano 68, 25 abr.1937c.).

Há muito ouço dizer que Natal é uma praça de automóveis que melhora cada dia. Os carros são excelentes, e talvez, como “consequencia as corridas são caras”. Os últimos modelos para aluguel se cruzam com os modelos de luxo dos nossos homens ricos. Mas não tínhamos ainda agencias que estivessem à altura desse progresso dos nossos automóveis. Casas alugadas, escondidas, resultantes de remodelações apressadas, sem mostruários interessantes (A REPUBLICA, Natal, ano 68, 6 abr.1937f., p. 02).

Na cidade, além dos tradicionais Aero Clube e Teatro Carlos Gomes, surgiram o Cassino Natal, o Círculo Militar, o Clube Hípico de Natal. Todos integravam uma “cadeia de promoções” e ofereciam sucessivas festas e bailes.

Apresentação dos novos modelos do Ford V8 no palco do Teatro Carlos Gomes. A República, 1937.

NO CENTENÁRIO DE FREI MIGUELINHO

Segundo o itinerário das comemorações, o préstito circularia pelas principais ruas da Cidade Alta, descendo em seguida pela Avenida Junqueira Ayres em direção a então Rua 12 de Maio, na qual, junto ao local onde teria nascido Frei Miguelinho, seria inaugurada uma lapide comemorativa do nascimento e da morte do homenageado. A esse evento seguirse-ia, das 4 às 8 horas da noite, no jardim da Praça Augusto Severo, então decorado e iluminado, uma retreta (significado) pelas diversas bandas de música que compunham o cortejo. Às 8 horas, no teatro Carlos Gomes, se realizaria a sessão magna do Instituto Histórico e Geográfico, em homenagem a Frei Miguelinho, seguida da excussão do “hymno a Miguelinho” (letra de H. Castriciano e música do maestro L. Smido), cantado pelas 37 moças que representavam os municípios do Estado, e por fim, uma “Apotheose”, na qual o poeta Segundo Wanderley recitaria um poema de sua autoria. Nesse ínterim, ficaria exposta “em logar devidamente preparado”, uma estola que teria pertencido ao homenageado (Rev. IGHRN N°. 1, v. IV, ano 1906; N°. 2, v. IV, ano 1906; 312-313).

Na noite desse mesmo dia 12 de Junho de 1906 é realizada ainda a sessão magna do Instituto Histórico e Geográfico, reunindo além dos membros do Instituto e do Governador do Estado, diversas autoridades e a população. No palco do então Teatro Carlos Gomes (hoje Alberto Maranhão) se dispuseram as 37 senhoritas que representavam os municípios do Estado, as cadeiras e os camarotes foram ocupados por uma numerosa platéia e desses últimos pendiam os estandartes que conduziram os grupos do préstito cívico. Depois do discurso do orador oficial do Instituto, o Dr. Pinto de Abreu, e de encerrada a sessão, foi cantado pelas senhoritas que representavam os municípios, dispostas no palco de forma a compor um grande “M”, o “Hynno Frei Miguelinho”, letra de Henrique Castriciano e música do maestro L. Smido, ao que se seguiu a declamação de uma poesia de autoria de Segundo Wanderlei.(Rev. IHGRN N°. 1, v. IV, ano 1906; N°. 2, v. IV, ano 1906).

No dia 6 do mesmo mês, confirmam a participação a Associação Comercial do Estado, representada por sua Diretoria e por uma comissão de negociantes e associados, e o Tesouro do Estado; e nesse dia também foi noticiada a chegada no dia anterior dos blocos de granito, mandados vir do município de Lages, para compor o monumento, noticiando que o trabalho de assentamento se iniciaria no dia seguinte. Merece destaque da mesma forma, as iniciativas dos integrantes do Centro Cívico Literário Frei Miguelinho, que tomaram o encargo de ornamentar as praças do então Teatro Carlos Gomes por ocasião das festas, e os ensaios realizados no mesmo teatro pelas senhoritas que no dia 12 daquele mês estariam incumbidas de cantar o hino de Frei Miguelinho, chamando-se a atenção para a pontualidade e dedicação com que diariamente os ensaios vinham sendo conduzidos, sob a direção do professor José Borrajo. (A República 05 de junho de 1917. Ano, XXIX N° 125, p.1).

As comemorações do dia 12 de junho de 1917 ainda se estendem à sessão solene do Instituto Histórico e Geográfico, realizada às sete horas, no Teatro Carlos Gomes, na qual discursou Manoel Dantas (Rev. IHGRN, vol. XV, n° 1 e 2, 1917; 94), e ao cinema público, com extensa programação, exibido na Praça André de Albuquerque (Idem;126). Contudo, mesmo tendo entre estes outros eventos elementos interessantes para nossas discussões, a extensão que vai tomando o capítulo nos obriga a suprimi-los.

NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

O teatro também era uma opção para a diversão na cidade de Natal. Na segunda metade da década de 1940 e nos anos de 50, existiam vários grupos teatrais que encenavam peças na capital potiguar, tendo como exemplos o Conjunto Teatral Potiguar, o Teatro de Estudante, o Grêmio Dramático de Natal, o Teatro Experimental de Arte e o Teatro de Cultura de Natal. O espaço principal para as encenações era o Teatro Carlos Gomes (Cf. OTHON, 1998, p. 59.). As atividades teatrais estavam ligadas às atividades intelectuais. Muitos autores dos textos teatrais eram literatos e poetas que escreviam para os principais jornais locais. Sandoval Carlos Wanderley, além de jornalista, poeta, diretor, ator teatral e fundador do Conjunto Teatral Potiguar em 1941, dirigiu a Imprensa Oficial do estado do Rio Grande do Norte, em 1931. Francisco Ivo Cavalcanti era professor, jornalista e advogado. Ele escreveu diversas peças de teatro, que foram encenadas pelo Grêmio Dramático de Natal. Como jornalista, Francisco Ivo colaborou com A República, Diário de Natal, A Razão, O Democrata e o Jornal do Comércio.

Nas primeiras décadas do século XX, o bairro da Ribeira, como citado anteriormente, não era apenas o centro comercial da cidade, era também o centro social. Este abrigou os principais espaços de lazer e de entretenimento da Cidade de Natal, possuía o teatro, cafés, bares, o hotel mais luxuoso da cidade (com seus salões onde se realizaram acontecimentos memoráveis), o Cinema Polytheama, dentre outros. O Grande Hotel fechou suas portas ainda nos anos 1940, e assim também ficaram para trás na história do bairro as festas memoráveis, como a do Réveillon de 1940-41, realizada no Teatro Carlos Gomes e descrita no jornal A República como:

TEATRO CARLOS GOMES
Revestiu-se de brilhantismo o baile de ano bom Conforme noticiamos, realizou na noite do dia 31 de dezembro findo o baile do Teatro Carlos Gomes, promovido pelo seu diretor, prof. Alcides Cico, prof. Ivanaldo Lopes e Sr. Meira Lima. Essa elegante reunião revestiu-se de brilhantismo e distinção, com o comparecimento de numerosas famílias, senhoritas e rapazes de nossa sociedade.
Graças sobretudo do esforço do prof. Alcides Cico, o Teatro apresentou um aspecto atraente, reinando grande animação e cordialidade. Houve serviço de buffet, que esteve desempenhando a contento geral (A República, Natal, 1 jan. 1941, grifos nossos).

Eventos como o acima descrito deixaram de haver no bairro da Ribeira, a própria casa de espetáculos entraria em um “estado deplorável”, como afirmará o então prefeito Claudionor de Andrade na citação abaixo:

Ontem, pela manhã, o prefeito Claudionor de Andrade, em prosseguimento às suas visitas aos próprios municipais e obras nos diversos bairros da capital, acompanhado pelo Sr. Fernando Luiz chefe do gabinete, visitou o Teatro Carlos Gomes, realizando, ali, uma inspeção geral, na qual constatou o estado deplorável em que se encontram as suas dependências, tendo contribuído, em parte para isso, a cessão daquele local para a Feira de amostras, ultimamente realizada nesta capital. O prefeito da Capital, depois de observar as necessidades inadiáveis daquela casa de arte, prometeu que, apesar da exiguidade das verbas, era seu propósito autorizar, lançando mãos de qualquer meio, uma imediata reparação no Teatro, afim de que as Companhias o encontrem capaz de prestar-se aos misteres a que se destina (A República, Natal, 4 abr. 1950).

Nos primeiros anos de funcionamento, o Grande Hotel estava sempre lotado e era considerado um dos centros da vida social natalense, assim como o teatro Carlos Gomes, que recebeu inúmeras festas e atrações, colocando a Ribeira no centro das atrações da capital potiguar.

O bairro da Ribeira se consolidou como centro urbano, por esse motivo abrigou os signos da modernidade, tais como o Teatro Carlos Gomes, o Cine Polytheama, o Grupo Escolar Augusto Severo, a Escola Doméstica, a Estação Ferroviária, dentre outros.

Mapa do Bairro da Ribeira – Pontos de referências do ano 1939. Fonte: SEMURB/PMN. Nota: Elaboração do autor sobre base atual da cidade.

A Liga de Defesa Passiva de Natal era a responsável pela manutenção da atenção e controle da tensão que se espalhava entre os moradores, pois “o êxito na luta depend[ia] fundamentalmente do estado psicológico da população civil, pois ela representa também uma linha de combate” (FUNDADA ontem a Liga de Defesa Passiva de Natal. A República, Natal, p. 8, 6 set. 1942, p.8). Uma das primeiras iniciativas do Governo Federal foi cumprir a portaria 271 do Ministério da Educação e Saúde que, entre outras, determinava a organização de cursos de defesa para professores das escolas públicas. Em Natal, os cursos foram ministrados no Teatro Carlos Gomes por militares do Exército e intelectuais norte-riograndenses, entre eles Luis da Câmara Cascudo, e seu objetivo era formar “Alertadores” da Defesa do País.

Registros de algumas reportagens da época:

Título: Cordialidade inter-americana
Resumo da reportagem: Os nossos amigos americanos do USO vão levar a efeito, hoje à noite, no teatro Carlos Gomes o show que organizaram para brindar os militares do destacamento de Natal. É um belo e autêntico gesto de gentileza e camaradagem esse, e como tal merece a simpatia de todos nós. (Diário de Natal, Nº 815, p. 2, 30/8/1944.).

Título: Buddy e Fontomas, sabado, no teatro Carlos Gomes Resumo da reportagem: O movimento artístico de Natal aumentou. Governo e dos particulares promovem a vinda de artistas de renome nacional e internacional, brasileiros e estrangeiros, do rádio e do teatro. (Diário de Natal, Nº 845, p. sem numeração, 04/10/1944.)

Título: O U.S.O.: Show número 5 se apresentará nesta capital
Resumo da reportagem: No sábado próximo se exibirá, no teatro Carlos Gomes, o Show número 5 do USO, composto por artistas do Cassino da Urca. (Diário de Natal, Nº 912, p. 8, 28/12/1944.)

O movimento artistico de Natal, após o advento da guerra que lhe trouxe um rápido progresso, para compensar a bravura que nosso povo enfrentou as ameaças nazistas, é de tal modo animador que não tem faltado o entusiasmo do governo e dos particulares para promover a vinda a nossa cidade do que ha de melhor no nosso país no cenario do radio e do teatro. Artistas de renome nacional e internacional, brasileiros e estrangeiros, tem atuado nesta cidade numa sequencia admiravel, já diretamente para o publico, como sobretudo, para nossas forças armadas e os da Nações Unidas aqui aquarteladas. (Diário de Natal, n. 845, p. sem numeração, 4/10/1944. Textos ipsis litteris.).

Maria Eunice de Araújo Sá, em entrevista concedida também ressalta os bons momentos vividos durante o período de seu internato na ED de 1944 a 1945. Recorda que era um sistema de internato em que as discentes tinham que apresentar muita organização no seu dia a dia. Nessas recordações da vida estudantil ressaltou que:

Durante o período do internato saia para ambientes reservados, onde não houvesse muita presença do sexo masculino. A diretora na época, Sra. Noilde Ramalho era muito energética, rigorosa e disciplinada no funcionamento da escola, nos levava para fazer um lanche em lugares bem aceitos pela sociedade, eram passeios para a gente conhecer melhor a cidade e aprender a não freqüentar um restaurante sozinha, porque essa atitude não era bem vista pela sociedade”, estudávamos perto do teatro Carlos Gomes e não podíamos ir, mas agradeço a escola pelo que aprendi. (ARAÚJO SÁ, 2006).

Outro destaque dado pelo currículo da Escola eram os exames finais de curso que se tornavam grandes rituais festivos, pois além da participação dos familiares e pessoas íntimas da família, eram convidadas autoridades políticas e a imprensa local. Nos jornais e folhetins da cidade eram publicadas notícias daquela comemoração, além dos nomes das alunas concluintes com os respectivos resultados dos exames escritos (esses exames constavam de uma dissertação sobre determinado assunto estudado, onde a aluna se expunha publicamente à leitura, geralmente realizada no teatro da cidade, o Carlos Gomes, atual Alberto Maranhão).

No dia 8 de maio de 1945, da Times Square em Nova York à Praça Vermelha em Moscou, multidões comemoravam a vitória dos aliados na II Guerra Mundial. Nesse mesmo dia em Natal, foi programada uma solenidade à noite no Teatro Carlos Gomes. Alvamar Furtado de Mendonça, então recém-formado em direito, foi convidado para pronunciar um discurso no Dia da Vitória. Ele se vestiu bem e caprichou na redação do discurso. Na hora em que olhou para a plateia, teve um choque: estranhamente, o teatro estava quase vazio. Os organizadores do evento, temendo fracasso na solenidade, saíram pelo bairro da Ribeira e recrutaram uma legião de transeuntes – mendigos, boêmios, prostitutas – para ocupar pelo menos uma parte dos 600 lugares disponíveis. Alvamar enfim falou, mas um tom melancólico já tomara conta do teatro, das Ruas, das pessoas. A cidade parecia estar de luto. Por que a guerra havia acabado. Assim foi a II Guerra em Natal: um tempo de emoções intempestivas, de alegrias e tristezas fora de hora e de contexto.

NO CENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA

O Teatro Carlos Gomes estaria pronto para responder às necessidades das elites. Nos seus palcos passaram muitas trupes, companhias artísticas, ocorreram exibições de circo e até de fitas de cinema. No início de 1922, dez anos após a reabertura da casa, o artista Renné Florigny lá apresentou-se com sucesso:

O Theatro Carlos Gomes teve na noite de sabbado ultimo uma assistência escolhida. Lá estavam o governador do Estado e as pessoas mais representativas da nossa sociedade. Alguns logares vazios marcavam a desconfiança de mais uma decepção no numero de tantas outras infligidas ao publico por artistas vulgares, aqui apresentado pelo reclamo desonesto como notabilidade. (RENNÉE Florigny. A República, Natal, 31 jan. 1922.)

A descrição do jornal nos permite perceber que o teatro Carlos Gomes tinha de recuperar a confiança do público pois, como se vê na nota acima, o Teatro recebia também apresentações que desagradavam pela sua suposta “vulgaridade”, tornando a ida ao teatro uma experiência desprazerosa para muitos natalenses. O teatro que deveria civilizar, também poderia corromper. A ameaça da corrupção era sentida pelos contemporâneos quando esses se deparavam com os chamados “artistas vulgares”, muitos deles vindos do mundo dos circos de variedades. Os anúncios dos espetáculos, impressos em letras grandes e muitas vezes acompanhado de fotos e gravuras, agiam rápido, enchendo o público de curiosidade, atraindo-o a cada exibição. Para o autor do artigo, os reclames agiam de má-fé, encaminhando o público para o mundo das vulgaridades. Para a felicidade do jornalista, não foi essa a realidade encontrada pelas damas e cavalheiros que se dirigiram ao teatro naquele sábado de janeiro de 1922.

A presença dos mais estimados membros da sociedade e o sucesso da apresentação do artista era sinal de que apesar dos maus usos, ainda poder-se-ia esperar que o teatro exercesse a sua maior função: a de educar os sentidos artísticos e sociais dos indivíduos. O teatro e as artes em geral assumiram um condecorado papel na cultura burguesa européia de educar as sensibilidades, moldar os gostos e conter os instintos. Tendo em vista a valorosa função exercida pelas artes, na conhecida Era Vitoriana, parece obvio a atenção dada a elas nas escolas e na educação privada de moças e rapazes. O sentido “apurado” para arte mais do que uma questão de gosto nato era um mérito da educação. (GAY, Peter . O Século de Schnitzler: a formação da cultura da classe média: 1815-1914. São Paulo: Companhia das Letras, 2002; GAY, Peter. A experiência burguesa da rainha Vitória a Freud: educação dos sentidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.).

APRESENTAÇÕES

A partir desse momento as atividades teatrais concentravam-se, com intensidade artística, no “Carlos Gomes”, apesar de não ter sido ocupado pelos amadores. As Sociedades existentes em Natal, representavam em teatrinhos improvisados. Um dos fatos mais marcantes na Dramaturgia Norte-rio-grandense, ocorreu no dia 15 de fevereiro de 1906, quando a Companhia Dramática Cardozo da Motta, resolveu representou o drama “Amor e Ciúme”, um dos mais apreciados e bem escritos trabalhos de Segundo Wanderley, com a talentosa Clementina dos Santos, no papel de Ester e os senhores Couto e Gonçalves nas partes do Dr. Oscar e Renato, respetivamente. Em 15 de agosto de 1907, ocorreu um dos maiores acontecimentos da época: a encenação da primeira revista teatral de costumes locais, ‘Natal em camisa’, de Segundo Wanderley, cóni músicas de José Borrajo, pela Companhia Germano Alves, onde Apolônia Pinto era a primeira atriz, com músicas da autoria do professor J. B Borrajo e o cenário projetado e modelado por Herculano Ramos que, espontaneamente colocou-se à disposição e serviço do espetáculo, “arranjando” lindos panoramas dos mais belos recantos da cidade.

O jornal A República, do dia 10 de agosto de 1907, publicou uma nota, talvez da autoria do Dr. Manoel Dantas, falando sobre o enredo da peça:

Falta-nos espaço para como desejamos dar uma notícia detalha e desenvolvida sobre o enredo da peça. Os que nos acusarem desta falta procurem orientar-se indo ao ‘Carlos Gomes’ nas muitas representações com que a Empresa preparará o próximo jubileu da interessante revista que já hoje podemos dizer, entrou nos hábitos da terra (PIRES. Meira. Historia do Teatro Alberto Maranhão, p. 60).

No ano de 1921, não encontramos referências quanto as realizações teatrais no Teatro Carlos Gomes, apenas no dia 03 de janeiro de 1922, durante a Festa de Arte em beneficio das obras da igreja do Alecrim, foi apresentada a fantasia, em um ato, “No Reino das Fadas”, de Stela Wanderley, com Helena Gurgel, Dagmar Chaves, Consuelo Wanderley e Etelvina Emerenciano; em 03 de maio, em beneficio do Instituto de Proteção à Infância, um grupo de crianças encenou “A Doentinha”, sainete em versos, de Ezequiel Wanderley, e no dia 23 de julho, os atores Teixeira Bastos e Carlos Ferreira, da Companhia Loira Lombazzi, em promoção de suas festas artísticas, encenaram “Pelas Grades…”, de Jorge Fernandes.

Como não existe arquivo no Teatro Carlos Gomes, no período de 1928 a 1931, apenas no dia 03 de dezembro de 1932, encontramos a informação de que o Conjunto Alma do Norte, em sua festa de despedida, levou à cena “Que loucura, Leonor”, um vaudeville de Filgueira Filho e no dia 22, com o espetáculo promovido pelo teatrólogo Sandoval Wanderley, foram encerradas as atividades do Teatro no ano de 1932.

O Teatro Carlos Gomes, apesar de cenários, camarins, botequim, cadeiras confortáveis, não conseguiu atrair as companhias. Afirma Cascudo que o Teatro funcionava sempre mas com a orquestra comandada por Smido, festivais da terra, recita ti vos, apresentações de mágicos. De 1905 a 1907 há um cançonetista assíduo, o português J. Paulo, também representando comédias que pareciam entremezes e dramas. Mas era um dos favoritos pela sua graça, elegância, naturalidade. Em 1906 Cardoso da Mota; em 1907 Germano Alves; em 1908 Cristiano de Sousa; em 1909 Ângela Pinto; em 1910 Francisco Santos fizeram assunto para a cidade. De 1912 em diante Natal entra na linha das cidades visitadas pelos líricos e dramáticos. A Pablo López, julho-agosto de 1912, inaugura o Carlos Gomes e leva a primeira ópera para ouvidos e olhos natalenses, ‘Cavaleira Rusticana de Pietro Mascagni, a 23 de julho. Cantam ‘Casta Suzana \ ‘Conde de Luxemburgo’, ‘Sonho de Valsa, ”Viúva Alegre’ e as óperas ‘La Boheme, ‘Traviata, etc. (Ibid., p; 203.).

Neste começo de século, a vida artística da Cidade do Natal era bastante movimenta e “o Carlos Gomes ouve violonistas, pianistas, cantoras, folcloristas anedóticos ou convencionais, nomes grandes, médios e pequenos do cartaz carioca ” (Ibid.. p. 203).

Na comemoração do 4o aniversário de sua fundação, encenou no Teatro Carlos Gomes “O Degenerado”, drama em 03 atos, do professor Ivo Filho e fez circular o primeiro número de “O Teatro”, órgão mensal, com variada colaboração, sobrevivendo até o ano de 1920.

Ignorando-se as datas de nascimento e de falecimento de Joaquim Cipião, encontramos a informação de que foi o primeiro diretor Ho Teatro Carlos Gomes e Membro da Orquestra do mesmo Teatro, além de musicar, escreveu e encenou várias peças, dentre as quais destacamos:
“Canela de Ferro”, revista, 1916;
“Mundo, Diabo e Carne” comédia, 1917;
“Jerimum? …Não há!, 1917;
“Pronto”.

A história do Carlos Gomes precisa ser alinhavada (O teatrólogo Meira Pires publicou, em 1980, a “História do Teatro Alberto Maranhão”.). O diabo é não aparecer o biografo. Têm fatos notáveis, coisas impagáveis. O festival do saudoso poeta Paulo Benevides (Paulo Emílio de Sá e Benevides, poeta lírico e humorista, publicou “Meus Versos”; boêmio, funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil.), que se imortalizou com o notável soneto “O Jumento”. Neste festival babilônico, tomaram parte todos os boêmios de Natal, desde os declamadores, passando pelos cantores “ponta de rama”, até os mais notáveis seresteiros da cidade, realizaram um dos festivais mais divertidos do mundo. No Carlos Gomes têm se levado a efeito festivais tão ruins, charoposos até a alma, que por isto mesmo divertem mais do que as verdadeiras noitadas de arte.

Milton Siqueira, vende antecipadamente toda a lotação e no dia vai para a porta do Teatro e se tem público, ele improvisa um espetáculo com a participação da assistência, modernamente, dando gargalhadas fenomenais, mangando da vida, dedicando versos aos políticos e às senhoras formosas da terra. Milton Homem de Siqueira, poeta com vários livros publicados, conhecido na cidade pela sua forma excêntrica de se vestir e se portar. Djalma, no já citado poema “Evocação de Natal”, quando se refere ao “lirismo de teus poetas:” relembra-o como “ … o alucinado Milton Siqueira.”

O capítulo dos conferencistas é longo, trágico e gaiato. Certa vez um intelectual chegado dos “cafundós do Judas”, anunciou uma conferência. Nesta época eu trabalhava na redação da “A República” e quando, à noite, terminado o trabalho, dei um pulo até o Teatro. Se arrependimento matasse, tenho certeza que não estava vivo. Não houve público para o conferencista, mas o homenzinho não queria perder o seu tempo, mesmo com o sacrifício do tempo dos outros. Arrebanhou meia dúzia de “gatos pingados” que por curiosidade aparecera, juntou-os num canto de parede e “mandou mecha”, lendo uma história rocambolesca, inflamado como se estivesse falando para um vastíssimo auditório. A madrugada já ia longe quando nos revoltamos e furiosamente batemos palmas, obrigando o conferencista a encerrar a sua conversa sem fim. O poeta Targino também deu um festival divertido e foi apresentado como o “poeta maluco da Paraíba”.

O maestro Alcides Cicco, incapaz de fazer mal a uma mosca, bonacheirão, cordialíssimo, é o diretor do Teatro e tem duas virtudes: come como um gigante e sabe preparar uma macarronada “do outro mundo”. Constantemente Alcides aparece na Tavares de Lira e sem querer e muitas vezes sem saber, é o centro de discussões furiosas. A rivalidade entre os grupos amadoristas é intensa, surda e constante. Pela frente todos se dão bem. Mas este é um mal, um vírus do próprio ambiente teatral. No Rio, na China, em Paris, na “pedralascada”, o passa-tempo dos astros e das “astras” é criticar “cortar” a vida do concorrente. Alcides Brunetti Cicco, cantor lírico e professor de canto, participou de curso de canto no Rio de Janeiro; fundou e manteve diversos cursos de canto em Natal; diretor do Teatro Carlos Gomes entre 1926 a 1954.

Meira Pires, vivo, inteligente, dinâmico, assimilou no Rio de Janeiro não somente o lado bom da vida teatral e voltou com uma volubilidade terrível. Inácio Gambarra Meira Pires, ator e autor teatral, escritor, empreendedor de inúmeros eventos teatrais, Diretor do Serviço Nacional de Teatro, diretor do Teatro Carlos Gomes a partir de 1954.

Sandoval Wanderley é uma espécie de pagé, o tuchaua do amadorismo natalense, renitente, pé de boi, malhando em ferro frio, sem desanimar. Quando chega no Café Globo a roda vai pouco a pouco se formando e quando acabam de discutir e resolver os mais difíceis problemas relacionados com o teatro, no plano municipal, estadual, nacional e às vezes até internacional, saem para a Dr. Barata. Então o espetáculo começa, representação “braba” no “duro”. Sandoval Carlos Wanderley, político, escritor, jornalista, ator e autor teatral, fundou o Conjunto Teatral Potiguar (1941) e o Teatro de Madores de Natal (1951), que encenaram muitas peças de sua autoria.

Paulo Teixeira fica contracenando, gestos meditados e se alguém o chama ele não volta somente à cabeça: vira o corpo lentamente, como se estivesse no palco. Paulo Teixeira, funcionário da Prefeitura Municipal de Natal.

Nilo Siqueira, elegante, com ares de D. Juan, “come uma corda danada” que é o melhor galã dos nossos palcos. Nilo Siqueira, advogado, mudou de residência para João Pessoa.

Zé Aguinaldo (Zé Aguinaldo) é outro maníaco, dando opinião sobre peças, repetindo passagens, dialogando, relembrando a mocidade…

Urbano Brandão (funcionário do Banco do Brasil, ator do teatro amador) quando aparece, esquece até de doutrinar sobre o integralismo funcionário do Banco do Brasil, ator do teatro amador absorvendo-se integralmente.

Hiram Pereira está quase doido. Diz que não nasceu para trabalhar no comércio, etc., etc., etc., e que a sua vocação são as gambiarras. Já organizou meia dúzia de conjuntos e foi ensaiador de outros tantos. Agora vai largar as amarras, formar uma companhia. Sim, senhores, uma autêntica companhia! Hiram Pereira de Lima, jornalista, ator, fundador do Teatro de Comediantes. Eleito deputado federal em 1946, não empossado. Exerceu altos cargos na Prefeitura do Recife. Na clandestinidade a partir de 1964, preso e desaparecido. A culpa disto é de Pozzoli, outro maníaco que já percorreu o Brasil inteiro. A coisa parece que vai dar certo. A companhia compor-se-á de cinco elementos: Hiram e senhora e Pozzoli e senhora e filho. Hiram tem “bossa” para uma empreitada desta.

Maria Célia, locutora, declamadora, pianista e artista. Maria Célia, poeta, pianista, compositora, locutora, atriz, radiatriz pioneira da Rádio Educadora de Natal (como Célia Pereira) e, depois, da Rádio Jornal do Comércio do Recife, casada com Hiram Pereira.

Pozzoli é um cômico gaiato, divertido. José Wanderley Pozzoli, pernambucano, ator profissional de teatro desde 1927. Casou-se com Marilita, fixando residência em Natal, graças ao apoio do comerciante Álvaro Braz d’Araújo Lima (Limarujo), irmão de Marilita. De Natal partia a Companhia Pozzoli, composta de José, Marilita e os filhos Og e Jomeri, para apresentar-se em diversos Estados do País.

Marilita Pozzoli é um nome nacional e o filho do casal tem de seguir a regra de filho de gato é gatinho. Hiram e Pozzoli passam horas inteiras combinando detalhes, tomando um cafezinho, enquanto colocam os pontos nos ii. Marilita (Araújo Lima) Pozzoli destacou-se com declamadora. Poeta, publicou diversos livros. O filho Jomeri responsabilizava-se pela parte musical da Companhia que encenou, entre outras peças “Os Transviados” (Amaral Gurgel) e “Deus lhe pague” (Joraci Camargo). Og Pozzoli é um dos filhos do casal. Economista e empresário em São Paulo, é conhecido internacionalmente pela sua coleção de automóveis antigos. Fazia, com o pai, a parte humorística das encenações da Companhia. Jomeri trabalhou na TV Globo. Aposentado, dedica-se ainda ao trabalho de dublagem para cinema e vídeo. Ambos vivem em São Paulo.

SEDE DA CÂMARA MUNICIPAL DE NATAL

Série trajetória itinerante da Câmara Municipal de Natal (7/12)

#fatosefotosdenatalantiga

Não é de hoje o vínculo da Casa do Povo com a cultura. A publicação História do Teatro Alberto Maranhão (Natal, Fundação José Augusto, 1980), do teatrólogo e escritor Inácio Meira Pires, dá conta, à página 393: “Mês de julho – Às 15 horas do dia 1°, instalou-se no Salão Nobre a Câmara Municipal de Natal que nele permaneceu por um longo período”.

Ao longo de sua história a Câmara Municipal de Natal funcionou em diversos locais da cidade. Há que se notar o seu constante deslocamento físico, pois ela não tem uma sede própria desde os primórdios administrativos da cidade.

Foto e Fonte: 1948 – Teatro Carlos Gomes (atual Alberto Maranhão). Fonte: Memorial da Câmara Municipal de Natal. Foto Luiz Grey.

REFORMAS

A Fundação José Augusto (para quem o Governo do Estado passou a administração do teatro), iniciou uma nova reforma em junho de 1988, sob supervisão técnica da Coordenadoria de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado e recursos da Fundação Banco do Brasil. A reforma incluiu camarins, salão nobre, jardim, plateia e palco, buscando restaurá-lo sob supervisão técnica da Coordenadoria do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado.

Em 2004, a ocasião do seu centenário, mais uma reforma foi feita focada na acessibilidade, revitalização e climatização do espaço.

Em setembro de 2005 os restos mortais de Alberto Maranhão, que faleceu em 1 de fevereiro de 1944 e sepultado em Paraty, foram trazidos do Rio de Janeiro para o Rio Grande do Norte, e depositados no memorial localizado no Teatro.

No ano de 2015, o Teatro foi fechado para sua primeira grande restauração, no governo de Robinson Faria (PSD). As obras, no entanto, só começariam três anos depois, em 2018. Ela foi continuada pela gestão de Fátima Bezerra (PT), que concluiu a restauração no ano de 2021.

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ARAÚJO SÁ, Maria Eunice de. Sobre o internato da Escola Doméstica de Natal. (Entrevista concedida a Andréa Gabriel F. Rodrigues em 12 jul. de 2006.)

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ARRAIS, Raimundo; ANDRADE, Alenuska; MARINHO, Márcia. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal: EDUFRN, 2008.

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Memória minha comunidade: Alecrim / Carmen M. O. Alveal, Raimundo P. A. Arrais, Luciano F. D. Capistrano, Gabriela F. de Siqueira, Gustavo G. de L. Silva e Thaiany S. Silva – Natal: SEMURB, 2011.

Natal: história, cultura e turismo / Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo. – Natal: DIPE – SEMURB, 2008.

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Natal também civiliza-se: sociabilidade, lazer e esporte na Belle Époque Natalense (1900-1930) / Márcia Maria Fonseca Marinho. – Natal, RN, 2008.

Natal, outra cidade! [recurso eletrônico] : o papel da Intendência Municipal no desenvolvimento de uma nova ordem urbana na cidade de Natal (1904-1929) / Renato Marinho Brandão Santos. – Natal, RN : EDUFRN, 2018.

Natal ontem e hoje / Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo. – Natal (RN): Departamento de Informação Pesquisa e Estatística, 2006.

Reportagens de Djalma Maranhão publicadas no DIÁRIO DE NATAL, no período de 20 de março a 19 de junho de 1949. A reportagem da semana
ESQUINA DA TAVARES DE LIRA COM A DR. BARATA, CENTRO CONVERGENTE E IRRADIADOR DA VIDA NORTE-RIOGRANDENSE.

Roseira brava: pós-romantismo e modernidade na poética de Palmyra Wanderley / Marília Gonçalves Borges Silveira. – Natal, RN, 2016.

O alvissareiro : a Natal antiga e a nova Natal nas crônicas cascudianas de 1940-1950 / Carlos Magno dos Santos Souto. — Recife: O Autor, 2009.

O BAIRRO DA RIBEIRA COMO UM PALIMPSESTO: dinâmicas urbanas na Cidade de Natal (1920-1960) / Anna Gabriella de Souza Cordeiro. – Natal-RN, Julho de 2012.

O nosso maestro: biografia de Waldemar de Almeida / Claudio Galvão. – Natal: EDUFRN, 2019.

Reflexões Sobre história local e produção de material didático [recurso eletrônico] / Carmen Margarida Oliveira Alveal, José Evangelista Fagundes, Raimundo Nonato Araújo da Rocha (org.). – Natal: EDUFRN, 2017.

Um artífice mineiro pelo país: formação, trajetória e produção do arquiteto Herculano Ramos em Natal / DÉBORA YOUCHOUBEL PEREIRA DE ARAÚJO LUNA. – NATAL/RN, 2016.

Um espaço pioneiro de modernidade educacional: Grupo Escolar “Augusto Severo” – Natal/RN (1908-13). Ana Zélia Maria Moreira. – Natal, RN, 2005.

UM SÉCULO DE CONTRIBUIÇÕES PARA A HISTÓRIA DO TEATRO NA CIDADE DO NATAL: 1840-1940 / ÂNGELA MARIA DE CARVALHO MELO. – NATAL, 1999.

Loja Virtual do Fatos e Fotos de Natal Antiga

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O Fatos e Fotos de Natal Antiga é uma empresa de direito privado dedicada ao desenvolvimento da pesquisa e a divulgação histórica da Cidade de Natal. Para tanto é mantida através de seus sócios apoiadores/assinantes seja pelo pagamento de anuidades, pela compra de seus produtos vendidos em sua loja virtual ou serviços na realização de eventos. Temos como diferencial o contato e a utilização das mais diversas referências como fontes de pesquisa, sejam elas historiadores, escritores e professores, bem como pessoas comuns com suas histórias de vida, com as suas respectivas publicações e registros orais. Diante da diversidade de assuntos no mais restrito compromisso com os fatos históricos conforme se apresentam em pouco mais de um ano conquistamos mais de 26 mil seguidores em nossas redes sociais o que atesta nossa seriedade, compromisso e zelo com o conteúdo divulgado e com o nosso público.

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