Omar Grant O’Grady

Esse senso prático e racionalidade norte-americanos, essa capacidade de iniciativa típica dos yankees, esse maravilhoso desejo pelo progresso, qualidades que causavam admiração e inveja em alguns membros da elite local, seriam apropriados por Omar O’Grady em sua gestão. O engenheiro, de origem anglo-saxônica (tinha ascendentes canadenses, além de ter parentesco também com irlandeses, formado nos Estados Unidos, traria a racionalidade americana para governar a capital potiguar, racionalidade que se fazia sentir no novo regulamento dos departamentos da Intendência e no Plano Geral de Sistematização de Natal, para nos preferimos àquelas que foram, certamente, as mais importantes ações de seu governo.

ORIGENS E FORMAÇÃO

O engenheiro Omar Grant O’Grady nasceu em Natal a 18 de Fevereiro de 1894, falecendo na cidade do Rio de Janeiro, aos 91 anos, em 31-10-1985. Filho do canadense, de origem irlandesa, Alexandre James O’Grady e da norte-rio-grandense Estefânia Alzira Moreira O’Grady, viveu e estudou na cidade até o início da década de 1910, quando, possivelmente entre 1913 ou 1914, embarcou para Chicago, nos Estados Unidos, onde cursaria Engenharia Civil pelo então Armour Institute of Technology – AIT (atualmente Illinois Institute of Technology – IIT). Formando-se em 1917, com um projeto de uma represa e uma hidrelétrica (“Design of a Hollow Dam and Hydro-Electric Plant”) para French’s Mill, em New York, retornou ao Brasil para trabalhar na IFOCS, seção RN, entre 1918 e 1923, quando foi contratado pela inglesa Norton Griffth and Company para superintender a construção da barragem do Acarape, no Ceará (informações baseadas nas entrevistas com os srs. Paulo O’Grady (em 2001), Osório Dantas e Edgard Dantas (em 2000), no The Cycle Class (1918) do AIT, enviadas por Catherine Bruck (em 2000), e em extratos d’A Repúblic).

Nos jornais, as primeiras informações que temos sobre Omar O’Grady fazem referência ao aluno que, então, prestava exames para o Atheneu Rio Grandense, principal instituição de ensino do Rio Grande do Norte no início do século XX, formou e reuniu membros da elite local onde cursaram o secundário, inclusive personagens que fizeram parte da Intendência à época em que O’Grady a presidia. O jovem O’Grady será aprovado plenamente nos testes realizados para essa instituição, no ano de 1905. O detalhe era que os exames feitos pelo estudante prestes a completar onze anos eram destinados aos que desejavam cursar direito (A REPUBLICA, Natal, 21 fev. 1905; 22 fev. 1905.).

Do mesmo ano é a primeira nota de aniversário de Omar O’Grady publicada n’A Republica. Nessa época, Omar O’Grady era lembrado como o “filho do sr. Coronel Alexandre James O’Grady (Id., Natal, 17 fev. 1905.)”, o velho O’Grady, como denominará Cascudo, membro do segundo Conselho de Intendência (1896-1898), republicano incorrigível, honesto, íntegro, amante dos maiores valores éticos e morais, nas palavras desse estudioso (CASCUDO, Luís da Camara. O Livro das Velhas Figuras. Vol. III, p. 90). E é assim também, como filho do “velho O’Grady” que o jovem O’Grady será lembrado em outra nota de aniversário de 1909, ano em que obtém o primeiro prêmio como aluno do Atheneu Rio Grandense (Ver, respectivamente: A REPUBLICA, Natal, 17 fev. 1909; 05 maio 1909.).

Demorará certo tempo para que o personagem de que ora tratamos comece a ser citado pelos seus feitos. Em 1919, uma matéria de destaque trata do jovem engenheiro Omar O’Grady que, recém-formado no curso de engenharia civil na Universidade de Chicago, viera visitar a redação d’A Republica. O texto da matéria ressalta que O’Grady, desde tenra idade, mostrava inteligência e competência, tendo sido laureado no Atheneu. Na América, conseguira aperfeiçoar os seus dotes, sem deixar, de maneira alguma, conforme o referido texto, de cultuar a terra natal, ao realizar conferências públicas em Chicago sobre a sua cidade. A matéria ressalta ainda que na visita feita pelo engenheiro, o jovem discutiu com os redatores d’A Republica, entre outras questões, sobre as diversas possibilidades de intercâmbio entre o Brasil e os Estados Unidos. Por fi m, mais elogios a esse personagem, brilhante moço que honrou o nome do Rio Grande do Norte em terra estrangeira (A REPUBLICA, Natal, 22 abr. 1919.).

Em 1923, uma nota breve nos informa algo sobre a atuação profissional desse engenheiro. Consta, na dita nota, que O’Grady superintendia a “construcção do grande açude Acauã, uma das grandes obras da Inspectoria de Seccas” (IFOCS – Inspetoria Federal de Obras contra as secas). Regressando a Natal, tendo partido da capital cearense pelo vapor Iragybe, “o jovem e distincto conterrâneo (Id., Natal, 29 dez. 1923.)” hospedarase, juntamente com Izabel Dantas, sua primeira esposa, na casa de seu sogro, o sr. Manoel Dantas, onde vinha sendo muito cumprimentado.

Izabel Dantas faleceu em 1925. Sua morte, conta-nos o padre Jorge O’Grady, causou grande pesar para Omar O’Grady. Com uma filha para criar, segundo seu sobrinho, quem melhor poderia ajudá-lo em tal tarefa, senão a cunhada? Com esse pensamento, segundo Jorge O’Grady, Omar casou-se com Leonor seis meses após a morte de Izabel. Para além do exposto, certamente, era significativo para O’Grady a manutenção dos laços com a família Dantas (Sobre os seus matrimônios, ver: PAIVA, Jorge O’Grady de. Nos caminhos das letras e das ciências, p. 250-251).

Com o falecimento do seu sogro, Manoel Dantas, em 15 de junho de 1924 – que ocupava então o cargo de presidente da intendência municipal desde 01 de maio desse mesmo ano por indicação do Partido Republicano Federal -, Omar O’Grady, engenheiro educado nos Estados Unidos, de onde trazia o seu cabedal de conhecimentos e a influência da iniciativa realizadora e pragmática, como os jornais compraziam-se em informar, passou a ser o nome mais lembrado para assumir o cargo vago (Cf. “um engenheiro de valor – Dr. Omar O’Grady e a sua capacidade de trabalho”, A República, Natal, n.198, p.01, 31 ago. 1924).

Se a formação norte-americana dava mais credibilidade à indicação de O’Grady como presidente da intendência e constitui-se numa influência fundamental para discutir a sua administração e o novo “projeto” modernizador das elites que se articulou na segunda metade dos anos 1920, pode-se afirmar que os vínculos estabelecidos com o grupo dominante de então lhe deram a legitimidade necessária para que assumisse o cargo. Casado com Isabel Dantas, primogênita de Manoel Dantas, adentrava assim na trama de relações familiares do grupo político e econômico dominante (Manoel Dantas, assim como Juvenal Lamartine, casou-se com uma das filhas do Cel. Silvino Bezerra, considerado o patriarca da chamada “oligarquia do Seridó”; eram, portanto, concunhados e tios de José Augusto (Cf. Araújo, M., 1998; Souza, 1989).) ademais, seu pai, Alexander O’Grady, estava, desde o final do século XIX, estabelecido como construtor em Natal, onde exercera o cargo de intendente no triênio 1896-1898.

7/8/1927 – “Omar O’Grady ante praias/ natalenses”. Fonte: Acervo IEB/USP (606 – 16/D/35)

LIDERANÇA INSPIRADORA PATERNA

Não foram poucos os descontentes com os caminhos tomados pelo recém instituído regime republicano capitaneado a mão de ferro por Pedro Velho. Alexandre James O’Grady, pai de Omar O’Grady, foi um dos idealistas que se desencantou com a República potiguar, marcada pelos acordos, pelos conchavos, sob a liderança do pragmático Pedro Velho. Queria uma República libertadora, marcada pela ordem, pela moral, pela decência e pelo civismo (Sobre o perfil de Alexandre O’Grady, ver CASCUDO, Luís da Câmara. O livro das Velhas Figuras, v. 3, p. 90.). Em 1905, seu nome é visto por nós ligado ao partido de oposição. Não foi o único a se desencantar.

No Partido Republicano Constitucionalista, chefiado à época por Elias Souto, como vemos em ata desse partido, publicada no jornal Diario do Natal (DIARIO DO NATAL, Natal, 16 fev. 1905), continha personagens que chegaram a pertencer à Intendência e compuseram, no início do regime republicano, as fileiras do Partido Republicano Federal no Rio Grande do Norte: Pedro Avelino, Angelo Roselli, Alexandre James O’Grady, Augusto Leite e Antonio Joaquim Carvalho. São conhecidas as causas das mudanças de rumo de alguns desses personagens, como é o caso de Alexandre O’Grady, que, após pertencer à Intendência, entre 1896 e 1898, não ocupou mais cargos políticos, descontente que ficou com os descaminhos da república no Rio Grande do Norte, sob o comando de Pedro Velho (Ver CASCUDO, Luís da Câmara. O livro das velhas figuras. v. 3, p. 90.).

Grande comerciante e proprietário local, outros fatores que levaram o coronel Joaquim Manoel a presidir cinco Conselhos de Intendência da capital
potiguar. Joaquim Manoel contraiu primeiras núpcias com Justina Brandão, irmã de Alexandre O’Grady, republicano histórico que fez parte do 2º Conselho de Intendência.

De certo há uma constatação que a família era possuidora de propriedades. No aviso de cobrança da taxa de lixo da empresa Tracção, Força e Luz, publicado em 1915 mostra entre os grandes proprietários na capital: Olympio Tavares, Romualdo Galvão, Alexandre O’Grady, Felynto Manso, Francisco Rodrigues Vianna, José Pinto, Joaquim Policiano Leite, entre outros que fizeram parte da Intendência. (A REPUBLICA, Natal, 02-03 dez. 1915; 06 dez. 1915; 10 dez. 1915; 13-15 dez. 1915). Façamos, neste ponto, um parêntese: se, como dissemos, metade dos personagens, sobre os quais sabemos algo, exerceram atividades comerciais na cidade no decorrer do período abordado em nossa pesquisa, no tempo dos coronéis – retirando-se aqui qualquer noção negativa que a expressão possa sugerir – a proporção de comerciantes é ainda maior. Exceções são pouquíssimas: Pedro Soares de Amorim, Alexander James O’Grady, Miguel Augusto Seabra de Mello.

Foi a partir de 1893, com as pregações dos reverendos, William C. Porter e Juventino Marinho da Silva, que o protestantismo avançou na capital potiguar. Dois anos depois, Porter fixou residência na cidade e conseguiu com o imigrante canadense Alexandre James O’Grady, a doação do terreno no qual ergueu o templo da primeira Igreja Presbiteriana de Natal (CASCUDO, 1999).

Aliada a esses fatores, estava a confiança depositada em Manoel Dantas e em seu genro, Omar O’Grady, governantes do período, que, além das capacidades individuais que possuíam, eram muito bem relacionados com aqueles que comandavam o estado.

O livro A maçonaria no Rio Grande do Norte, que conta a história do movimento maçônico no Estado, exaltando o poder da maçonaria na formação e manutenção da República no Rio Grande do Norte, nos ajuda a fazer um mapeamento mais preciso dos nomes ligados à Intendência que pertenceram a essa sociedade. Identificamos, pela obra e também por matérias n’A Republica, os seguintes: Alexander James O’Grady, Manoel Dantas e Omar O’Grady.

Quando os laços que unem os que governam o estado aos que administram a sua capital são mais fortes, a relação de confiança estabelecida entre as partes ajuda a criar também uma maior liberdade ao poder municipal. Este é um caminho para explicar a nova fase vivida pela Intendência entre 1924 e 1929, sob a gestão de Manoel Dantas e Omar O’Grady.

DO LAMENTO PARA A OPORTUNIDADE

Nenhum outro membro da elite local de que tratamos aqui foi figura tão presente em tais sociedades como o Dr. Manoel Dantas. Em todas as que foram citadas, esse personagem teve papel relevante. Foi sócio-fundador, diretor, presidente, venerável. E é este ser multifacetado – jornalista, advogado, cronista, geógrafo, fotógrafo, político, enfim –, e muito bem relacionado na sociedade de seu tempo, que chegará à presidência do Conselho de Intendência em maio de 1924. Mas Manoel Dantas não teve muito tempo para pôr em prática os seus desejos e sonhos em prol de uma nova Natal. Morrendo subitamente, sua administração não passou de um mês e meio.

Dantas era tio afim do governador do Estado que apoiou sua candidatura à presidência da Intendência Municipal. Mas, além disso, nutria boas relações com as figuras mais eminentes da política local, como Alberto Maranhão, de quem foi uma espécie de auxiliar direto em sua gestão, e Juvenal Lamartine, sucessor de seu sobrinho no governo do Estado, de quem foi sócio. Aliada a esses vínculos familiares e amizades, algumas certamente conquistadas na época em que dirigia A Republica, Dantas tinha uma trajetória no movimento republicano no Rio Grande do Norte, como vimos no capítulo II. Diante de tudo isso, o bacharel circulava facilmente entre os membros mais destacados da elite local. Era, pelo sentimento que vemos presente no jornal que dirigira, um homem ideal para realizar as reformas de que a cidade necessitava.

Um dos intelectuais mais articulados da cidade durante a Primeira República, entusiasta dos signos modernos e do processo de modernização e autor de uma das narrativas mais eloqüentes sobre a sua história – a conferência “Natal daqui a cinquenta annos” –, sucumbia ante uma das constantes epidemias que assolavam a cidade, em 15 de junho, pouco mais de um mês depois de assumir a presidência da Intendência Municipal; sucumbia ante as condições precárias da cidade que ajudaram a configurar a imagem do atraso tão combatida, e tão decantada, pela elite do qual Manoel Dantas fez parte.

Manoel Dantas, advogado, jornalista, professor, presidente da Intendência é eleito intendente em 1924 pelos votos dos demais membros do Conselho. As matérias que tratam da sucessão na Intendência e as próprias declarações do Dr. Manoel Dantas revelam um clima de otimismo e de esperança em relação ao futuro da cidade. Era preciso reformar. Mudar. Basta dizer que o regimento interno data de 1882 e o Código de Posturas data de 1916.” Sabemos que os planos de Manoel Dantas para reformar a estrutura da Intendência não puderam ser executados por ele, em seu curto governo de 45 dias.

O presidente da Intendência veio a falecer em 15 de junho daquele ano. Nada de grandioso ele pôde fazer na administração municipal. A perda inestimável abateu a elite local, como vemos em algumas matérias que tratam de homenagens ao falecido. O luto, porém, logo deu lugar a uma nova esperança, agora depositada no seu genro, o engenheiro Omar O’Grady, homem também exaltado pela sua capacidade de trabalho e iniciativa. Esse acontecimento precipitou o retorno do engenheiro Omar O’Grady a Natal, que, indicado por Dantas, seu sogro, para compor o conselho da Intendência, acabou assumindo o cargo de presidente em novembro desse mesmo ano.

Pouco depois da morte de Dantas, A Republica apresenta uma matéria, originalmente publicada na Gazeta de noticias, da capital federal, em que o nome de O’Grady surge como o melhor caminho a ser seguido por aqueles que desejavam a Natal uma administração progressista. Intitulado um engenheiro de valor, o texto ressaltava, mais uma vez, a formação em engenharia civil obtida por O’Grady em Chicago e afirmava que o jovem era um “distincto profissional, energico e emprehendedor” e trazia consigo a “influencia da iniciativa americana (Id., Natal, 31 ago. 1924.)”. A escolha de O’Grady para o cargo de presidente da Intendência seria, enfim, muito feliz, sendo muito provável que essa escolha resultasse num caminho de progresso material e administrativo para a cidade, pelo que aponta a matéria.

Lembramos ainda que Christovam Dantas, filho de Manoel Dantas, e Omar O’Grady, importantes personagens da elite local, graduaram-se na América, ponto constantemente ressaltado em favor do último presidente da Intendência, cujos anos passados no exterior permitiram-lhe adquirir o pragmatismo, a capacidade de iniciativa e a racionalidade típicas do povo americano, como vemos em matérias da época.

No final do ano de 1924, mais precisamente no dia 02 de novembro toma posse da Intendência Municipal o Dr. Omar O’Grady (A REPUBLICA, 1924) e logo começa a agir. A assunção de Omar O’Grady em frente à Intendência de Natal marca aquilo que podemos denominar de “terceiro momento de modernização” de Natal. Um fator interessante que caracteriza esse período é o fato de que as intervenções sobre a cidade deixam de ser foco prioritário das ações do Governo do Estado, passando à esfera da Intendência Municipal.

As intervenções se iniciam a partir da fundamentação de uma nova regulação urbanística para Natal no início de 1925, fixando padrões convenientes à estética urbana da cidade (A REPUBLICA, 1925). Nesse processo, o governo O’Grady implementa algumas medidas como: a organização de uma seção de Obras Públicas, a regulamentação de diversos departamentos da Municipalidade para a conveniência dos serviços e a cobrança de taxa de três mil réis aos proprietários para emplacamento e numeração dos edifícios da zona urbana. Outras definições também foram assentidas pelo Conselho Municipal. No início do ano seguinte, algumas matérias já destacam as ações empreendidas pelo gestor em poucos meses no exercício de sua nova função.

Fotografia de Omar O’Grady tirada em fins da década de 1920. Fonte: Cigarra,1920.

Em seu lugar, assumiu o seu genro, o engenheiro Omar Grant O’Grady (1894-1985). Também com relação a esse personagem tentaremos ser sucintos, nos restringindo ao que considerarmos mais importante para a compreensão da trajetória que o levou a tornar-se

Uma matéria d’A Republica, publicada logo após a morte de Manoel Dantas, tratou da candidatura do engenheiro à presidência da Intendência, destacando que ele se graduara, no ano de 1917, no Illinois Institute of Technology, Estados Unidos, e trazia consigo “a influência da iniciativa americana14”, ponto forte que o ajudaria, segundo a matéria, a pôr a cidade em novos rumos.

REFORMA ADMINISTRATIVA

A construção da nova ordem urbana passa pelas diversas ações desenvolvidas pela Intendência, acentuadamente pela elaboração das leis municipais. Elas revelam o desejo de se criar uma cidade civilizada, progressista, moderna. Queriam livrar Natal de costumes tidos como atrasados, muitas vezes ligados ao mundo rural. No domínio administrativo, propriamente, o desenvolvimento dessa nova ordem passa pelo processo de racionalização da gestão, inspirado no modelo da América, empreendido por O’Grady.

Na década de 1910 marca o momento da história da Intendência pelo início do processo de racionalização da administração da cidade. A continuidade desse processo se dará na década de 1920, com Omar O’Grady, momento em que ele ganhará intensidade.

Nesses primeiros anos do regime republicano, as leis que citamos foram as responsáveis por regular o funcionamento dos Conselhos de Intendência no Rio Grande do Norte. Apenas na década de 1920 aparecerão novas normas para regular as atividades desses Conselhos e instituir, tardiamente, a prefeitura. É nesse mesmo período que Omar O’Grady estabelece um novo regulamento para dirigir as ações da Intendência, dando às suas ações maior racionalidade, o regulamento geral dos departamentos da Intendência de Natal, aprovado pela resolução municipal de nº 241/1925.

Sabemos que os planos de Manoel Dantas para reformar a estrutura da Intendência não puderam ser executados por ele, em seu curto governo de 45 dias. Coube ao genro, Omar O’Grady, levar adiante os planos de reformulação dos ramos da administração municipal. Em outras palavras, podemos dizer que o novo gestor deu início a um processo de racionalização do funcionamento do Conselho de Intendência, inaugurando uma gestão burocrática.

Uma das primeiras ações de seu governo foi a elaboração da resolução de nº 241, aprovada em janeiro de 1925. A citada lei autorizou o presidente da Intendência a formular um novo regulamento interno para a organização do poder municipal, o qual foi concluído e publicado em maio daquele ano, alterando por completo o funcionamento da administração do município. O novo gestor, em acordo com as ideias de seu sogro e antecessor, o Dr. Manoel Dantas, acreditava que a Intendência não podia dar conta das necessidades da capital potiguar, que crescia em termos populacionais, tinha multiplicado o seu movimento financeiro e o volume das obras públicas e dos serviços urbanos, com uma estrutura administrativa arcaica e ineficiente.

A diretoria de obras, como se vê por nossa descrição, era aquela de estrutura mais complexa e que possuía mais funções dentro do novo quadro administrativo. Assumiu-a, em janeiro de 1925, o engenheiro Paulo Leopoldo Pereira da Camara, mas, por razões não explicadas, ele pediu demissão em maio do mesmo ano. Passou, então, a atuar interinamente no cargo o sr. Mathias Marinho, auxiliar técnico da diretoria. E, como interino, manteve-se no cargo durante toda a gestão O’Grady, pois a Intendência não conseguiu encontrar outro engenheiro para substituir Paulo Leopoldo. A razão para tal, segundo o gestor, estava no baixo rendimento do diretor, ao qual se pagava seis contos anuais, valor não compatível com as responsabilidades do cargo. Diante disso, o gestor afirmou, em relatório anual, que chamou a si mesmo muito das responsabilidades técnicas e da rotina do serviço da diretoria (GOVERNO do Municipio – Relatorio do Presidente Omar O’Grady. A Republica, Natal, 05 jan. 1926), ou seja, acumulou as funções de presidente da Edilidade e de diretor de obras.

Até a gestão O’Grady o quadro de técnicos da administração municipal era bastante reduzido, algo que começa a ser alterado em 1925, quando a Intendência toma para si a tarefa de realizar importantes obras na cidade, as quais, até então, ficavam a cargo do Governo do Estado.

É o engenheiro O’Grady, portanto, quem estará à frente da diretoria durante todo o período em que governa a cidade, como vemos pelos relatórios municipais. Seria a situação desconfortável para o gestor, ou, ao contrário, ela lhe traria maior autonomia, liberdade, para a gestão e execução das obras públicas na cidade. Por que razões o engenheiro Paulo Leopoldo teria pedido demissão do cargo? Não teria suportado interferências de O’Grady em seu trabalho? Possibilidade plausível que não podemos, porém, confirmar com nossas fontes.

Para as outras duas diretorias também foram chamados nomes de confiança de O’Grady, que foram responsáveis por auxiliá-lo na nova organização administrativa. Para o cargo de diretor da Fazenda, foi chamado o sr. Cicero Aranha, funcionário do alto escalão do Departamento de Fazenda do Estado, cedido pelo próprio Governador para organizar o serviço da nova diretoria. Tendo voltado ele para as suas funções no Departamento estadual, O’Grady nomeou para o cargo o sr. Theophilo Pereira Brandão, ex-contador do Tesouro do Estado. Para a direção da diretoria do Expediente, foi nomeado o secretário da Intendência, Mario Eugenio Lyra, que permaneceu no cargo até 1930.

A necessidade de criar uma nova estrutura para a administração da cidade foi explicada por O’Grady no relatório da gestão municipal do ano de 1926. Segundo o gestor, a organização dos departamentos da Intendência deveu-se ao desenvolvimento financeiro do município e ao consequente aumento de serviços públicos. A nova estrutura visava aumentar a eficiência das atividades do poder municipal, investindo em um quadro de funcionários especializados e aumentando, na medida em que estabelecia normas precisas de suas funções, a sua capacidade de trabalho.

Isto fica exemplificado em alguns dados apresentados por O’Grady: em 1924, antes de assumir o cargo de presidente da Intendência, o movimento financeiro dessa instituição era de aproximadamente 325 contos de réis; em 1925, esse movimento foi para a casa dos 600 contos. Com quase o dobro de movimento financeiro e, em consequência, de serviços administrados pelo poder municipal, o aumento no número de funcionários titulados foi pouco mais de 30%, passando de 27 para 36. A explicação para o aumento da produtividade é explicado pela regulação dos expedientes, que passaram a ser dados em dois horários, pela manhã, das 8h às 11h, e pela tarde, das 13h às 16h30, prorrogáveis de acordo com a demanda dos serviços. Antes, ao que deu a entender o gestor, o horário de expediente era feito pelo funcionário.

A administração de Omar O’Grady também será marcada pela instituição das vagas destinadas à minoria para o Conselho de Intendência. Desconhecemos a lei responsável por definir a criação dessas vagas – se é que, de fato, houve alguma lei a regulamentá-las.

De qualquer modo, é difícil negar que o regulamento geral dos departamentos da Intendência estabelece uma nova forma de gerir a cidade, que passa a ser vista com outro olhar na administração do engenheiro Omar O’Grady. Essa nova forma de administrar, mais dinâmica, mais racional, permite ao órgão administrativo o desenvolvimento acelerado, se comparado ao momento anterior, de obras importantes para a capital potiguar, como as de calçamento, a abertura de novas vias, a construção e manutenção de jardins públicos, além da ampliação dos serviços urbanos e do desenvolvimento de um plano urbanístico que visava ordenar o crescimento futuro da cidade.

O ano de 1924 marca o início de um novo rumo para a administração municipal. Com mais verba, já que voltara a cobrar a décima urbana, e com uma reformulação administrativa, a gestão municipal, sob a chefia do engenheiro Omar O’Grady, pode tornar-se mais eficiente. O novo gestor tinha apoio do Governo do Estado para realizar as obras que a cidade precisava para se desenvolver. O’Grady, pela visão dos que administravam o Rio Grande do Norte, seria a pessoa certa para comandar o Executivo do município da capital, para se tornar o primeiro prefeito de Natal, cargo que, pelo que vemos na lei, condensava maior autoridade do que o de presidente da Intendência. Além disso, José Augusto, governador do Estado à época da promulgação da Constituição estadual de 1926, deve ter observado que o Rio Grande do Norte mantinha uma organização municipal obsoleta em relação à da maioria dos demais estados da nação.

Nesse mesmo período, a tardia criação do cargo de prefeito em Natal gera uma última alteração significativa na Intendência que, agora, não mais agrega o poder Executivo. Essa mudança foi proposta pela constituição estadual de 1926, que, em seu art. 70, definiu que a administração do município ficaria a cargo do prefeito e do Conselho de Intendência, sendo ao primeiro conferido o comando do poder Executivo e a essa instituição o poder deliberativo. Em outras palavras, a administração do município de Natal, e dos demais que compunham o Rio Grande do Norte, passou a seguir uma estrutura similar à que vemos em nossos dias: a Intendência manteve-se com a responsabilidade de criar as leis, editais e projetos para desenvolvimento da cidade, os quais, a partir de então, tinham de passar pela aprovação do prefeito, que os punha em execução, ou os vetava, caso considerasse-os incompatíveis com as necessidades do município. Isso, é claro, nos termos da lei. Na prática, cremos ser mais apropriado dizer que a Intendência passou a ser um órgão figurativo, que apenas referendava as decisões tomadas por O’Grady, nomeado prefeito pelo governador do Estado, em acordo com o parágrafo único do art. 72 da Constituição estadual (RIO GRANDE DO NORTE. Constituição política do Rio Grande do Norte (Título V – Os municípios). A Republica, Natal, 13 ago. 1926.), que afirmava ser de livre nomeação do governador o cargo de prefeito da capital.

Prefeito Omar O’Grady. in A Escola Doméstica, 1926. LABIM: Revistas pertencentes ao Instituto Tavares de Lyra
O Palácio do Comércio foi inaugurado em 25 de maio de 1940, projeto do arquiteto Silvio Jaguaribe Ekman e Construção de Omar O’Grady. A solenidade de inauguração foi presidida pelo Interventor Federal do Estado, Francisco de Menezes Pimentel. Foto e informações “Fortaleza em Fotos e Fatos”.
Companhia telefonica projetada por emilio hinko e construido por Omar O’Grady

DIVISOR DE ÁGUAS

A gestão da cidade se dividia em dois claros momentos. No primeiro deles, a cidade havia sido governada por majores e coronéis da Guarda Nacional; tínhamos a Natal do tempo dos coronéis, sendo emblemática, nesta perspectiva, a figura do coronel Joaquim Manoel. Após isso, finda a administração do coronel José Lagreca, a cidade passara a ser governada por um farmacêutico, sucedendo-lhe um bacharel em ciências jurídicas e sociais e um engenheiro civil. Explicar-se-ia, assim, sem tantas delongas, o fato de a Intendência ter sido bem mais produtiva entre os anos de 1924 e 1930, especialmente durante a gestão de Omar O’Grady, um engenheiro, visto nas matérias de jornal como um homem pragmático, amante da ciência e da técnica.

Não obstante esse aspecto, não podemos nos esquecer da importância de indivíduos como Omar O’Grady, cujo poder de iniciativa e capacidade de trabalho, marcas individuais sempre ressaltadas nas matérias de jornal do seu tempo, aliadas a bons relacionamentos com aqueles que estavam no comando do governo do Estado, devem ser consideradas para se explicar a mudança de rumo na administração da cidade nesse período.

O Prefeito Omar O’Grady

FISCALIZAÇÃO URBANA

É importante que se diga que a cidade do Natal crescia em termos populacionais e o número de propriedades não acompanhava tal crescimento, o que gerava um aumento do valor dos aluguéis, tornando o negócio bastante rentável. Nesse mesmo ano de 1911, será fundada a Empreza Natal Constructora, anunciada como uma solução para o problema das habitações em Natal. Em 1914, começamos a ter indícios do que gerava tal problema. A matéria intitulada A cidade e os latifundios (A CIDADE e os latifundios. A REPUBLICA, Natal, 14 fev. 1914.) mostra que Natal continuava a sofrer com o problema das habitações e que faltava terreno para construir, pois muitos aforavam gigantescas porções do patrimônio municipal (o que dizer de um terreno com 100 metros de frente? E havia outros de dimensões maiores) sem cumprir a cláusula básica das resoluções que tratavam do aforamento em área urbana: construir no prazo máximo de um ano. A questão só será vista de modo mais enérgico na gestão de Omar O’Grady.

É preciso que levemos em consideração que a reforma administrativa realizada por Omar O’Grady na Intendência, aliada ao seu perfil pragmático, criou mecanismos mais rigorosos de cobrança de impostos. A aplicação da lei – e tudo o mais que envolvesse a gestão municipal – deveria ser marcada pela impessoalidade. Disso não se pode depreender, porém, que os rigores da lei fossem igualmente distribuídos.

Em 15 de janeiro, por exemplo, uma matéria d’A Republica ressalta que Natal, embora ainda estivesse aquém, em termos materiais, de cidades do interior no sul do país, em muito já evoluíra, destacando-se a nova política de edificação que O’Grady vinha impondo a todos os bairros da cidade, estabelecendo padrões de construção para cada um deles, em prol do desenvolvimento de uma estética que fosse compatível com uma capital que se desejasse “adiantada”. A medida, que contrariava alguns proprietários, era defendida fortemente pelo redator da matéria, que a caracterizava como uma ação para o “bem collectivo (A REPUBLICA, Natal, 15 jan. 1925.)”.

Uma reflexão merece ser feita sobre essa relação entre o conteúdo da lei e a complexa realidade da cidade e dos grupos sociais que nela habitam. O analfabetismo era uma barreira entre o conteúdo da lei e os grupos populares, e isto nos parece ser verdadeiro. É preciso que se diga, porém, que há outros fatores mais significativos que tornam complexa a reforma de costumes que algumas leis desejavam implementar. Essa reforma passava também por mudanças de ordem material na cidade, o que incluía, entre outras, as obras de saneamento. Para termos uma ideia da necessidade dessas obras, uma matéria d’A Republica, do ano de 1929, aponta que 6.500 casas em Natal não possuíam esgotamento sanitário, número bastante elevado, se levarmos em conta que a população local não devia passar muito de 35.000 habitantes. O’Grady, prefeito da cidade à época, também ressalta na mesma edição do jornal que a falta de saneamento era um dos principais problemas da capital (O’GRADY, Omar. Os problemas da cidade. A REPUBLICA, Natal, 01 jul. 1929). Assim, o que é tomado pelo denunciante como um “ato bárbaro” de uma “pobre gentalha” pode ser tido como um costume comum, explicado, ao menos parcialmente, quando nos damos conta dos problemas de ordem material vividos pela cidade.

Outra medida proposta pelo presidente foi o emplacamento e numeração das edificações localizadas na zona urbana da cidade. Em fevereiro de 1925, encerra-se a concorrência pública para o fornecimento das placas e números metálicos que iriam ajudar a compor o novo sistema de numeração da cidade. A Agência Miranda Ltda., de Natal (Conforme A REPUBLICA, Natal, 07 fev. 1925.), irá comprar as placas no Rio e São Paulo (Conforme A REPUBLICA, Natal, 12 set. 1925.), obedecendo ao “uso das melhores praças”. A explicação para a adoção do novo sistema é dada pelo próprio Omar O’Grady que, em relatório do ano de 1926, destaca a ação como uma das mais importantes do seu primeiro ano de gestão. Segundo o presidente, “além de imperfeito e deficiente que era o velho systema de numeração da nossa capital, raramente se encontrava uma rua que tivesse todas as suas casas numeradas.” O novo sistema organizado era bem mais “muito adoptado, principalmente nas cidades norte-americanas (A REPUBLICA, Natal, 10 jan. 1926.)”, de onde viera o novo gestor.

Concomitantemente, deu-se continuidade ao projeto intitulado pela imprensa da época de “processo de construção da cidade para os visitantes”, caracterizado essencialmente por diversas restrições à pobreza e intentando por fim às “aglomerações populares” consideradas signos de atraso.
Nesse contexto, a Intendência Municipal passou a estimular a substituição das velhas fachadas “(…) de anachronico estylo colonial pelos modelos airosos e estheticos dos centros urbanos de bom gosto (…)” (A NATAL…, 30/10/1928, p.07). Nessa mesma linha, em 17 de março de 1928, foi organizada uma exposição com os projetos do engenheiro Clodoaldo Dantas, construtor do Recife, para incentivar construções condizentes com as linhas modernas, que em muito contribuiriam para o projeto proposto pela elite administrativa para Natal (EXPOSIÇÃO…, 17/03/1928, p.02). Em 1929, foi organizado o concurso anual dos três melhores projetistas e dos proprietários dos mais bonitos e modernos prédios da cidade, cuja premiação era a restituição total do valor da construção e/ou metade dele (O’GRADY, 1929).

Omar O’Grady, último presidente da Intendência, primeiro prefeito da capital potiguar. E não foi só nesse aspecto que esse gestor marcou uma transição na administração da cidade do Natal. Essa nova forma de administrar, mais dinâmica, mais racional, permite ao órgão administrativo o desenvolvimento acelerado, se comparado ao momento anterior, de obras importantes para a capital potiguar, como as de calçamento, a abertura de novas vias, a construção e manutenção de jardins públicos, além da ampliação dos serviços urbanos e do desenvolvimento de um plano urbanístico que visava ordenar o crescimento futuro da cidade.

IMPOSTOS

O cenário financeiro, como podemos ver, não era dos mais prósperos. Faltavam verbas para obras de maior porte. Vivia-se uma crise urbana, já analisada por outros autores que estudaram o período. Segundo o historiador do urbanismo George Dantas, essa crise teria sido gerada por três razões principais: a desarticulação política dos Albuquerque Maranhão, que se inicia com a campanha eleitoral de 1913; as constantes secas que assolaram o Estado do Rio Grande do Norte; e as dificuldades financeiras decorrentes desse fenômeno climático e do pagamento dos empréstimos franceses.

Tal cenário, que começa a se formar em meados da década de 1910, só começará a ser superado na década de 1920, com as gestões de Manoel Dantas e, principalmente, de Omar O’Grady. A resolução nº 171/1913, não mais apresenta a décima urbana como um dos rendimentos da Intendência, que só voltara a figurar nas resoluções orçamentárias a partir da gestão de O’Grady.

Também foi a partir de 1924, com a ascensão de Omar O’Grady ao poder municipal, que se deu a transferência da arrecadação de impostos, como a décima urbana, a taxa de recolhimento de lixo e a taxa sanitária, para a esfera municipal. Em 1927, O’Grady sistematizou a obtenção e o pagamento do “habite-se” (GOVERNO…, 03/07/1927, p.03) que obrigava os proprietários a pagarem uma “(…) taxa de tres mil reaes sobre cada numero, ao realizar o emplacamento e numeração dos prédios da zona urbana (…)” (VÁRIAS…, 15/01/1925, p.01). O’Grady também incentivou o cumprimento dos “padrões estéticos” para as construções, sobretudo as habitações, para cada bairro da capital; o que segundo observadores da época, em muito contribuía para o “(…) desenvolvimento material desta cidade (…)” (A REPÚBLICA, 15/01/1925, p.01).

Por ato de 15 de setembro de 1925, o presidente O’Grady, usando das atribuições conferidas pela resolução nº 220, de janeiro de 1923, e com a autorização contida no decreto estadual de nº 279, de setembro de 1925430, emite apólices da dívida pública do município, nos valores de cinquenta e cem mil réis, podendo alcançar o valor total de 500 contos de réis. Em síntese: em um ano de administração, O’Grady pôde lançar mão de duas aberturas especiais de crédito que, juntas, perfaziam o total de 1.100 contos de réis.

DISPENSÁRIO DE PODRES SYMPHRONIO BARRETO

O Dispensário de pobres Symphronio Barreto foi criado no ano de 1925. Antes dele, havia sido criado, com funções parecidas, o Asilo de Mendicidade Padre João Maria. Fora fundado em 1º de janeiro de 1912, permanecendo ativo até 25 de maio de 1920, quando deu lugar ao Orfanato de mesmo nome, destinado a meninas desvalidas (CASCUDO, 1980, p. 362). O dispensário parece ter dado resultados mais positivos no combate à mendicância.

N’A Republica, a inauguração da citada instituição é tida como uma das principais ações da gestão de Omar O’Grady no ano de 1925. E pouco tempo depois, nos primeiros dias de 1926, o presidente da Intendência anunciava com “grata satisfação” que havia sido abolida a mendicância das ruas de Natal. A ação do Dispensário, mantido pela associação de caridade de Natal, com subvenções da Intendência, era apoiada também pela Igreja Católica, representada pelo Bispo diocesano, D. José Pereira Alves. Juntos, Intendência, Associação de Caridade e Igreja Católica realizavam uma obra de “benefício material e de ordem social para a cidade (GOVERNO do Municipio. A Republica, 10 jan. 1926, p.1; grifo nosso)”.

Embora matérias d’A Republica e os próprios relatórios de gestão da Intendência destacassem que muitas obras restavam ainda a fazer, a inauguração do Dispensário de pobres parecia encerrar um ciclo no processo de modernização da cidade. Referimo-nos a um processo que se iniciara com a República, se aprofundara na década de 1920, na gestão do próprio Omar O’Grady e ganhara seus contornos finais com o Dispensário de Pobres e com o Plano Geral de Sistematização da cidade, em 1929 (SANTOS, 2012). Era como que o processo de higienização houvesse sido concluído. A cidade bela, com seu Teatro, grupos escolares, ruas calçadas e o bonde elétrico, entre outros melhoramentos urbanos, agora estava limpa de mendigos, desafortunados homens para os quais os referidos melhoramentos eram coisa muito distante. Mas a vitória do Dispensário não representaria a derrota da Escola e da cidade que busca ensinar?

Em virtude disso, Omar O’Grady, como presidente da Intendência, apoiou a criação do Dispensário de pobres Symphronio Barreto. A ação, posta nos relatórios do governo municipal como uma das principais do novo gestor, foi complementada pela resolução municipal nº 258, de junho de 1925, responsável por proibir a mendicância nas ruas da capital potiguar (NUMA SERIE de sueltos. A Republica, 06 jun. 1925; EXPEDIENTE do dia. A Republica, 05 ago. 1925, p. 1; O CALÇAMENTO da cidade. A Republica, 10 jan. 1926, p.1).

DESENVOLVIMENTO

Em uma série de matérias publicadas n’A Republica, com o título Pela Cidade, e no Diario, intituladas Pelo Direito. Ascanio (provavelmente pseudônimo), escrevendo no órgão oficial do PRF, defenderá que os terrenos localizados na Cidade Nova pertenciam, desde o início do século XX, à área urbana e, portanto, os seus foreiros deveriam cumprir a cláusula de edificação. A polêmica se dá num momento em que a gestão O’Grady passa a fiscalizar com mais rigor a posse dos terrenos aforados pela Intendência.

No que diz respeito ao argumento de que a Intendência tinha poucos recursos para realizar as obras na cidade, é interessante observar como esse discurso se repete mesmo nos relatórios da gestão de O’Grady, momento em que a Intendência, segundo informações dos próprios relatórios, multiplica suas rendas. Nos relatórios do governo do Estado também não será difícil encontrar esse argumento, que parece uma espécie de ladainha das gestões estaduais e municipais. Desta maneira, o presidente da Intendência afirmava que “o pouco que se fazia em muito valia na relatividade dos recursos de que dispomos, fracos e precarios (GOVERNO Municipal − RELATORIO Apresentado a Intendencia eleita para o triennio de 1905 a 1907 por occasião de sua posse em 1 de Janeiro de 1905. A REPUBLICA, Natal, 13 jan. 1905)”, como era do conhecimento geral, segundo o gestor. Mas será justamente na Intendência do nobre Manoel Dantas e, especialmente, na do seu genro, o engenheiro Omar O’Grady, que a cidade do Natal terá o seu maior desenvolvimento, com obras que tomarão conta de boa parte da cidade, chegando mesmo a atingir a região suburbana, em especial o bairro popular das Rocas.

A cidade se movimenta também pela ação de alguns indivíduos que, reunidos em pequenos grupos, tomam as rédeas de projetos que contribuiriam para o crescimento de Natal. É assim que, em 1921, Alzira O’Grady, irmã de Omar O’Grady, ladeada por outros moças da elite local, funda em Natal a casa de proteção às moças solteiras e a Escola de Comércio Feminina de Natal (Ver, entre outras, matéria publicada em A REPUBLICA, Natal, 04 abr. 1921.). No mesmo ano, avançam as obras de construção da nova catedral, que contava com a ajuda de vários homens que tinham sua história ligada à Intendência Municipal. Essas, entre outras ações, como a criação da Companhia Ferro-Carril de Natal, da Associação Promotora de Melhoramentos e da Sociedade Agrícola do Rio Grande do Norte, para ficarmos apenas em alguns exemplos, nos mostram que a busca por uma nova Natal não tem origem apenas nas ações de instituições como o Governo do Estado e a Intendência Municipal; ela nasce também de iniciativas pessoais, desvinculadas dessas instituições, que surgem pelo desejo de ver a cidade progredir, desejo partilhado pelos personagens a que nos referimos.

Apesar de iniciativas como essas, a cidade caminhava lentamente. O que se observa nessa primeira etapa/camada investigada neste capítulo é que a Intendência, em virtude de seu orçamento limitado, não conseguia deixar marcas significativas no espaço da cidade. Ao mesmo tempo, a pouca autonomia dada à instituição, altamente dependente daqueles que comandavam a política no estado, contribuía para uma situação de apatia e inércia que a marcaram durante boa parte do período que vai de 1904 a 1921. Nos jornais, as críticas e pedidos feitos à gestão municipal revelam essa inoperância da Intendência, que encontrava dificuldades para resolver os problemas mais corriqueiros enfrentados pela população da cidade, como os de coleta de lixo, abastecimento do mercado e açougue, iluminação, entre outros aqui apontados. Para alcançar o tão desejado progresso, havia um longo caminho a ser percorrido. Vagarosamente, contudo, o Conselho de Intendência dava sinais de mudanças que mantinham a crença no progresso.

Em 1926, o cronista Luís Torres, em texto intitulado A Cidade, Natal vivia profundas mudanças que também não passavam despercebidas por outros homens da época. Torres as expressa nos seguintes termos: “Na verdadeira transformação que o actual governo do municipio está sujeitando, com tão larga visão, a capital, tornando as ruas bolorentas e colonias [sic] em modernas e escorreitas, antevejo sempre a cidade que ha de vir – a cidade nova.” (A CIDADE. A REPUBLICA, Natal, 28 mar. 1926).

Em 1931, Januário Cicco era diretor da Sociedade de Assistência Hospitalar/RN e sócio fundador da Sociedade de Medicina e Cirurgia/RN. Eram dois
espaços propícios para dar continuidade ao seu trabalho de luta pelo atendimento à saúde dos pobres e pela criação das condições físicas e humanas para a fundação de uma Faculdade de Medicina em Natal. No ano de 1927, havia recebido do então Prefeito de Natal, o engenheiro Omar O’Grady (1924 – 1930), a doação de um terreno ao lado do Hospital da Caridade para ser construída uma Maternidade, cuja construção só foi iniciada em 1932.

Berço de muitos potiguares, o belíssimo casarão onde funciona a Maternidade Escola Januário Cicco, antiga Maternidade de Natal, teve sua construção iniciada em janeiro de 1932. O terreno foi doado pelo então prefeito O’Grady mas a inauguração só ocorreu em 12 de fevereiro de 1950.

No dia 02 de outubro de 1892, surgiu a Associação Comercial. Nasceu para congregar os comerciantes do bairro da Ribeira, sob a presidência de Fabrício Gomes Pedroza. Em 1929, o então presidente da associação planejou um empréstimo mediante a subscrição de ações. No mesmo ano, o Governador Juvenal Lamartine doou um terreno na então Rua Sachet (atual avenida Duque de Caxias) para a construção da sede própria. Em 1930, na administração do Prefeito Omar O’Grady, nova ajuda foi acrescentada aos recursos já existentes, permitindo a construção da sede-própria.

Vista aérea de Natal em 1930; foto de João Galvão. Fonte: Lyra, 2001, p.21.
Casario na Praça André de Albuquerque, década de 1920. Fonte: POMBO, 1922.
Praça André de Albuquerque, década de 1920. Fonte: POMBO, 1922.
Fundos do Palácio Potengi, década de 1920. Fonte: POMBO, 1922.
Praça Padre João Maria, década de 1920. Fonte: POMBO, 1922.
Além do calçamento, da reforma das instalações elétricas e dos bondes e da numeração das casas, outro melhoramento da gestão O’Grady é a construção de um trecho da estrada de rodagem entre Macaíba e a “feira livre” do Alecrim (A REPUBLICA, 1925d). Outras obras de relevo também são atacadas, como o levantamento do nível do bairro da Ribeira e construção da Avenida Atlântica partindo de Petrópolis. Ribeira, década de 1920. Fonte: POMBO, 1922.
Ribeira, década de 1920. Fonte: POMBO, 1922.
Ribeira, década de 1920. Fonte: POMBO, 1922.
Grupo Escolar Augusto Severo, um dos belos edifícios construídos na praça. Fonte: POMBO, 1922.
Estátua de Augusto Severo na praça homônima. Fonte: POMBO, 1922.
Fonte: POMBO, 1922.
Um dos principais problemas a resolver seria definitivamente o calçamento das ruas de Natal. As primeiras artérias a receberem nova pavimentação sistematicamente são a Tavares de Lyra e a Rio Branco, a partir da utilização do piche produzido pela Usina de Natal para calçamento em “macadame betuminoso”, cedido pelo Estado. Posteriormente, esse mesmo recurso é utilizado na Ulisses Caldas. Fonte: POMBO, 1922.
Avenida Rio Branco – primeira década do século XX. (acervo particular de José Valério)
Foto de João Galvão de 1930 mostrando a curva do Baldo, início da avenida Rio Branco, subida para a Cidade Alta para os que vinham do Alecrim.
Fonte: Lyra, 2001, p.31.
Fonte: POMBO, 1922.
Dez. 1928 – “Praça do Palácio/ Natal”. Fonte: Acervo IEB/USP (896 – 31/B/3)

ENERGIA É NOSSA

A Intendência Municipal de Natal passou a atuar diretamente sob a questão da eletricidade apenas a partir da administração de Omar O’Grady (1924-1930), revertendo um quadro de investimentos em obras públicas e serviços urbanos até então de responsabilidade do governo estadual. Contudo, antes dessa nova administração, em 1923, promoveu-se, em parceria com o Governo do Estado, a reestruturação da Repartição de Serviços Urbanos da cidade, a qual foram vinculados, entre outras funções, os serviços de bondes e de geração e distribuição de energia elétrica.

A usina elétrica do Oitizeiro mostrava-se novamente incapaz de atender as crescentes demandas públicas e privadas por eletricidade, com ligações clandestinas à rede, blecautes na iluminação pública e trazendo déficit constante para as contas públicas, este último justificado pelo engenheiro Paulo Coriolano, Diretor da Repartição de Serviços Urbanos, por meio da defasagem entre as tarifas cobradas aos consumidores e o preço real do serviço prestado.

As tentativas de reforço da etapa de geração de energia deram-se, a princípio, com o conserto dos motores já existentes na usina do Oitizeiro, diante do alto custo de novos equipamentos, persistindo então o uso da lenha como principal insumo para alimentação das máquinas da usina, com baixo rendimento energético, quando comparada a demais sistemas em funcionamento no país à época, como o de hidroelétricas.

Simultaneamente, prosseguia-se com a expansão da rede pública, seja pelo acréscimo de ligações de edificações à mesma, aumento do número de lâmpadas na via pública ou pela instalação de novos caminhos eletrificados para os bondes. A defasagem entre geração e consumo tornava a gestão do serviço de iluminação cada vez mais onerosa ao Governo do Estado, que em 1929 propõe, novamente, a concessão desse tipo de atividade a terceiros, repassando-o a Companhia Brasileira de Energia Elétrica, subsidiária da AMFORP no Brasil.

OBRAS

Com mais dinheiro em caixa, a Intendência seguia novos rumos. É este o título de matéria publicada n’A Republica, que exalta as ações realizadas em poucos meses pela nova gestão da cidade. Após lançar uma série de elogios ao novo edil, o redator da matéria tratará de apontar as obras pelas quais a cidade vinha passando nos últimos oito meses. A lista é extensa:

Ahi estão os jardins publicos remodelados, recebendo os carinhos da administração cujo sentimento esthetico não se compadece com o espectaculo dos nossos graciosos logradouros abandonados; a renovação do empedramento de varias ruas; o calçamento da travessa Ulysses Caldas no trecho que vae da Avenida Rio Branco à Deodoro, serviço que irá dar um grande impulso ao desenvolvimento da Cidade Nova, alem de facilitar o trafego de vehiculos para aquelle bairro; a abertura de uma estrada de automoveis, que, partindo da Avenida Norte na Ribeira, vae ter a Petropolis, com uma notavel reducção de distancia; o concerto de todas as estradas de rodagem existentes na capital, alem da construcção de uma que ligará o Monte Petropolis á Areia Preta.

Em 1925, o prefeito Omar O‘Grady construiu uma estrada ligando a Avenida Getúlio Vargas a Praia de Areia Preta134. Esse fragmento de beira-mar
tinha, na década de 1920, a preferência das elites, tornando-se um lugar de sociabilidade como demonstra a revista Cigarra. A revista Cigarra exibia banhistas na Praia de Areia Preta, divulgando a sociabilidade nesse trecho de beira-mar por meio de textos e fotografias. Nas três primeiras décadas do século XX, a imprensa natalense costumava anunciar os lugares de sociabilidade, a exemplo dos cafés, dos cinemas e da Praia de Areia Preta, como ambientes elegantes e civilizados (FRANÇA, Cigarra, Natal, ano 2, n. 4, ago. 1929, p. 19.)

Verão de 1928 na Praia de Areia Preta.
Verão de 1928 na Praia de Areia Preta.
Verão de 1928 na Praia de Areia Preta.
Os bondes já desciam à Areia Preta desde 1915. No 15 de novembro de 1925, o prefeito Omar O’Grady inaugurou estrada partindo da Avenida Atlântica (Getúlio Vargas de hoje) até esta praia. Desde 18 de janeiro de 1908, por resolução da Intendência (Prefeitura), Areia Preta era oficialmente a “Praia de Banhos” da cidade. Por Eduardo Alexandre Garcia.

A falta de calçamento na cidade era, pelo que vemos nas matérias de jornal, um sério problema que deveria receber atenção especial da administração municipal. Em matéria publicada em 29 de maio de 1925, por exemplo, um redator, ao expor as mais sérias questões com as quais a gestão O’Grady teria que lidar, não titubeia ao eleger o problema que mais deveria receber a atenção do novo presidente da Intendência.

Em vista disso, a nova administração do município gastou boa parte das suas verbas com essas obras de calçamento. Pelo quadro demonstrativo dos principais serviços realizados pela Intendência em 1925, vemos que apenas com essas obras foram gastos cerca de 79 contos de réis.

Os principais serviços realizados pela Intendência no ano de 1925, de acordo com o referido quadro, custaram 129:466$582 (cento e vinte e nove contos, quatrocentos e sessenta e seis mil, quinhentos e oitenta e dois réis). Além das obras de calçamento, destacam-se a construção de estradas de rodagem e o embelezamento da Avenida Atlântica (GOVERNO do Municipio. A REPUBLICA, Natal, 14 jan. 1926).

Além disso, algo em torno de 14 contos foram gastos com a conservação do calçamento e das estradas já existentes. Além da necessidade prática de tornar mais rápido o deslocamento entre os diferentes pontos da cidade, havia a razão estética, pela qual se entendia que tais obras ajudavam no embelezamento da cidade e lhe retiravam algo do seu aspecto colonial e rural; e, por fim, a compreensão de que a quantidade de calçamento representava um índice de modernização da cidade (Ver DANTAS, George. Linhas convulsas e tortuosas retificações: transformações urbanas em Natal nos anos 1920, p. 123-125.).

Em fins de maio, mais uma matéria d’A Republica se preocupa em trazer um balanço da administração de O’Grady. Como as anteriores, ela trata de ressaltar o quanto já havia sido feito na cidade em tão pouco tempo, revelando esperança no porvir da urbe natalense. Entre as ações citadas, estavam a organização dos departamentos da Intendência, as obras de calçamento, o novo sistema de numeração da cidade e, por fim, a construção da Avenida Atlântica, obra que apresentava o objetivo principal de aformosear a cidade, tornando-se um dos seus principais cartões postais (A REPUBLICA, Natal, 30 maio 1925.).

Por fim, a matéria emite o seguinte julgamento sobre a nova gestão da cidade: “Confiada a presidencia da Intendencia a um engenheiro, como é o sr. Omar O’Grady, as obras publicas formariam um capitulo especial, o mais louvavel, sem duvida, de sua operosa administração.” O tom positivo com o qual é referido o novo gestor, encontra-se presente em boa parte das matérias publicadas n’A Republica sobre a administração O’Grady, o que nos revela o sentimento da elite local de que um novo capítulo estava sendo aberto não apenas na administração da cidade, mas na sua história, ao fim do qual Natal poderia encontrar o “porto do Progresso” (A REPUBLICA, Natal, 05 jun. 1925). Via-se que Natal finalmente começava a tomar posse do seu papel central na vida do estado do qual era capital.

Panorama apanhado da Rua das Dunas término da balaustrada da Avenida Atlântica, concluída em 1926. Fonte Intendência Municipal. RELATÓRIO… 1927. s.d.

Além disso, deve-se observar que a capital potiguar tinha um papel central a desempenhar dentro da pauta modernizadora que a República trazia para o Rio Grande do Norte. Como capital, Natal deveria ser o espelho a refletir as mudanças trazidas pelo novo regime ao estado. Esse papel, parece-nos, a cidade só alcançou na gestão de Omar O’Grady.

Após referir-se a várias ações realizadas na administração O’Grady para o desenvolvimento da cidade, a matéria intitulada Novos Rumos, já citada, o jornal A Republica, põe Natal como um exemplo a ser seguido pelas demais municipalidades: “A nobre acção com que o dr. Omar O’Grady vem assignalando a sua passagem pela direcção da Intendencia de Natal bem pòde servir de paradigma aos intendentes dos demais municipios, desejosos de lhes prestar serviços de real utilidade. (A REPUBLICA, Natal, 09 abr. 1925.)”

Em maio de 1926, o bairro suburbano das Rocas passa a contar com o serviço permanente de limpeza das ruas e remoção do lixo. O “operoso” Omar O’Grady, segundo A Republica, estava preocupado em melhorar as condições de salubridade e estética do bairro, que começava a sentir a presença do poder público. Pouco depois do estabelecimento do serviço de limpeza, seria entrega à população das Rocas uma estrada construída pela Intendência, através da esplanada Silva Jardim, que serviria a todo bairro suburbano (Ver A REPUBLICA, Natal, 06 maio 1926).

A inauguração dessa obra ocorreu em setembro daquele ano, contando com a presença do governador do Estado, do presidente da Intendência e do bispo diocesano, D. José Pereira Alves. No mesmo dia, a “população paupérrima, porém grifo nosso) ordeira e trabalhadora” (a frase está em uma matéria d’A Republica que trata de mais uma inauguração no bairro: a Escola Nossa Senhora do Rosário, em outubro de 1926. Ver A REPUBLICA, Natal, 30 out. 1926) das Rocas recebeu ainda um posto médico e uma subdelegacia de polícia, além de uma pequena capela da “Sagrada Família”, inaugurações realizadas com festas e discursos das autoridades presentes e do líder comunitário Lauro Fagundes.

Esta última região, em 1926, era lembrada por Omar O’Grady, então presidente da Intendência, como “o bairro mais pobre da cidade” (GOVERNO do Município. A Republica, 08 jan. 1926, p.1). Apesar do intendente referir-se às Rocas como bairro, a região, à época, ainda estava oficialmente ligada à Ribeira, tornando-se bairro, por lei, apenas em 1947, através do decreto-lei nº 251, lançado na gestão do prefeito Sylvio P. Pedroza (PROJETO de lei 251, 1947, p. 2). A sua inserção no mapa político da cidade, a partir dos meados da década de 1920, na gestão de Omar O’Grady, foi reflexo de novos arranjos políticos que visavam, entre outros aspectos, atender a demandas do grupo dos artistas (no período estudado, a palavra é sinônimo de artífices) e operários.

A Feira Livre das Rocas é uma feira criada na década de 1920 pelo prefeito Omar O’Grady que funciona até hoje no bairro das Rocas, em Natal.

Ao integrar outras regiões da cidade às teias de poder da Intendência, os membros dessa instituição, liderados por O’Grady, desejavam também civilizar aquele “populacho” indesejado (DANTAS, 1917, p. 1; 1918, p. 1). Para tanto, algo além das obras materiais era necessário. O já referido Cascudo, Henrique Castriciano, seu irmão Eloy de Souza, entre outros, viam um significativo descompasso entre as mudanças materiais percebidas nas formas da cidade e o comportamento ainda atrasado, de antanho, de parte da população local, explicado por variadas vezes pela falta de educação dos mais humildes, impossibilitados de entenderem os avanços realizados pelo novo regime em sua cidade e incapazes de usarem de maneira adequado aparelhos urbanos, tais como praças, o mercado público e o bonde, por exemplo (SANTOS, 2012, p. 249-250).

Em 1926 e nos anos seguintes da gestão O’Grady, o dispensário continua a ser apoiado pelo Conselho de Intendência e pela prefeitura e é apresentado nos relatórios do governo municipal como uma das principais ações do novo gestor. O relatório de 1926, rico em quadros, tabelas e imagens da cidade, mostra que a cidade começava a ser remodelada por meio de diversas obras. Além da Avenida Atlântica, concluída naquele ano, e da estrada de rodagem que ligava o bairro das Rocas à região central da capital, o Conselho de Intendência investiu em diversas outras ações para aformosear a cidade, melhorar suas vias de comunicação e tornar mais racional seu traçado. Entre elas, estavam a construção do cais de desembarque na Tavares de Lyra, o novo calçamento na Praça Augusto Severo, a reconstrução da ponte de Guarapes, na estrada de rodagem que ligava a capital à cidade de Macaíba, além da construção de uma galeria para drenagem das águas pluviais na Avenida Junqueira Ayres, sempre alagada nos períodos de chuvas.

No dia 03 outubro de 1925 é inaugurado o calçamento da Travessa Ulisses
Caldas. Também é anunciado nesse período os calçamentos das ruas Junqueira Aires, Dr. Barata e Praça Augusto Severo, também em macadame betuminoso (A REPUBLICA, 1925g). Essas medidas comprovam a ênfase dada pela administração Omar O’Grady à pavimentação das vias, uma atitude condizente com a proliferação cada vez maior dos automóveis nas ruas de Natal – apesar de ainda restritos às classes mais abastadas –, enquanto que o bonde, embora ainda muito importante para o
deslocamento da grande maioria da população, já assimilava a imagem de degradação que o passaria a acompanhar a partir de então. Aspecto do novo calçamento da Praça Augusto Severo, concluído em outubro de 1926. Fonte: INTENDENCIA Municipal. RELATÓRIO… 1927, s.d.

Em 1927, a Intendência continuava a investir maciçamente em obras públicas, planejadas pelo próprio engenheiro presidente. Após a saída do engenheiro Paulo Leopoldo Pereira da Camara, a Diretoria de Obras continuou a cargo de Mathias Marinho, que “provisoriamente” ocupou o posto de Diretor até o final da gestão O’Grady. No relatório da gestão municipal relativo ao ano de 1928, o presidente da Intendência dirá que “A Diretoria de Obras, que é o departamento mais importante da administração municipal […], continua ainda sem um director effectivo. […] A parte technica [das atividades da Diretoria] tem estado sob minha responsabilidade immediata.” (INTENDENCIA Municipal. RELATORIO… 1929, p. 7.).

Nesse ano, as principais ações desenvolvidas pela gestão municipal para melhorar as feições da urbe foram a conclusão do cais de desembarque da Tavares de Lyra, do calçamento da Praça Augusto Severo, o novo calçamento da Junqueira Ayres, a construção de um novo cemitério para a cidade, na povoação de Ponta Negra e a abertura de novas estradas suburbanas.

Foto da lateral da nova sede da intendência municipal inaugurada em 1922. A sede da intendência não era própria, mas alugada: somente em 1922, por ocasião das comemorações do centenário da Independência, foi inaugurado o edifício do Palácio Felipe Camarão, que acolhe a câmara municipal e que continua de pé, ali na rua Ulisses Caldas.
O primitivo aterro recebeu posteriormente um revestimento, de pedras soltas. O Prefeito Omar O’Grady retirou aquelas pedras, calçando então a
Ladeira com paralelepípedos. Atualmente a avenida apresenta um pavimento asfaltado. Aspecto do novo calçamento da Avenida Junqueira Ayres, concluído em 1927. Fonte: INTENDÊNCIA Municipal. RELATÓRIO… 1928, s.d.
O mapa da segunda metade de 1864, produzido por Gustavo Dodt e presente no Atlas do Império do Brasil, representa ainda bem a cidade do início do século XX. O bonde, responsável por ligar à Cidade Alta (à esquerda, no mapa) à Ribeira, só chegaria em 1907, puxado por dois burros. Em 1911, com a chegada da energia elétrica, inaugurava-se, finalmente, o bonde elétrico. As obras de calçamento realizadas a partir dessa época, intensificadas na gestão de O’Grady, na década de 1920, aliadas à construção de estradas de rodagem, à obra da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte e às reformas do porto, ajudaram a conectar os diferentes espaços de Natal, a capital ao interior e, por fim, ao exterior, embora com fragilidades
Cais de desembarque da Avenida Tavares de Lyra, concluído em 1927. Fonte: INTENDÊNCIA Municipal… 1928, s.d.

O’Grady mantém o ritmo das obras na cidade no ano de 1928. Foram concluídas as obras de aformoseamento da Avenida Junqueira Ayres; a Praça João Tibúrcio, na Ribeira, foi reformada, e iniciou-se a construção da estrada de rodagem da Avenida Hermes da Fonseca. As dívidas do município permaneciam altas, mas estáveis, na casa dos 614 contos de réis, valor tido pelo gestor como controlável, ao afirmar ser sadia a situação financeira da Intendência. O presidente admitia, porém, que o aumento da intensidade das obras havia superado o crescimento das receitas que, entre 1924 e 1927, havia ficado na casa de 103%.

Em 1929, o então Prefeito de Natal, Omar O’Grady, iniciou as obras de calçamento da antiga Rua Sachet. O governador do Estado, àquela época, era Juvenal Lamartine de Faria. A cidade em obras – construção d novo calçamento da Avenida Sachet, na Ribeira. Fonte: INTENDÊNCIA Municipal. RELATÓRIO… 1928, s.d.

Vale lembrar que Natal tinha, neste período, na Intendência (antiga denominação da Prefeitura) homens públicos da estatura de Manoel Dantas e Omar O’Grady. Este último assumiu a chefia da Intendência em junho de 1924. Genro de Manoel Dantas, O’Grady realizou uma administração inovadora, alinhando sua formação técnica, era engenheiro formado nos Estados Unidos, com uma visão humanística da cidade de Natal. Cumpria, assim, em parte, a profecia feita na memorável conferência performática, visionária de uma Natal 50 anos mais velha. Época de inovação celebrada pelos poetas da cidade.

O BONDE NOVO
O bonde que inauguraram
É amarelo e muito claro…
Sua campa bate alegre e diferente das outras…
E seus olhos vermelhos indicam Petrópolis…
Anda sempre cheio por que é novo…
Chega na balaustrada espia o mar…
E os passageiros todos nem olham pro mar…
Só vêem o bonde novo…
Aquele bonde só devia sair aos domingos
Pois ele é a roupa domingueira
Da Repartição dos Serviços Urbanos…
(FERNANDES, 1970, p. 83).

O poeta Jorge Fernandes, neste poema de 1927, saúda o bonde novo, símbolo do progresso, expressando a alegria do natalense em poder utilizar este meio de transporte, assim, a cada inovação que surgia, Natal se distanciava do passado de vila colonial.

A expansão urbana, anteriormente fortemente vinculada ao prolongamento das linhas de bonde, passava também a estar atrelada ao traçado de novas artérias ou ao investimento aplicado nelas, como o calçamento da Avenida Hermes da Fonseca. As condições prévias de calçamento das principais avenidas e praças da cidade do Natal, antes da gestão O’Grady, dificultavam bastante a circulação dos veículos. As realizações de Omar O’Grady após assumir a Municipalidade demonstram, ano por ano, o avanço alcançado no tocante ao calçamento das ruas, avenidas e praças de Natal, como se pode ver no quadro a seguir.

O calçamento da Avenida Rio Branco foi iniciado em novembro de 1929. Obras desse vulto conclamavam, a partir de então, o investimento conjunto da Municipalidade e dos particulares atendidos no calçamento das artérias natalenses. O investimento nesse tipo de melhoramento acresce consideravelmente as despesas em obras públicas na cidade do Natal entre os anos de 1924 e 1928, como se pode ver: 1924 (57:307$221), 1925 (263.091$089), 1926 (435.160$650), 1927 (392.648$341), 1928 (379.527$717) e 1929 – até novembro: 270:000$000 (EM PROL…, 1930a). Passa a ser defendida nos periódicos a participação dos moradores das avenidas beneficiadas com o calçamento no custeamento dos valores empregados. O calçamento se alastra pela cidade atingindo também, embora de maneira ainda tímida e pontual, os considerados “subúrbios” como o Alecrim e as Rocas.

– Expansão das obras de calçamento em Natal. Fonte: EM PROL…, 1930a.

Honras lhe sejam feitas por isto, uma vez que na verdade esse interesse e esta preoccupação resumem uma justa aspiração da população urbana d’este município, especialmente da zona central da Cidade onde o trafego de vehiculos e pedestres cresce de maneira sensível e até assume proporções bem consideráveis a certas horas do dia. […]. Era preciso modificar esta situação […]. E foi o que se fez, porque organizada a reacção, ainda em 1925, já sob a administração do dr. Omar O’Grady, attendendo as necessidades dos diversos recantos da Cidade, foram feitos – o calçamento da rua Ulysses Caldas, da Avenida José Bernardo, servindo ao bairro operário do Alecrim e dando accesso ao Cemiterio, o embellezamento da Avenida Atlantica ao bairro de Petropolis e da Praça Pedro II na Cidade Alta, o magnífico calçamento a parallelepipedos da rua Dr. Barata e travessas Venezuela e Quintino Bocayuva, além da estrada para Areia Preta permittindo o accesso ás nossas praias de banho e de outra para as Roccas (EM PROL…, 1930a, p. 01).

Banquete oferecido a Berta Lutz em 19/7/1928 por ocasião do alistamento de eleitoras no município de Macaíba, Rio Grande do Norte com a presença de O’Grady

CRITICAS À GESTÃO

Com orgulho, O’Grady falava que mais da metade da receita da Intendência havia sido aplicada em obras públicas de significativa importância para a cidade. As rendas orçamentárias haviam sido arrecadadas, segundo o gestor, “com efficiencia, mas sem opressão, não distinguindo, no cumprimento da lei, amigos de adversarios”. É claro que esta não era a opinião de todos. Naquele ano de 1926, não obstante o aumento na arrecadação, a Intendência fecharia suas contas com um déficit de quase 326 contos de réis. Para Antonio Alves (certamente pseudônimo), que se apresenta como um potiguar erradicado no Rio de Janeiro, O’Grady vinha trazendo sérios prejuízos às classes trabalhadoras e ao comércio local:

O nome do Sr. Omar O’Grady – invenção politica de primo [Manoel Dantas, sogro de O’Grady, era tio afim de José Augusto], governador, que tem servido, apenas, de instrumento para vingar paixões, constituindo o terror das classes laboriosas de Natal, o espantalho do commercio, ora asphifixiado pelo effeito dos impostos, os mais escandalosos, – o nome do Sr. O’Grady foi escolhido, muito de proposito, como um escarneo e uma afron [sic] áquella gente soffredora e digna de melhor sorte (A REPUBLICA, Natal, 06 out. 1926.).

Em 1923, um outro jornal começa a ser publicado em Natal, a Folha do Povo, de Sandoval Wanderley, que critica fortemente a gestão Omar O’Grady, o que leva o seu redator chefe e proprietário a ser perseguido, e ao consequente fim do periódico, em 1927.

Ainda em 1926, Sandoval Wanderley usava sua Folha do Povo para criticar fortemente a administração de Omar O’Grady, com argumentos semelhantes aos presentes no texto de Antonio Alves: a administração municipal, confiada ao dito engenheiro sufocava o comércio local e oprimia a classe trabalhadora com impostos elevadíssimos. As críticas mais pesadas do jornalista à administração municipal haviam começado no ano anterior e já lhe tinham rendido um processo na justiça, de autoria do presidente da Intendência (Ver A REPUBLICA, Natal, 18 nov. 1925.).

Do outro lado, A Republica insistia em desqualificar as opiniões de Sandoval Wanderley, afirmando que suas palavras eram reflexo de uma simples revolta pessoal, por ter sido o referido jornalista cobrado pela Intendência, em virtude de possuir vários débitos com a administração municipal. O processo, por calúnia e difamação, acabou sendo anulado pelo Tribunal de Justiça, por conter diversas falhas. O’Grady e José Augusto, contrariados com a decisão da Justiça, resolveram, então, agir por conta própria, mandando homens de confiança perseguirem Sandoval Wanderley que, acuado, fechou o seu jornal no ano de 1927 (Sobre essa perseguição e o fechamento da Folha do Povo, ver SOUZA, Itamar de. A República Velha no Rio Grande do Norte, p. 251-254.).

Os discursos opositores são reduzidos e não têm força suficiente para abalar a administração de O’Grady. A oposição, nos meados da década de 1920 estava desarticulada e eram poucos os veículos de imprensa que ousavam fazer críticas à administração municipal e estadual. A perseguição a Sandoval Wanderley e seu periódico bem podem servir de exemplo de como eram tratados os opositores. Eles, porém, existiam. Não foram sufi cientes, contudo, para mudar os rumos do governo municipal de Natal.

DEFICIT ORÇAMENTÁRIO

As obras se avolumavam pela cidade e, na mesma medida, crescia o deficit orçamentário da Intendência Municipal. Em 1927, a Intendência fechou suas contas com um valor negativo de aproximadamente 135 contos de réis. O total das dívidas da instituição, àquela época, era de cerca de 616 contos. Em seu relatório, O’Grady admite o descompasso entre as receitas arrecadadas e as despesas realizadas: “As despezas que temos de realizar com os emprehendimentos que a cidade reclama já estão bem acima da nossa actual capacidade orçamentaria, e a tendencia é para que as necessidades destas despezas augmentem em desproporção com a receita (INTENDENCIA Municipal. RELATORIO… 1928, p. 1.)”. Qual seria, então, a saída para que a cidade não saísse da rota do progresso na qual, segundo o discurso que vemos em nossas fontes, caminhava?

Seria o momento de repensar as despesas da administração municipal, refrear os gastos em obras públicas? Omar O’Grady faz aos intendentes essa questão e sugere a resposta: “Devemos então cruzar os braços, diminuir consideravelmente, em vez de intensificar, o volume de trabalhos na via publica e em outros departamentos da vida Municipal? Quer parecer-me que não.” (INTENDENCIA Municipal. RELATORIO… 1928, p. 2.) A saída para o presidente seria recorrer “recorrer ao credito com a condição de que o peso da amortização seja, pelo menos em parte, distribuido pelos proprietarios ou contribuintes mais directamente beneficiados com as applicações das respectivas operações”. O’Grady referia-se, especialmente, às obras de calçamento, as que mais se destacaram em sua administração, cujos custos deveriam, segundo o gestor ser repartidos entre os cidadãos benefi ciados por elas, algo já comum na América do Norte e em países da América Latina, como Argentina e Uruguai. Em 1928, com a aprovação da resolução nº 290, o presidente finalmente teria sua vontade atendida.

Não se questionava mais a centralidade de Natal em relação ao estado do qual era capital. Essa cidade era o exemplo de progresso a ser seguido pelas municipalidades do interior do Rio Grande do Norte. A gestão de Omar O’Grady transformara Natal que, agora, podia sonhar com um destino maior. Sua natureza privilegiada e o desenvolvimento material pelo qual passava levavam a cidade a ser, potencialmente, um símbolo de progresso e centro de atividades do Nordeste. E como não há limites para o sonho, por que não pensar a cidade como o cais da Europa?

A expressão teria sido proferida, primeiramente, pelo ministro Victor Konder, que ressaltara a posição estratégica da cidade, na esquina do Continente, como fator importante para o seu desenvolvimento comercial. Ela foi usada em uma época em que Natal começava a se destacar como um importante campo de aviação, como afirma O’Grady nos relatórios municipais relativos aos anos de 1927 e 1928, destacando que a cidade caminhava para se tornar “um grande centro de aviação mundial (INTENDENCIA Municipal. RELATORIO… 1928, p 15.)”. Para um jornalista d’A Republica, a capital potiguar vinha tendo “uma decisiva projecção na vida do Nordeste, quiçá do Brasil inteiro (A REPUBLICA, Natal, 07 nov. 1928.)” e logo elevaria o nome do Rio Grande do Norte para toda a nação.

O investimento em estrutura urbana na capital surgiu de um esforço modernizador do prefeito Omar O’Grady (1924-1930) e dos governadores José
Augusto de Medeiros (1924-1928) e Juvenal Lamartine de Faria (1928-1930), em uma busca por transformar a cidade no “Cais da Europa” (ARRAIS, 2012), já que recepção de fluxo de aviação (VIVEIROS, 2008) e navios, se tornava mais constante e projetava o desejo de expansão e visibilidade da cidade.

Beires e Castilho, do avião “O ARGOS”, com Câmara Cascudo e o engenheiro Omar O´Grady, em 1927. Fonte: Viveiros, 1974.

REELEIÇÃO

Em fins de 1928, uma nova eleição ocorria para o Conselho de Intendência da capital. O’Grady não seria candidato, visto que o governador do Estado, José Augusto Bezerra de Medeiros, havia indicado o seu nome para ser o primeiro prefeito da capital. Os candidatos do PRF, mais uma vez, saíram-se vencedores. Fortunato Aranha, Enéas Reis, Julia Alves Barbosa (primeira mulher na Intendência), Francisco Cavalcanti, Toscano de Brito, Mons. Alves Landim e João Galvão Filho foram eleitos, juntamente com José Ulysses de Medeiros, Feliciano Carneiro e Alfrêdo Lyra, que ocuparam os lugares reservados à minoria. Deveriam permanecer na Intendência até o fim de 1931, mas foram depostos com o prefeito pelo movimento de 1930.

Em janeiro de 1929, Juvenal Lamartine renomeou Omar O’Grady para a Intendência e assumiu com este a tarefa de preparar Natal para o “futuro grandioso” que adviria de sua fundamental posição geográfica para a aviação comercial. Como chefe do poder Executivo Municipal, O’Grady, nos termos da lei, teria maior autonomia para gerir o município. Na prática, o aumento dessa autonomia já era percebido desde 1924, quando o engenheiro assumiu a gestão da cidade, visto que ele contava, desde então, com forte apoio e confiança do governador do Estado. Na gestão de Juvenal Lamartine, o prestígio do gestor municipal, agora prefeito, continuaria em alta.

E era chegado o momento de O’Grady pôr em prática aquele que seria, pelo sentimento da elite local, visto em nossas fontes, o maior projeto de sua gestão: o Plano Geral de Sistematização de Natal. Pelo que nos mostram os jornais e os relatórios do governo municipal, a cidade de Natal vivia
uma fase de crescimento, de expansão inédita em sua história (tão inédito quanto o aumento das dívidas municipais, como vimos) e, em virtude disso, era essencial que fosse beneficiada por um plano que regulasse essa expansão e projetasse o futuro crescimento da capital, mantendo-a em ordem, de acordo com os preceitos urbanísticos então em voga.

Na foto dos empresários visitando o porto, o homem de bengala e chapéu de palha era o então governador Juvenal Lamartine de Faria. Já o militar era o seu ajudante de ordens, o capital PM/RN Genésio Lopes. O que está de terno branco, chapéu de massa preto e “fumo” na lapela (luto) é o Engenheiro do Porto Décio Fonseca. Esta foto foi feita em uma visita durante a ampliação do porto, creio quem em 1929. O que está mais a esquerda é o Prefeito Omar Grant O’Grady.
A administração de Omar O’Grady é marcada pela instituição das vagas destinadas à minoria para o Conselho de Intendência. Nas eleições ocorridas no fim de 1928, foram definidas três vagas para as minorias. A vaga para o operariado foi mantida, tendo como candidato Sylvio Feliciano Carneiro de Souza, pelos operários. A iniciativa de criação das vagas para a minoria parte, ao que vemos, do Conselho de Intendência, sem dúvida com apoio do Governo do Estado, e é adotada nos dois pleitos do período, o de 1926 e 1929. Os governos de José Augusto Bezerra de Medeiros e Juvenal Lamartine no Rio Grande do Norte, entre 1924 e 1930, estão atentos para o crescimento dos grupos operários e apoiam e subvencionam as associações por eles criadas. A Intendência, ao instituir as vagas para a minoria, acompanha este movimento. Certamente, o aparecimento da figura do sindicalista Café Filho, que depois ocuparia a presidência da República com a morte de Getúlio Vargas, no início da década de 1920, liderando movimentos grevistas, pode ter acelerado esse processo de ampliação da participação dos grupos operários na política local. Quando as vagas para a minoria foram instituídas, porém, o sindicalista já não estava em Natal. Havia fugido para o Recife, por conta das perseguições sofridas no governo de Antonio José de Mello e Souza. Deve-se salientar que a medida é mais uma tentativa de trazer o operariado local para as“teias” dos poderes instituídos. Liga Artístico Operária Norte-Riograndense (Natal) Acervo do fotógrafo\Colecionador Esdras R.Nobre.

NOMEAÇÃO DA MISS RN

Em 1929, o Rio Grande do Norte participaria, pela primeira vez, de um concurso de beleza internacional. A competição que se realizaria na cidade de Galveston, nos Estados Unidos, pretendia eleger a mulher mais bela do mundo. A jovem que representaria a beleza brasileira no exterior seria escolhida no concurso de Miss Brasil, que teria lugar na cidade do Rio de Janeiro.

Em Natal, a escolha da Miss Rio Grande do Norte provocou agitação na imprensa e ansiedade da torcida, que acompanhava a cotação das suas candidatas favoritas pelas páginas do jornal A Republica ou pela revista A Cigarra. A candidata eleita deveria embarcar para o Rio de Janeiro e representar o melhor da beleza potiguar e disputar o título de Miss Brasil.

As votações para a escolha da representante local foram feitas a partir de um pleito popular, organizado por uma comissão do jornal A Republica. O voto popular indicou dez candidatas, das quais uma seria escolhida e nomeada miss Rio Grande do Norte, pelo então prefeito da cidade, Omar O’Grady. A movimentação social que se abria em torno do concurso, foi enorme e pôde ser acompanhada na imprensa. Para escolher a sua candidata favorita, mais de 9 mil pessoas enviaram seus votos à sede da redação d’A Republica. A campeã, na opinião dos leitores do jornal, com 2328 votos, foi Dalva Dantas.

A beleza de Dalva, de fato, encantou a muitos, mas Marilda O’Grady foi a vencedora oficial do concurso, eleita num pleito fechado, pela comissão do jornal. É possível que o parentesco com o prefeito tenha ajudado Marilda a ascender da posição de terceiro lugar, no pleito popular, para a primeira posição. Na opinião da revista Cigarra, a escolha do pleito foi imparcial.

A nota da Cigarra deixa claros os preceitos eugênicos que regiam o concurso de beleza. A escolha da Miss ia muito além da simples escolha de uma representante estadual, para o concurso de Miss Brasil, que teria lugar no Rio de Janeiro. A escolhida carregava consigo a responsabilidade de representar a imagem da mulher potiguar, provando que os ideais estéticos de beleza, que se acreditava serem atribuições das raças superiores, também eram encontradas nas terras Potiguares. Apesar da importância do concurso para a imagem do Estado, Marilda O’Grady não pode embarcar para o Rio de Janeiro a tempo de submeter-se aos exames antropométricos necessários a todas as candidatas que desejassem concorrer à faixa de Miss Brasil.

Marilda Odila O’Grady e Dalva Dantas (MISS Rio Grande do Norte.Cigarra, Natal, ano 2, n. 3, p. 12, abr. 1929.; O RIO Grande do Norte no concurso mundial de Galveston. Cigarra, Natal, ano 2, n. 3, p. 14, abr. 1929.)

PLANO GERAL

A necessidade de se confeccionar um plano geral para a cidade é levantada por O’Grady no relatório de gestão municipal relativo ao ano de 1927. Em suas palavras, o presidente da Intendência destacava, como tantos outros, que Natal era uma cidade privilegiada pela natureza e de um clima saudável e ameno, “destinada a se tornar um centro urbano de cunho original e cheio de encanto”. O seu recente crescimento, porém, mostrara alguns defeitos em sua estrutura física, em suas construções, que precisavam ser corrigidos.

No relatório do ano seguinte, O’Grady insiste na importância da criação de um plano geral para a cidade, o qual deveria vir acompanhado de um regulamento para as construções urbanas, ambos imprescindíveis, nas palavras do presidente, para o desenvolvimento da capital.

Em abril de 1929, a resolução de n° 304 finalmente autorizava o prefeito da capital potiguar a contratar, com profissional idôneo e de formação técnica, um plano de remodelação para a cidade. O escolhido para a execução da tarefa foi o arquiteto greco-italiano Giacomo Palumbo que, dois meses antes da aprovação do plano, dera uma entrevista ao jornal A Republica, fazendo observações sobre a cidade e o seu plano de remodelação.

A Resolução nº. 304, de 6.4.1929, autorizou o prefeito a contratar o plano de sistematização da cidade, realizado o contrato com outro arquiteto italiano, Giacomo Palumbo, a 22 do mesmo mês, os serviços devendo estar concluídos no prazo de um ano, pagando a Prefeitura ao contratante a quantia de Rs 100.000$000. Em seu relatório de 30.1.1930, à Intendência Municipal, o Prefeito Omar O’Grady explica que “não se trata de um projeto de realização imediata”, mas apenas “do delineamento de um plano geral de previsão estabelecendo normas dentro das quais a cidade deverá sistematizar-se e estender-se”. Estava já projetada uma parte do plano, “compreendendo desde o Forte dos Reis Magos, ao norte, até a rua Jundiaí e seus prolongamentos, ao sul”

Para Palumbo, “a cidade ideal deve ter do ponto de vista theorico duas partes bem distinctas, ou melhor, uma parte baixa e outra alta (A Republica, Natal, 24 fev. 1929.)”. Nesta perspectiva, propondo o zoneamento da cidade, o arquiteto defende o bairro da Ribeira como o lugar ideal para o desenvolvimento do comércio local, ao passo que Tirol e Petropólis destinar-se-iam a abrigar o “corpo de habitação” da capital. O espaço da Cidade Alta poderia se tornar “aprazivel e harmonioso” com “o desenvolvimento de bairros de residencia commum, tornados bairros jardins”. Ao Alecrim, caberia a função de bairro operário da capital.

Para o porto de Natal, de “admiraveis condições naturaes”, os planos eram também audaciosos. O cais de desembarque deveria ser uma “bella praça, de traçado moderno”, a qual serviria de cartão de visitas da capital potiguar para os que vinham de fora. Dando prosseguimento à explicação de seus
planos, Palumbo afirmava que a praça devia “continuar por uma larga avenida, que finalisará por um monumento ou edificio publico de silhueta monumental, que lhe dará o nome, segundo o modelo classico, em urbanismo, da Avenida da Opera ou dos Campos Elysios, de Paris. (A Republica, Natal, 24 fev. 1929)”.

O Plano Palumbo foi elaborado em 1929, na gestão do prefeito Omar O’Grady. Fonte: PMN/SEMURB, 2008
Durante a gestão do engenheiro Omar O’Grady como Intendente Municipal de Natal (denominação antigo do prefeito de Natal), as iniciativas de modernização da cidade, tanto governamentais como privadas, continuavam a seguir as propostas ditadas pelo Plano de Sistematização de Natal, elaborado pelo arquiteto Giacomo Palumbo, em 1929. Ao reformular esse plano original, ele teve a preocupação de projetar ruas largas, arborizadas e que as casas tivessem recuos. Projetou um bairro cidade-jardim entre o Rio e o Oceano Atlântico, atual bairro de Santos Reis, proposta inspirada nas ideias modernistas da época (Ferreira, 2008). Prancha 01 do Plano Geral de Sistematização de Natal. Natal parecia cumprir, enfim, o destino que lhe desejava a sua elite dirigente. Fonte: Cigarra, 1929.
Vista aérea da cidade (adaptação Aslan). Base cartográfica 2006. O Plano Geral de sistematização não foi implementado em sua totalidade. Fonte: SEMURB.

Quem sabe a comparação com Paris, antes mote de chacota feita pelo Diario do Natal (DIARIO DO NATAL, Natal, 24 mar. 1908), não se tornava, com o plano de remodelação, plausível? As opiniões e críticas expressas no jornal A Republica e na revista Cigarra enalteciam a ação dos governos municipal e estadual e revelavam profundo otimismo em relação às mudanças que o Plano traria para a cidade.

Câmara Cascudo também opinou sobre o Plano. Na revista Cigarra, lançada em fins da década de 1920, o escritor potiguar, em matéria intitulada Natal, outra cidade!, destacará a preocupação do arquiteto Giacomo Palumbo em harmonizar o velho com o novo, as antigas ruas com o traçado moderno, previsto pelo urbanismo:

Nada de arrazamento e de destruição. O material aproveitado é vasto. As ruas conservam a localisação antiga. A mão moderna rectificou para melhor onde se semeára á esmo. […] Aproveita-se o máximo, conservando-se as características da Cidade de tresentos annos feitos (CASCUDO, Luís da Câmara. Natal, outra cidade! Cigarra, Natal, ano II, n. 5, 1929.).

Ainda em 1929, Câmara Cascudo já se pensava incorporado à toponímia da cidade do Natal, levando-o a declarar: “em nome do meu futuro nome numa rua de Natal vamos plagiar o milagre de Santa Izabel – transformar em flores a terra feia que inda resta em Natal que Você [prefeito Omar O’Grady] está tornando bonita” (CASCUDO, Luís da Câmara. A taça florida. A República, Natal, 07 fev. 1929.).

Esse Plano, dentre outras ações, previa o zoneamento da cidade em “(…) quarteirões administrativo, commercial, industrial, a cidade recreio [bairro-jardim] e os bairros residencial e operario (…)” (PREFEITURA…, 1981a), a exemplo das proposições corbusianas formuladas no IV CIAM (Figura 61). Segundo a engenheira Carmem Portinho (1930c, p.02), colaboradora na formulação do Plano, o bairro residencial compreenderia a Cidade Nova – Petrópolis e Tirol – e a construção de um estádio de futebol, de um parque de corridas, de praças, áreas de recreação e do Aero-Club. O bairro-jardim seria instalado entre o rio Potengi e o Atlântico, provavelmente onde se situa atualmente o bairro de Santos Reis, cujas construções seriam submetidas a rigorosas normas do urbanismo, aplicando-se o zonning moderno e abertas largas vias. O bairro operário, por sua vez, seria um bairro inteiramente novo e afastado do centro (PORTINHO, 1930b, p.02), provavelmente localizado no bairro das Quintas, onde se encontravam instaladas as habitações da população mais pobre da cidade, construídas e/ou transferidas pela administração pública desde fins do século XIX.

Zoneamento do Plano de Sistematização (1929). Fonte: DANTAS, 1998.
Bairro das Quintas, 1925. Fonte: JAECI, 2006.

Nesse mesmo ano, a elite local fica encantada com a visita de uma comissão de kodaks (A REPUBLICA, Natal, 10 fev. 1905.) à capital potiguar, ressaltando, mais uma vez, o senso prático típico desse povo.

Palumbo idealizou um plano que já olhava Natal com uma perspectiva futurista, pois projetava a cidade com uma população de cem mil habitantes, o que só ocorreu em 1950. Esta visão de futuro demonstra sensibilidade em fazer da cidade um lugar melhor de se viver. Além do Plano Geral de Sistematização, destacou-se a Lei nº. 04/1929. Essa Lei regulamentou as construções, o zoneamento da cidade e o arruamento, possibilitando, deste modo, o executivo municipal de fiscalizar a cidade com instrumentos legais.

Para que tenhamos uma ideia dos avanços nos meios de transportes, Cascudo lembra que a autorização para circulação de ônibus em Natal data de 24 de janeiro de 1929, como consta no Decreto nº. 415 (CASCUDO, 1999, p. 311). É nesse final da segunda década do século XX, quando a cidade conhece essas melhorias no transporte público, que o prefeito Omar O’Grady contrata o arquiteto Giácomo Palumbo para desenvolver um plano de urbanização.

O artigo 1º da Lei nº. 04 de 2 de setembro de 1929 já apontava para a necessidade de um maior controle, por parte do executivo municipal, de tudo que era construído nos limites da Cidade do Natal. Segundo este artigo:

Art.1º. – As construcções, reconstrucções, acréscimos e modificações de prédios no Município de Natal, ficam de ora em deante subordinadas às disposições da presente Lei e para sua conveniente applicação é o Município dividido em quatro zonas: – primeira zona ou central; segunda zona ou urbana; terceira zona ou suburbana e a quarta zona ou rural (LEI nº.4 de 02 de setembro de 1929.).

A URBANIZAÇÃO DO ALECRIM

A Natal caminhava então para além do Oitizeiro, buscando novos espaços, transformando a urbe colonial numa cidade moderna. Este foi o desafio proposto por Omar Grant O’Grady. Neste aspecto o Alecrim ganhou uma dinâmica própria, transformando-se numa espécie de “bairro mercado”, aproveitando a vocação da região e também o seu traçado urbano que permitia uma maior ligação com outras regiões de Natal e do interior. É interessante quando nos referimos a ocupação urbana do Alecrim, pensar Natal como a região pólo, lugar em que existiam as melhores oportunidades. Emprego público, atividades comerciais.

Outras hipóteses foram levantadas nas entrevistas e trabalhos existentes sobre a história do Alecrim. Conforme Edna Furtado (FURTADO, 2004), as ruas numeradas foram consequências do “Plano de Sistematização de Natal”, também conhecido como “Plano Palumbo”, elaborado pelo arquiteto italiano Giacomo Palumbo, em 1929. Segundo essa versão, o então prefeito de Natal, Omar O’Grady (1926-1930), solicitou a Palumbo a construção de um plano de sistematização urbana para a cidade, no intuito de modernizar Natal, torná-la mais próxima, ao menos no que se refere ao planejamento
urbano, das cidades européias, consideradas, à época, padrões da modernidade. Assim, a autora elucidou que as ruas do Alecrim foram identificadas por números antes da Segunda Guerra Mundial.

Alguns moradores do Alecrim comentaram que O’Grady teria sido o responsável por designar as ruas do Alecrim com números e não por fornecer denominações para as ruas já numeradas do bairro. Para Francisco Derneval de Sá, que se estabeleceu no Alecrim no final da década de 1950, a numeração das ruas do Alecrim foi fruto do plano Palumbo, durante a gestão de O’Grady :

(…) era prefeito de Natal um cidadão chamado Omar O’Grady, um cidadão de família abastada que viajava muito e conhecia as cidades mundo afora, já um pouco civilizado. Então, ele conheceu um arquiteto na Itália, chamado Giacomo Palumbo, e o convidou para vir a Natal, fazer um projeto do desenvolvimento da cidade. Esse projeto foi tão bem feito que até hoje perdura e é fato de elogio das pessoas que visitam Natal (…). Quanto ao sistema da nomenclatura das ruas, a colocação dos números, é pela falta exatamente de nomes naquela época. Como era um projeto, ele estava no papel, não tinha nomes de pessoa. (SÁ, 2011).

A falta de calçamento não era privilégio da Rua Olinto Meira. Segundo Bezerra (2005), somente 14 anos após a oficialização do bairro o calçamento começou a ser providenciado, na gestão do prefeito Omar O’Grady (1926-1930). Dez anos depois, Gentil Ferreira, na sua gestão, continuou o trabalho de calçamento e sabe-se, que entre 1960 e 1980, “quase todas as ruas do Alecrim, haviam sido pavimentadas e algumas afaltadas” (BEZERRA, 2005, p. 102).

A entrevista realizada com o intendente O’Grady por “A República”, em 27 de março de 1930 – sob o título de “A cidade que se renova. Urbanismo e architectura – O anseio de construcções modernizadas”, reflete o processo de investimento na pavimentação dos logradouros públicos da cidade e a importância que isso tem no ambiente de modernização pretendido.

Ao lado de obras publicas de acentuado valor, pela esthética de nossa capital, como o calçamento a parallelepipedo da Junqueira Ayres e da praça Augusto Severo, e a adaptação de meios-fios de granito; além do serviço de drenagem de águas pluviais num dos centros mais movimentados da Ribeira; afóra a construcção de 10.898 ms. quad. de estradas de rodagem, o prefeito da Cidade, máo grado a situação de dificuldades financeiras por que atravessa o município conta, dentro de breves dias, pelo que nos affirmou, concluir o nôvo calçamento, também a parallelepipedos, sobre base de concréto, assentados e rejuntados com argamassa de cimento, na avenida Rio Branco, e que, há de constituir, com o da praça Pio IX, um dos mais valiósos serviços de utilidade urbana (A CIDADE…, 1930, p. 02).

. O crescimento da cidade e os melhoramentos materiais e espaciais vividos durante a gestão O’Grady se adequavam, sobretudo, ao modelo das gestões municipais nas cidades americanas. A Intendência assumia o papel principal no processo de intervenção urbana. Os periódicos locais enaltecem o trabalho de Omar O’Grady, especialmente no tocante ao programa de calçamento de vias realizado pelo prefeito.

A Av. Tavares de Lyra na Ribeira. Postes de força e trilhos para os bondes e uma fila de automóveis ladeando-a. No fundo, vê-se um automóvel em circulação. Fonte: Acervo do HCUrb.
A história que terminava era aquela do passado colonial. “O prefeito Omar O’Grady
pôs Natal no caminho do século XX. Estava [ainda] no XVIII” (Cascudo, 1947, p.148.) Embora não quisesse resumir todo um processo de transformação em apenas uma década ou nos seis anos de administração de Omar O’Grady, ou mesmo em uma única obra de reforma urbana, o calçamento da Junqueira Ayres adquiria, para Cascudo, uma importância chave para simbolizar ou sintetizar essa passagem para uma cidade moderna.
A Junqueira Ayres, no final da década de 1920, era a avenida por onde passavam os
bondes e os ônibus, desciam as normalistas e estudantes rumo à Escola Doméstica; rumo à Av. Tavares de Lira, iam-se às vitrines à moda parisiense, aos cafés e rotisseries e aos pontos chics de reunião, passear a elegância e o spleen de Natal; assistir as regatas no rio Potengi ou aos espetáculos e filmes do Cine-theatro Carlos Gomes e do Politheama. Pela Av. Junqueira Ayres passavam muitos daqueles que tinham seus afazeres entre os bairros da Ribeira e da Cidade Alta. O seu calçamento defeituoso, além de um entrave à circulação na pequena capital, era a lembrança de um passado que não se queria para Natal; o passado expresso nos antigos topônimos – antiga Ladeira, Subida da Ladeira ou rua da Cruz – que designavam o único e difícil acesso, a “ladeira íngreme, escorregando como sabão depois das chuvas”,96 entre os dois núcleos primeiros que configuravam o espaço urbano da Natal do período colonial.
Praça Augusto Severo e a estação da E. F. Natal a Nova Cruz. Destaque para o bonde
integrando o transporte inter ao intra-urbano. Fonte: Acervo do Centro Norte-Riograndense de Documentação, Rio de Janeiro.
– O bonde subindo a Avenida Junqueira Aires, atual Câmara Cascudo. Foto: João Galvão. Fonte: Acervo do HCUrb.
Outra imagem do bonde subindo a Junqueira Aires. Fonte: Acervo do HCUrb.
A linha de bonde na Praça Sete de Setembro, com destaque a Prefeitura
do Natal. Fonte: Acervo HCUrb.

O FIM DE UM SONHO

Mas a última dessas ações, o Plano de remodelação da cidade, acabaria não sendo posto em prática. O’Grady seria deposto em 1930, e o plano racional que planejava o futuro desenvolvimento da urbe e que a poria de vez no rumo do progresso não sairia do papel. Teria sido diferente se o engenheiro tivesse se mantido no cargo de prefeito da cidade? Poderíamos fazer um exercício de imaginação para respondermos a essa questão, mas esse esforço, certamente, seria infrutífero. Há de se perceber, contudo, que o plano representava um ideal para a cidade. O que estava na prancha, como ideal, não poderia se transformar em realidade, não em sua plenitude, ao menos. O desejo por uma nova urbe, entretanto, havia, de alguma maneira, mudado o jeito de ser de Natal.

Com o movimento de 1930, dita Revolução pelos que lideraram o processo, O’Grady foi destituído da prefeitura. O plano geral de sistematização, com seu zoning, seria usado apenas em parte na década de 1930, pelo escritório de engenharia de Saturnino de Brito.

Com a deposição do prefeito Omar O’Grady, em 1930, pelo golpe getulista, o planejamento feito por Palumbo não foi possível de ser realizado e, segundo, o arquiteto Pedro de Lima, essa “paisagem corrigida pela inteligência” já havia sido estabelecida com o Plano da Cidade Nova, o único a ser efetivamente implementado em Natal.

Adauto Câmara (1992), em suas memórias, descreve o inusitado da fuga de governador Lamartine e a respectiva participação de O´Grady. A citação é longa, mas vale a pena conferir:

No dia 20 de outubro, o sr. Juvenal Lamartine chegava ao Rio, a bordo do Flândria. (…) Chegando ao Rio, o sr. Lamartine, guardando o incógnito (sic) tanto quanto o possível, hospedou-se no Hotel Tijuca, distante da cidade, com o sr. Omar O’Grady.20 Dois dias depois passou-se para o Colégio dos Padres Maristas a cuja comunidade pertencia aquele hotel. (…) No Colégio, o presidente potiguar não tomou o hábito religioso, mas, oficialmente, era irmão Antônio Felipe. Sucedeu, porém, que os alunos desconfiaram daquele novo Irmão e, para maior segurança deste, foi deliberado transferi-lo para a rua Haddock Lobo, 206. Fizeram-lhe companhia ali os srs. Omar O’Grady e o deputado Cristóvão Dantas. Na noite de 20 de outubro, tendo o sr. José Augusto sido avisado de que o movimento revolucionário rebentaria, no Rio, na manhã seguinte, providenciou, pelas 23 horas, a mudança do sr. Lamartine, que foi para o Hotel Vera Cruz, à praça Tiradentes, onde ele foi confiado a um amigo. Na manhã de 24, já o movimento sedicioso declarado no Rio, o deputado Álvaro de Vasconcelos foi buscá-lo e o acompanhou até a casa do sr. Vicente Sabóia, à avenida Pasteur. A polícia o procurava por
toda a parte. A residência da “Doutora” Berta Lutz esteve guardada três dias, por se suspeitar que ele ali estivesse. A residência do ex-senador José Augusto foi varejada por soldados embalados (…).
A situação do sr. Lamartine era difícil, porque os políticos paraibanos o detestavam por lhe atribuírem participação no levante de Princesa.
Urgia pô-lo a salvo de qualquer desacato ou humilhação. (…)
O sr. José Augusto conseguiu que o ex-chanceler Otávio Mangabeira obtivesse para ele um asilo diplomático (…) (CÂMARA, 1992, 129-130).

Em 8 de outubro de 1930, como parte do processo da Revolução de 1930, foi lançado no Rio Grande do Norte um decreto que destituía de seus mandatos todos os prefeitos e intendentes do estado. Era o fim do governo de Omar O’Grady em Natal.

Ainda sobre as obras do calçamento, vale lembrar que foram em torno delas que mobilizaram-se as acusações e processos judiciais e administrativos no período pós-outubro de 1930. O’Grady seria acusado de improbidade, malversação dos recursos da intendência, com o suposto superfaturamento da reforma do cais Tavares de Lyra e do contrato para aquisição de paralelepípedos, entre outras.37 No início de 1932, o ex-prefeito seria absolvido, como registrou o Jornal A República (Cf. A República, Natal, n.356, p.01, 09 jan. 1932.).

Omar Grant O’Grady foi um engenheiro e político brasileiro, que foi prefeito de Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, nos anos de 1924 a 1930.

Em 10 de março de 1936, Omar O’Grady, com outras dezesseis pessoas, fundou o Rotary Club de Natal, primeiro Rotary Club no Rio Grande do Norte. Omar O’Grady tornou-se, então, o primeiro presidente do Rotary Club de Natal, e um de seus dezessete sócios fundadores. Foi presidente do Rotary Club de Fortaleza.

Almoço para a Marinha Americana no Palace Hotel em 1944 oferecido pelo Rotary Club de Fortaleza. Tomaram parte nesta reunião, além de Lauro de Andrade Borba, Governador do Distrito e Dorgival Mororó, delegado do clube de João Pessoa, o convidado Omar Grant O’Grady, engenheiro no Rio Grande do Norte e diversos representantes da imprensa, e 31 companheiros, sócios fundadores que eramseguintes:

Omar Grant O’Grady faleceu em 31 de outubro de 1985, na cidade do Rio de Janeiro. A missa de sétimo dia em sua memória ocorreu aos 6 de novembro do mesmo ano, na Paróquia Nossa Senhora de Copacabana.

LEGADO

Para além das inúmeras obras deixadas obras pela Cidade de Natal a Primeira Unidade de Conservação Ambiental Municipal, o Parque da Cidade do Natal Dom Nivaldo Monte tem em um dos seus acessos públicos pelo lado leste a Avenida Prefeito Omar O’Grady – Candelária.

FONTES SECUNDÁRIAS:

ARRAIS, Raimundo. A cidade, o todo e as partes. In: ARRAIS, Raimundo (Org). A Terra, os homens e os sonhos: a cidade de Natal no início do século XX. Natal: Sebo Vermelho, 2017.

BEZERRA, Luiz G. M. A fundação do Alecrim Futebol Clube. O Potiguar, Natal, n. 13, ago. 1999.

CÂMARA, Adauto. O ocaso da República Velha no Rio Grande do Norte (memórias). Rio de Janeiro: Edição do autor, 1992.

CASCUDO, Luís da Câmara. História da cidade do Natal. 2. ed. (1. ed. 1947). Rio de Janeiro/Natal: Civilização brasileira; EDUFRN, 1980.

DANTAS, George Alexandre Ferreira. Natal “Caes da Europa”: o Plano de Sistematização no Contexto da Modernização da Cidade (1920-1930). Monografia de Graduação. Natal, UFRN, 1998.

DANTAS, Manoel. Coisas da terra. A Republica, Natal, 11 set. 1917

FERREIRA, Angela Lucia (et al). Uma cidade sã e bela: a trajetória do saneamento em Natal – 1850 a 1969. Natal: IAB-RN/CREA-RN, 2008.

FURTADO, Edna Maria. O bairro do Alecrim: a construção de um estilo próprio para sobreviver, Revista Sociedade e Território, ano 16, n. 1. p. 163-177, jan. 2004.

LYRA, Carlos. Natal através do tempo. Natal: Sebo Vermelho, 2001.

O’GRADY, Omar. Os problemas da cidade. A República, Natal, suplemento especial, 01 jul. 1929, n. 121, p. 01.

PORTINHO, Carmem Velazcos. Os progressos constantes da aviação. A República, Natal, 16 abr. 1929, n. 85, p. 01.

POMBO, Rocha. História do Rio Grande do Norte. Edição comemorativa do centenário da independência do Brasil (1822-1922). Rio de janeiro: Annuario do Brasil; Porto: Renascença portuguesa, 1922.

SÁ, Francisco Derneval de. Francisco Derneval de Sá: depoimento [fevereiro, 2011]. Entrevistadores: Gustavo Gabriel de Lima Silva e Thaiany Soares Silva. Natal: SEMURB, 2011. Entrevista concedida ao Programa Memória Minha Comunidade.

SANTOS, Renato Marinho Brandão. Natal, outra cidade!: o papel da Intendência Municipal no desenvolvimento de uma nova ordem urbana na cidade de Natal (1904-1929). 2012. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2012.

VIVEIROS, Paulo. Histórias da aviação no Rio Grande do Norte. Natal: EduFRN, 2008.

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Natal, outra cidade! [recurso eletrônico] : o papel da Intendência Municipal no desenvolvimento de uma nova ordem urbana na cidade de Natal (1904-1929) / Renato Marinho Brandão Santos. – Natal, RN : EDUFRN, 2018.

Natal também civiliza-se: sociabilidade, lazer e esporte na Belle Époque Natalense (1900-1930) / Márcia Maria Fonseca Marinho. – Natal, RN, 2008

O Estado Novo no controle da informação cotidiana: o caso da cidade de Natal (1941-1943) a partir do jornal “A República” / Fernanda Carla da Silva Costa. – João Pessoa, 2019.

Ordenamento Urbano de Natal: do Plano Polidrelli ao Plano Diretor 2007 / Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo. – Natal: Departamento de Informação, Pesquisa e Estatística, 2007.

Praia de Ponta Negra: uma abordagem da paisagem costeira de 1970 a 2010, Natal/RN / Ana Beatriz Câmara Maciel. – 2011.

UM HISTÓRICO DO PLANEJAMENTO URBANO EM NATAL – RN. Ian Bruno Mendonça TAQUARY. Patrícia Santos FAGUNDES.

Uma requalificação urbana em Santos Reis / Ivana Gonçalves Soares. – Natal, 2018.

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